Apresentamos, nesta série de publicações, um registro histórico detalhado sobre a evolução da Igreja Ortodoxa, desde as suas fundações apostólicas até a era moderna.

O conteúdo aqui reproduzido tem como base a obra organizada pela Santa Metrópole de Thyateira, publicada originalmente em 1931, sob a supervisão do Metropolita Germanos e redação do Reverendo Constantino Callinicos.

Este documento oferece uma perspectiva confessional sobre os principais eventos que moldaram a cristandade oriental: os primeiros concílios, as perseguições do Império Romano, o Grande Cisma e a expansão da Ortodoxia pelo mundo.

Dividida em três grandes eras (Antiga, Medieval e Moderna), a obra serve como uma fonte de consulta para quem deseja compreender a sucessão apostólica e a preservação das tradições cristãs no Oriente.

Cristo ressucitou.

Introdução

Este livro é um da série que foi iniciada pela Santa Metrópole de Thyateira com a publicação do Catecismo Ortodoxo Grego. Este breve esboço da História da Igreja Ortodoxa pretende dirigir-se assim como a série mencionada, principalmente para Cristãos Ortodoxos, que, tendo nascido em países onde sua língua mãe não é falada, têm mais facilidade em compreender na linguagem do país de sua adoção. Este livro não pretende ser de uso exclusivo para crianças aprenderem o catecismo, mas sim pretende ser do interesse de cristãos ortodoxos, que desejam ter um breve, mas confiável relato da evolução da Igreja Ortodoxa através dos séculos da Era Cristã. Além disso, acreditamos que, apesar de existirem algumas obras em inglês que tratam de maneira geral da Igreja Ortodoxa, este livro é o primeiro que contém uma breve história da Igreja Ortodoxa, o trabalho de um Erudito Ortodoxo, que cai em mãos de leitores da língua inglesa. É um livro que toca em todos os períodos da sua história e, acima de tudo, no último período, que, em sua maior parte, não foi estudado pelos não-Ortodoxos. As relações próximas que especialmente no passado recente se desenvolveram entre as duas Igrejas, a Ortodoxa e a Anglicana, e os recentes contatos estabelecidos entre elas na Conferência de Lambeth tornam o contexto desse livro, em tratando das projeções futuras da Igreja Ortodoxa, interessante e atual.

A Compilação nesse trabalho foi confiada pela Santa Metrópole de Thyateira ao Vigário da Igreja Grega em Manchester, o Reverendo Constantino Callinicos, autor de muitos escritos religiosos e teológicos notáveis. Na recente publicação de um importante "Comentário sobre os Salmos," ele recebeu um sinal de honra das mãos do Patriarcado Ecumênico que lhe outorgou o título, de rara distinção na Igreja Ortodoxa, "Grande Economo da Grande Igreja." O Reverendo Callinicos cumpriu a tarefa que lhe foi confiada com grande perícia. Não só ele se absteve de insistir em questões que, ainda que incluídas na vida e história da Igreja, não têm relação imediata com sua natureza essencial; ele também se recusou a meramente recolher material que é facilmente obtenível nos escritos históricos de outras Igrejas. Seu profundo amor pela Igreja Ortodoxa e devoção à Igreja Ortodoxa, sua insistência na verdade histórica e acurácia, e, finalmente, seu estilo polido de escrever são características do presente trabalho do autor, assim como de todos os seus trabalhos.

A tradução para o inglês foi conduzida zelosamente por Miss Natzio. O fato de que essa Senhora nasceu e foi criada na Inglaterra e tem uma carreira de sucesso na Universidade da Inglaterra (B.A. e B.Utt. Oxford) tem, em si, a garantia de uma tradução acurada e perfeita. A ambos, autor e tradutora, portanto, expressamos nossos calorosos agradecimentos e damos nossa bênção.

É nossa esperança que esse livro, preenchendo o propósito para o qual foi escrito, possa ajudar a tornar a Igreja Ortodoxa mais amplamente conhecida — uma Igreja que, no passado, aguou a árvore do Cristianismo quando ela primeiro foi plantada nessa terra com o sangue de seus mártires, e ainda hoje tem mártires para mostrar sua luta contra os poderes que se colocam contra sua existência verdadeira.

+ O Metropolita de Thyateira, Germanos

Londres, Domingo de Ramos, 1931

Parte I

Tempos Antigos (A.D. 33-700)

1. Os Primeiros Pregadores do Evangelho

A Comunidade Cristã em Jerusalém.

A história da Igreja começa no dia de Pentecostes, que por essa razão tem sido chamado de aniversário da Igreja. Naquele dia, à presença de cento e vinte pessoas, o Espírito Santo desceu sobre os discípulos, e eles começaram a falar em diversas línguas, de modo que judeus de longe que estavam morando em Jerusalém ficaram espantados com a súbita transformação de homens que ainda ontem eram simples pescadores. Mas o apóstolo Pedro, levantando-se no meio deles, explicou que essa transformação era devida a Jesus o Nazareno, que, apesar de crucificado pelos judeus, tinha ressuscitado pelo poder de Deus. E naquele mesmo dia três mil almas se juntaram à nova fé. Alguns dias depois, quando Pedro e João estavam a caminho do templo para rezar, um pedinte aleijado que estava deitado no templo pediu esmola a eles: "Prata ou ouro não tenho nenhum," disse Pedro; "mas posso dar tal a ti: em nome de Jesus Cristo de Nazareth, levanta-te e anda." O homem aleijado foi curado e Pedro, segurando-o pela mão, mostrou-o para a multidão atônita que amontoou-se para ver o milagre, como um testemunho do poder de Cristo. E os tres mil fiéis de antes tornaram-se cinco mil.

Estevão, o Primeiro Mártir.

Assim, os primeiros seguidores do Cristo crucificado cresceram aos saltos e formaram a primeira comunidade Cristã em Jerusalém. Unidos por laços de amor mútuo, como nunca havia sido visto antes, eles comiam em mesas comunitárias e sob a supervisão geral dos apóstolos e tinham todas as suas posses em comum. Mas logo, no entanto, os Apóstolos não eram mais capazes de atender às necessidades materiais e espirituais de tantos milhares de almas; então, mantendo para si o ministério espiritual, indicaram sete diáconos para organizar o aprovisionamento da comunidade. Destacava-se entre os sete por sabedoria e santidade Estevão. Cheio de santo zêlo, ele renunciou aos judeus por sua surdez para a voz do Senhor, que ficaram enraivecidos e acusaram-no de blasfêmia, condenando-o à morte por apedramento. "Senhor Jesus, recebe meu espírito!" foram suas palavras antes da morte.

A Conversão de Saulo.

A morte de Estevão o Mártir foi o sinal de partida para uma grande perseguição contra a recém-estabelecida Igreja, que era intolerável para as autoridades judias como uma apostasia da lei de Moisés. Mas essa perseguição local tornou-se vantajosa para a nova fé, porque seu efeito foi espalhar os irmãos de Jerusalém, onde até então eles estavam confinados, enviando-os para carregar as sementes do evangelho não só para outras cidades da Judéia, mas também para a Samaria, Fenícia e Chipre, e até para Antioquia, onde pela primeira vez os fiéis ao Cristo foram chamados de Cristãos. Foi também a morte de Estevão, que primeiro pôs em evidência Saulo, então ainda um fanático fariseu, que atacava selvagemente a Igreja Cristã, mas que estava divinamente indicado para tornar-se o mais ardoroso e frutificante dos Apóstolos do Senhor. Sua conversão para o Cristianismo ocorreu no ano 35 D.C. fora de Damasco. Uma grande luz brilhou subitamente cercando-o, e a voz do Salvador soou em seus ouvidos: "Saulo, Saulo, por que me persegues?” É duro para ti recalcitrar contra os aguilhões. "Então ele foi batizado, mudando seu nome de Saulo para Paulo; os Apóstolos o receberam em sua fraternidade, e, cercado por perigos e perseguições, ele embarcou naquelas grandes e missionárias jornadas que fariam do Cristianismo uma fé universal.

As Jornadas do Apóstolo Paulo.

Em sua primeira jornada missionária (45-51), Paulo saiu de Antióquia na Síria e após visitar em um turno Seleucia, Chipre, Perga em Panfilia, Antioquia em Pisidia, Iconio, Lysdra e Derbe, ele então, retornou para seu ponto-de-partida para logo depois atender o Sinodo Apostólico em Jerusalém, onde ele defendeu a independência do Cristianismo das formas e cerimônias prescritas pela lei Mosaica, Sua segunda jornada missionária (53-55) foi feita com o intuito de visitar e reforçar na fé as comunidades estabelecidas recentemente, mas seu zêlo dirigiu-o para Troas, no lado mais distante da Asia Menor, onde ele tomou um barco para a Europa e fundou as Igrejas de Filipo, Amfipolis, Apolônia, Tessalônica, Berea, Atenas e Corinto. E na sua terceira jornada missionária (56-59), Paulo adotou por algum tempo como seu quartel-general a grande cidade de Efeso na Ásia Menor, para desgôsto dos devotos de Diana. De lá, prosseguiu para visitar as comunidades recém-fundadas na Macedônia e na Grécia, e no seu caminho de volta pregou o Evangelho em Metilene, Chios, Samos, Mileto, Cos, Rhodes e Tiro na Tenícia, retornando a Jerusalém pelo caminho da Cesaréia.

A Prisão e Martírio de Paulo.

Mas os judeus, que nunca cessaram de perseguir Paulo como um traidor e corruptor de sua religião, agarraram-no e o puseram na prisão, primeiro em Jerusalém, depois em Cesaréia. Por dois anos o Apóstolo esperou em vão por sua absolvição pelo procurador romano; sob a influência dos judeus, o procurador adiou o julgamento dia por dia. Finalmente Paulo, como cidadão romano, apelou para seu direito de apelar diretamente ao César, e assim ele foi mandado acorrentado para Roma, aonde depois de uma viagem tempestuosa ele chegou em A.D. 62. Lá, apesar de estar sempre sob guarda militar, ele viveu em uma casa própria onde ele esteve autorizado a receber livremente e pregar o Evangelho para todos na grande capital do Império Romano. Nesse ponto, a narrativa dos Atos dos Apóstolos chega ao fim. De acordo com certos escritores antigos, o martírio de Paulo teve lugar sob Nero em A.D. 64, imediatamente depois do período na prisão. Outros, no entanto, afirmam que nessa ocasião ele foi libertado, e depois de ter feito ainda uma quarta jornada "para o mais longínquo ocidente" (isto é, Espanha), ele voltou a Roma, onde ele foi decapitado em A.D. 66 ou 67.

O Apóstolo Pedro.

Paulo, que devotou quase toda sua energia à conversão dos pagãos, tem sido chamado o " Apóstolo dos Gentios"; Pedro, por outro lado, colocou toda sua atenção nos judeus, e por isso é conhecido como o "Apóstolo da Circuncisão." Seu batizado do meio-Pagão centurião Cornelius, depois de receber em uma visão a divina ordem de não chamar de comum aqueles a quem o Senhor havia purificado, foi um mero episódio na carreira de um homem cuja vida foi dedicada exclusivamente a seus companheiros judeus. Primeiro Pedro ficou em Jerusalém com os outros Apóstolos e desempenhou um papel importante nos primeiros estágios do Cristianismo. Sua vida foi ameaçada por Herodes Agripa, para grande satisfação dos judeus, mas após sua escapada milagrosa da prisão, ele logo deixou Jerusalém e viajou por Pontus, Galácia, Bitínia e outras partes da Ásia Menor. Por muitos anos ele cuidou dos Cristãos de Antioquia como seu primeiro bispo. Mas, como Paulo, ele finalmente chegou a Roma, onde, de acordo com a tradição, foi crucificado no reinado de Nero, de cabeça para baixo, já que ele se considerava mesmo na morte, indigno de ser colocado no mesmo nível que seu Salvador. A história do martírio de Pedro deve ser encarada como fato estabelecido, sendo sustentada tanto pela previsão de Nosso Senhor (conforme João 21:18) quanto pela evidência de escritores antigos; que ele floresceu como Bispo de Roma por vinte e cinco anos é, no entanto, somente um mito. No A.D. 51 ele estava presente no Sinodo Apostólico em Jerusalém. Em A.D. 58, Paulo, escrevendo sua Epístola aos Romanos, não menciona seu nome, apesar de mandar saudações para muitos fiéis de Roma. Em A.D. 62, quando Paulo chegou a Roma como prisioneiro, Pedro não veio cumprimentá-lo, e apesar de Pedro escrever várias de suas Epístolas durante sua estadia em Roma, não o menciona nenhuma vez. O historiador Eusébio, alem disso, fala de Lino como primeiro Bispo de Roma.

Os Outros Apóstolos.

Como Pedro e Paulo, os outros apóstolos também selaram suas mensagens com seu sangue. Tiago, o mais velho, o irmão de João, foi decapitado em Jerusalém sob Herodes Agripa, de acordo com o indisputável testemunho dos Atos dos Apóstolos. Tiago o mais novo, ou "Adelphotheos," que tornou-se o primeiro Bispo de Jerusalém depois da partida dos outros apóstolos, foi jogado do pináculo do templo, de acordo com Hegisippus, e apedrejado pelos judeus quando confessou Jesus Cristo o Filho de Deus. André, que viajou por Scythia e fundou a primeira Igreja Cristã em Bizâncio, foi crucificado em Patras, assim diz a tradição, numa cruz em X que desde então leva seu nome; enquanto Tomé teve seu lado furado por uma lança depois de uma frutífera carreira na Pérsia, Etiópia e Índia. Na verdade, praticamente todos os Apóstolos coroaram o trabalho da vida com morte por martírio, apesar de em muitos pontos suas histórias serem obscuras e confusas, tendo sido passadas para nós não por histórias autenticadas, mas sim por tradição popular.

O Apóstolo João.

Uma única exceção foi João, o discípulo Amado, o mais jovem de todos, que morreu pacificamente no ano de encerramento do primeiro século da era Cristã. Depois da dispersão de seus companheiros discípulos, João fez de Efeso o centro de suas atividades, e dali dirigiu todo o trabalho missionário na Ásia Menor, especialmente depois da morte dos outros Apóstolos. Durante o reinado do Imperador Domiciano ele foi banido por um tempo para a ilha de Patmos, onde, segundo a maneira dos antigos profetas, ele escreveu o Livro da Revelação. Mas foi devolvido para seu rebanho e viveu entre eles até tal idade avançada que no final de sua vida tinha que ser carregado para o local de celebração, onde, muito fraco para fazer um longo discurso, limitou todo seu ensinamento a essas simples palavras: "Crianças, amem-se umas às outras." Pois para João a síntese de toda moralidade Cristã é o amor. É delatado que esse Apóstolo foi fortemente atraído por um excelente e dotado jovem e o adotou como filho. Mas o jovem, durante a ausência do Apóstolo, foi desviado por companhias perniciosas e tornou-se um chefe de bandoleiros. O velho Apóstolo subiu para as montanhas e procurou até que encontrou sua ovelha desgarrada, quando colocando-a nos ombros, trouxe-o de volta, arrependido, para o rebanho Cristão.

2. O Conflito entre Cristianismo e Paganismo.

Progresso com Empecilhos.

Sob os sucessores dos Apóstolos durante o segundo e terceiro século, o Cristianismo ainda continuou a ganhar terreno dia a dia. O filósofo e mártir Justino, que morreu em A.D. 166, foi já capaz de afirmar que em seu tempo existiam pouquíssimas raças de homens na terra, bárbaros ou civilizados, nomades ou morando em tendas, entre os quais não eram oferecidas orações para o verdadeiro Deus, revelado através de Jesus Cristo. E os fatos provaram que a afirmação de Justino não era uma simples retórica bombástica. Na Ásia Menor, na Bitínia, o jovem Plínio viu com alarme o rápido espalhamento da nova religião. Na Síria, a luz do Evangelho brilhou de Antioquia como uma terra luminosa. Em Atenas os Bispos apostólicos, Diniz o Aeropagita e Quadratus, continuaram a pregação de Paulo para o Deus desconhecido. Na Itália as comunidades Cristãs estavam se multiplicando, como Roma sendo sua metrópole espiritual; enquanto que no sul da França, Lyon e Vienne eram proeminentes centros Cristãos. Na África, grandes homens da Igreja cobriram Cartago de glória e disseminaram a fé nas cidades vizinhas; enquanto que a Igreja de Alexandria fundada por Marcos o Evangelista era como outro faraó para o Egito. Mas esse progresso não foi obtido sem encontrar sérios obstáculos. O Império Romano, que detinha a chefia do mundo, era um império pagão, e naturalmente olhou para a minação do paganismo como o equivalente à ameaça sobre suas próprias bases. Levantou-se então a onda de perseguições dos três primeiros séculos, que se interrompia às vezes em intervalos, mas voltava com renovada violência, com o objetivo de exterminar a fé Cristã, até que após trezentos anos de luta o Império depôs sua espada aos pés de Cristo.

Perseguição Sob Nero e Domiciano.

A primeira perseguição teve lugar no reinado de Nero, em A.D. 64. Esse monarca endemoninhado e demente que havia matado seu tutor, seu irmão e sua mãe com tanto gosto como se estivesse lendo poemas de Homero pôs em sua cabeça por fogo em Roma, para ter uma impressão realista da queima de Tróia pelos Gregos. Mas seu povo descobriu a origem da conflagração, e para se salvar da raiva do povo ele jogou a responsabilidade sobre a seita recém-criada dos Cristãos, de quem os pagãos já tinham ódio por considerá-los pessoas atéias e anti-sociais. Alguns dos cristãos foram crucificados, alguns serrados em dois; outros eram costurados pela pele e jogados aos cães, ou arremessados sem defesa, como presas para as feras. E outros lambuzados com alcatrão eram empacados em estacas e acendidos como tochas para iluminar os jardins imperiais. Durante essa perseguição, como vimos, Pedro e Paulo foram martirizados. Em A.D. 95 Domiciano, por sua vez, perseguiu a nova fé, considerando que a crença em Jesus Cristo era incompatível com a crença na divindade do César Romano. A essa perseguição, deve-se a morte do sobrinho de Domiciano, Flávio Clemente, o banimento do Apóstolo João para Patmos, o martírio de Dinis, o aeropagita e a execução, exílio ou aprisionamento de muitos outros Cristãos. Esse desconfiado Imperador, interpretando literalmente as palavras de Cristo sobre o Reino de Deus, chegou a enviar pessoas à Palestina para procurar os parentes de Nosso Senhor, para condená-los como revolucionários; mas quando ele viu seu ar de pobreza e suas mãos calosas, ele os dispensou como loucos.

Perseguição Sob Trajano.

Sob o Imperador Trajano (98-117 A.D.) Plínio o Jovem, então governador da Bitinia e Pontus, observou o crescimento diário das comunidades Cristãs em sua província; e em dúvida de como checar o progresso dessa "supertição maligna e malévola," como ele a chamava, escreveu para o Imperador pedindo instruções. Trajano respondeu que nenhuma medida deveria ser tomada deliberadamente para caçar os Cristãos; mas, no entanto, se eles fossem levados para diante de magistrados, deveriam ser forçados a escolher entre sacrifícios aos deuses pagãos ou a morte. Assim, o Cristianismo, cujo destino tinha até então dependido do capricho de sucessivos imperadores, tornou-se daí em diante, pelas explícitas provisões da lei romana, uma ofensa punível. A vítima mais notável dessa perseguição foi o Bispo de Antióquia, Inácio Teóforo, por razões tanto de sua própria posição distinguida quanto pela eminência de seu juiz; pois o próprio Imperador Trajano, durante uma campanha contra os Partas, aconteceu de passar por Antióquia, e Inácio apareceu diante dele para interceder a favor de seu rebanho. — "Quem és tu, espírito maligno, que despreza meus decretos?" perguntou Trajano. — "Um portador de Deus não pode ser chamado de espírito maligno", replicou Inácio. — "E que homem é um portador de Deus?" — "Aquele que carrega Cristo em seu peito." — "Quem é esse Cristo? Aquele que foi crucificado sob Pilatos?" — "Eu quero dizer Ele que crucificou o pecado, ó meu Senhor adorado!" — "E pensas tu que aqueles que adoramos não são deuses?" -"Ó rei, o que vos chamas deuses são demônios, pois há um só Deus, aquele que criou o céu e a terra." — "Muito bem," disse Trajano; "eu ordeno que esse homem, que diz que ele carrega dentro dele o Cristo crucificado, seja mandado acorrentado para Roma, e que seja feito em pedaços pelas feras selvagens para o entretenimento do povo de Roma." Quando ouviu a decisão do Imperador, Inácio deu graças a Deus porque seria glorificado pelo fim que teve o Apóstolo Paulo; e, seguindo seus guardas, fez uma longa viagem para Roma, onde diante de milhares de espectadores ele foi jogado no Coliseu e devorado por feras.

A Perseguição Sob Adriano.

O sucessor de Trajano foi Adriano (117-138), a quem dois Cristãos ilustrados, Quadratus, bispo de Atenas, e o filósofo ateniense, Aristides, endereçaram apologias sobre seus irmãos na fé. Adriano que era imperador justo, ficou impressionado pelos argumentos, e deu ordem para que dai em diante os Cristãos não deveriam ser molestados para satisfazer o calmor popular, e só quando eles fossem condenados por crimes comuns, poderiam ser punidos com a morte. Mas, desafortunadamente mesmo sob Adriano foi derramado sangue Cristão na Palestina, devido a um certo rebelde judeu, Bar-cochba, que agitou seus patrícios para se revoltarem contra o domínio de Roma. Bar-cochba foi morto, e a rebelião foi lavada com sangue judeu; no entanto, muitos Cristãos inocentes pereceram, porque popularmente o Cristianismo ainda era identificado com o judaísmo. Adriano obliterou o nome de Jerusalem, que ele nomeou "Aelia Capitolina," e erigiu um templo para Venus no Golgota, e uma estátua de Júpiter no Santo Sepulcro.

A Perseguição Sob Marco Aurélio.

Uma nova série de perseguições contra os Cristãos foi iniciada por Marco Aurélio (161-180). Em parte porque ele ficou ressentido com a atitude Cristã, calma e corajosa face à morte, e considerou isso um insulto à sua própria virtude estoica (porque Marco Aurélio era tanto o César quanto o filósofo); em parte porque seu povo atribuía pragas e outros desastres similares à ira dos deuses por sua tolerância com o ateísmo Cristão, rescindindo então o Imperador as leis moderadas de Adriano. A perseguição dos Cristãos somente por seu cristianismo mais uma vez chegou à ordem do dia e até tortura foi posta em serviço para que eles fossem forçados a se retratar. Foi nesse tempo que Policarpo, que junto com Inácio tinha sido um discípulo de São João, foi queimado vivo na arena de Esmirna. — "Queres amaldiçoar Cristo?" o proconsul ameaçou-o. — "Por oitenta e seis anos eu servi o Senhor, e ele nunca me fez mal," respondeu Santo, "como poderei eu então falar mal nele agora, meu Senhor e Salvador?" Os pagãos trataram de apressá-lo, para a estaca com pregos, mas Policarpo protestou. — "Suas precauções são desnecessárias, pois Deus me dará forças para permanecer solto nas chamas." Esse e outros eventos similares tiveram lugar na Ásia Menor em 166. Em 177 a perseguição explodiu de novo mais violentamente do que nunca, especialmente na Gália do Sul. Em Lyons, entre outras vítimas, o nonagenário Bispo da cidade, Pothinus, sucumbiu a cruéis torturas; enquanto a menina escrava Blandina era ferida com arma branca até a morte na arena de touros. Em Autun, Simphorian foi decapitado por se recusar a ajoelhar-se e adorar a imagem de Cibele quando sua frenética procissão estava passando ridicularizando o dogma Cristão da ressurreição dos mortos, os pagãos queimavam os corpos dos mártires e espalhavam suas cinzas nas águas do rio Rhône, dizendo: — "Agora vamos ver se eles ressuscitarão dos mortos, e se seu Deus tem poder suficiente para salvá-los de nossas mãos!"

As Perseguições Sob Sétimo Severo e Maximiano.

É dito que Sétimo Severo (192-211) foi o primeiro a se dispor favoravelmente aos Cristãos, porque foi curado de uma doença crônica pelas orações de um certo escravo Cristão chamado Proculus; mas em 202 ele subitamente mudou de ideia e emitiu um decreto proibindo a confissão do Cristianismo sob pena de morte. Essa perseguição, no entanto, não se tornou geral, e suas vítimas foram poucas e distantes umas das outras. No Egito São Leônidas foi decapitado, depois de receber, enquanto na prisão, uma notável carta de seu filho de quinze anos, que veio a ser mais tarde o famoso Orígenes, exortando-o a não enfraquecer em face do martírio. Uma jovem, Potamiaena, com sua mãe Marcela, foram jogadas em breu fervente; e tão grande foi sua sorte que seu executor, Basilides, foi movido a confessar Cristo e a seguiu no martírio. Perpetua, uma nobre matrona de Cártago, foi exposta a um touro ferido enfurecido com seu bebê nos braços, enquanto seu pai já velho inutilmente suplicava pela pouca idade de sua filha e seu bebê. O Cristianismo foi novamente perseguido por Maximiano (235-238), que sucedeu ao trono assassinando Alexandre Severo. Este último tinha sido bem disposto para com o Cristianismo e tinha colocado um busto de Cristo em sua capela, ao lado de suas estátuas de Apolônio e Orfeu; e foi por que o eclético Alexandre Severo havia cultivado relações com os Bispos Cristãos que Maximiano descarregou seu ódio mais particularmente sobre eles.

A Perseguição Deciana.

Até então, todas as perseguições tinham sido mais ou menos locais, dependendo principalmente da disposição dos governadores provinciais, dos quais os mais fanáticos forçavam estritamente os decretos imperiais, enquanto os mais tolerantes procuravam meios de escapar dos decretos. Mas no reinado de Décio (249-251), as perseguições tornaram-se não só generalizadas, mas também severamente sistemáticas. Daí em diante, um limite de tempo foi imposto para todos os Cristãos em todos os lugares, para que eles se apresentassem diante das autoridades, fizessem sacrifícios para os deuses pagãos e assim obtivessem um certificado de retratação. Muitos Cristãos, cedendo às torturas, eram forçados a sacrificar aos ídolos contra sua consciência; outros manobravam para comprar seus certificados, para grande tristeza da Igreja, que considerava tais expedientes como equivalentes a apostasia. Mas muitos outros, como Alexandre, Bispo de Jerusalém, Babilas de Antióquia e Fabiano de Roma, preferiram o martírio à hipocrisia; e, de fato, o exército daqueles que confessaram sua fé superou de muito o de pobres-de-espírito e apóstatas. A "odiosa superstição," à qual Décio, um verdadeiro ainda que desorientado patriota, atribuia a decadência do Império Romano, provou ser ela mais forte que a fraqueza humana.

A Perseguição Sob Valeriano.

De 257 para frente, Valeriano (253-260), por sua vez, renovou a política anticristã de Décio. Ele tentou, exilando seus Bispos, tornar as comunidades Cristãs sem liderança, e assim mais facilmente dissolível. Mas os Bispos, dos seus exílios distantes, não só se comunicavam por cartas com seus rebanhos e os dirigiam como se estivessem presentes, mas também espalharam o Evangelho nos lugares onde estavam exilados. O martírio de Cipriano, Bispo de Cartago, e o de Sixto de Roma tiveram lugar no reinado de Valeriano; em Roma também, o diácono Lourenço foi assado de acordo com a tradição, numa grelha levada a vermelho de quente, porque quando o governador exigiu a entrega do tesouro da Igreja, ele apontava para as viúvas e orfãos, dizendo: "Tomem conta do tesouro da Igreja."

A Perseguição Sob Deoclecian.

O último e mais forte golpe contra o Cristianismo foi dado por Deocleciano (284-305). Submetendo-se de um lado à insistência de seu fanático genro Galerius e de certos filósofos neo-platônicos, que imaginavam que deveriam ainda sustentar os vacilantes deuses do paganismo, o Imperador ainda esperava restaurar a uniformidade da religião para juntar os fragmentos do seu império em fase de desintegração. Em A.D. 303 ele publicou em Nicéia seu primeiro édito contra o Cristianismo, que foi seguido imediatamente por outros três. As Igrejas Cristãs que haviam sido construídas durante os anos prévios de paz foram aprazadas até o chão; as Sagradas Escrituras eram queimadas, e bispos e padres condenados à morte. Cristãos que mantinham cargos públicos foram expelidos de seus postos. As prisões gemiam com os prisioneiros e o sangue dos mártires fluía como um rio. Mas essa grande prova finalmente passou sem conseguir obstruir o progresso do Evangelho, pois nessa época o Cristianismo mantinha controle sobre pelo menos um décimo dos assuntos do Império Romano, e contava em seu número com pessoas eminentes como a própria mulher de Deocleciano, Prisca e sua filha, Valéria. Em 305, Deocleciano tornou-se insano e abdicou. Em 311, Galerius foi tomado por uma doença fatal,e, atribuindo isso ao seu injusto tratamento para com os Cristãos, emitiu um édito de tolerância, assinado juntamente com seus colegas Constantino e Licínio, inclusive convidando os Cristãos a rezar por ele. O Cristianismo estava triunfante.