Homilia dada pelo Metropolita Demetrius, 20.07.2025

De acordo com o que aprendemos dos santos padres, que descobriram essas coisas devido à graça divina que receberam e pela vasta experiência espiritual que possuíam, existem três atributos para a alma. Nós chamamos de logisticon, epitheticon e themiticon, que significam irascível, racional e desejável.

Esses três atributos da alma foram pervertidos, manipulados e deformados após a Queda. E infelizmente, como São Macário diz, vivemos nossas vidas sem ter o mínimo de noção do quanto essa distorção exerce uma influência em nós.

E seguimos nossos dias como se tudo estivesse normal, sem o temor de Deus, talvez já enganados pelos demônios, talvez cooperando com os espíritos malignos, e ainda assim sem qualquer preocupação pela nossa salvação.

É isso que encontramos repetidamente nas Santas Escrituras, tanto a respeito dos fiéis quanto daqueles que não o são. Aqueles que rejeitam Cristo permanecem nas profundezas da queda.

E como sabemos por experiência própria, quando cedemos à tentação e consentimos com esses pequenos pensamentos, eles rapidamente se transformam em uma avalanche. Isso pode desencadear um efeito dominó, e as consequências podem tornar-se desastrosas. Precisamos vigiar-nos o quanto antes. Infelizmente, carregamos essas inclinações e devemos reconhecer os perigos que elas representam, bem como admitir que necessitamos de auxílio, o que, em última instância, nos conduz à humildade, pois, como sabemos, o orgulho nos cega.

Essas três potências da alma — o irascível, o racional e o desejável — foram profundamente afetadas. Contudo, existe uma ira impassível, e é-nos extremamente difícil compreender isso, pois nos custa separar a ira da paixão.

E há também um desejo impassível, o que nos é igualmente difícil compreender, pois, ao pensarmos em desejo, associamo-lo imediatamente aos desejos da carne e às inclinações mundanas.

Em relação à parte racional da alma, nós pensamos que devemos ser racionais, devemos ser o rebanho racional de Cristo. Mas vocês não fazem ideia do quão profundo o veneno demoníaco do engano afetou a raça humana.

É por isso que há tantos problemas. É por isso que vemos tanta desordem ao nosso redor, em todo o mundo. Problemas por toda parte: nas famílias, no trabalho, nas escolas, problemas em toda parte neste mundo caído. Por isso devemos sempre ponderar as coisas e refletir com muito cuidado antes de julgar.

É um sinal muito preocupante quando somos impulsivos e não examinamos as coisas com profundidade. Não apenas do ponto de vista espiritual, mas também do ponto de vista racional. Devemos ser pensadores responsáveis, para que, com muita oração e pela graça de Deus, nossos pensamentos sejam iluminados e tenhamos pensamentos que possam justificar-nos, pois não somos justificados por nossos pecados, mas pelo Senhor.

Vemos isso no Evangelho de hoje, quando o Senhor cura um homem paralítico. Contudo, antes da cura do corpo, Ele enfatiza o essencial: as realidades espirituais. Ao ver a fé deles, não apenas a fé do paralítico, mas também a fé daqueles que o ajudavam, Ele lhe diz: “Tem bom ânimo, teus pecados estão perdoados.” Pois podemos ser profundamente ajudados por aqueles que nos amam, se forem pessoas espirituais e piedosas.

Pode haver dom maior que o perdão dos pecados? Isso significa que a salvação é tua. E que dom é maior que a salvação? Como diz São Isaac, o Sírio: se tivéssemos apenas um vislumbre da salvação ou da condenação eterna, estaríamos dispostos a suportar grandes sofrimentos por muito tempo apenas para alcançar a nossa salvação. Mas o que acontece é que nós não temos foco e nos esquecemos facilmente das coisas e vivemos aqui como se fôssemos daqui e não percebemos a coisa mais óbvia do mundo: nós vamos morrer. Nós vamos deixar esta vida. Quando o Senhor diz: “Tem bom ânimo, teus pecados estão perdoados”, Ele não mente. Ele concede verdadeiramente o dom do perdão. Mas o diabo está sempre trabalhando ao redor das pessoas. Ele age com málicia ao ver o trabalho do Senhor. Então ele anda ao derredor, como ensinam os santos padres nepcticos. O diabo procura os alvos mais fáceis, aqueles que podem ser facilmente influenciados, para incitá-los contra quem foi beneficiado. Mas, em última instância, sua guerra é contra Cristo.

A malícia dos demônios contra nós é grande, pois não desejam nossa salvação. Eles nada ganham com sua luta contra nós, mas estão tão obscurecidos; imagine um ser totalmente separado de Deus! Quão tenebrosa e desordenada é tal mente! Não podem pensar com clareza.

Foi isso que aconteceu com os escribas. Tudo começou com os pensamentos. Eles disseram entre si: “Este homem blasfema.” Tornaram-se juízes. Julgaram Deus. Julgaram o Senhor. E assim começou o efeito dominó, a avalanche. O Senhor então lhes pergunta: “Por que pensais essas coisas em vossos corações?” (o coração sendo o centro da alma.) “Que é mais fácil dizer: teus pecados estão perdoados, ou levanta-te e anda?”

O Senhor enfatiza que esta é a razão de sua vinda: restaurar o homem quebrado, que somos todos nós, em maior ou menor grau. Muitos, espiritualmente superficiais, desanimam diante de uma pequena tentação e dizem: “Não consigo mudar.” Mas perderam o sentido da caminhada. Estamos caminhando rumo à salvação. Haverá quedas. Haverá tropeços. Mas devemos levantar-nos e nunca desistir.

Se permanecermos em nosso estado obscurecido, tudo se tornará cada vez mais escuro, até rejeitarmos Deus que está diante de nós. Dizemos: “Não quero essa cruz. Não quero esse sofrimento.” Mas o cristão sofre. O cristão deve ser humilde. O cristão deve ser semelhante a Cristo.

Assim começou a queda daqueles homens: com pensamentos simples. “Este homem blasfema.” E terminaram rejeitando totalmente o Senhor. Mesmo diante do milagre do paralítico, estavam tão obscurecidos que não puderam aceitar o sinal. Estavam presos ao ressentimento, porque haviam sido repreendidos. Não quiseram enfrentar a própria consciência. Queriam um Deus confortável, um Deus que facilitasse tudo. Mas não é isso que vemos na vida dos santos.

Pensemos em José do Egito. Foi lançado numa cisterna, vendido pelos irmãos, perdeu tudo. E não murmurou. Não exigiu seus direitos. Viu em tudo a providência de Deus, como ensina São Isaac, o Sírio. A humildade o elevou. Tornou-se governador do Egito: símbolo do domínio sobre as paixões. Aceitou sua cruz. Deu glória a Deus em meio à dor. Resistiu à tentação da mulher egípcia. Foi acusado injustamente. Permaneceu puro. E no final foi exaltado.

Isso exige fé. Exige paciência. Exige glorificar a Deus em todas as circunstâncias. “Glória a Deus por todas as coisas”, como disse São João Crisóstomo em suas últimas palavras. Esses exemplos não são histórias decorativas. Devemos aplicá-los a nós mesmos.

Um dos maiores caminhos espirituais é a autoacusação correta, não o desespero, mas o reconhecimento humilde da própria fraqueza. Precisamos da confissão. Precisamos da oração. Precisamos da humildade. Não podemos alimentar as paixões, nem ficar paralisados nelas. Devemos reconhecê-las, assumir responsabilidade e buscar a graça de Cristo, que traz cura.

Lembremo-nos também do exemplo de São Willibald e de tantos santos pouco conhecidos. A santidade não depende de reconhecimento humano. O que importa é a fidelidade. Devemos manter nossas lâmpadas acesas, não apenas como gesto externo, mas como oração viva. A chama representa nosso pedido constante de ajuda, nossa vigilância.Utilizemos todos os auxílios espirituais para crescer na piedade.

O Senhor preparou um Reino para nós, se seguirmos seu caminho. Tenhamos paciência. O tempo passa rapidamente. Que Deus nos conceda verdadeiro entendimento, para que sejamos verdadeiros servos de Jesus Cristo.Que, pelas orações de todos os santos, recebamos o dom do arrependimento, que nos trará luz e compreensão.

Que não sigamos o caminho dos escribas e fariseus, que começaram com um pequeno pensamento e terminaram clamando: “Crucifica-o!” Mas que nos prostremos diante da cruz e digamos:

“Tua cruz adoramos, ó Senhor, e tua santa ressurreição glorificamos. Concede-nos, ó Senhor, o dom do arrependimento.”

Amém.