Resumo
Este documento sintetiza a trajetória, a visão eclesiológica e as orientações pastorais de Sua Eminência, o Metropolita Demétrio, abordando a crise da Ortodoxia contemporânea e a consolidação da Igreja Ortodoxa Genuína (GOC) na América.
1. Trajetória pessoal e influências espirituais
• Raízes e piedade: o Metropolita relata sua criação em Toronto, destacando a influência santa de sua avó, cuja vida ascética e devoção aos milagres de São Nectário e ao calendário patrístico moldaram sua vocação.
• Linhagem monástica: sua formação espiritual está ligada a figuras como o Ancião Joaquim do Monte Athos, que mantinha laços de amizade com São Nectário e defendia a unidade da Igreja sob a tradição velhocalendarista.
2. Eclesiologia e o dogma da unidade
• Crítica ao "Presbiterianismo Ortodoxo": o Metropolita adverte contra a tendência de fiéis e padres se isolarem em "ilhas de tradição" sob bispos heréticos. Ele enfatiza que a unidade com o bispo (simbolizada pelo Antimins) é um dogma, não uma opção administrativa.
• O "Veneno" do Ecumenismo: baseando-se em Santo Inácio, o Teóforo, ele explica que a comunhão com a heresia (ecumenismo) age como um veneno silencioso que obscurece a consciência espiritual até a indiferença total.
3. O Fim das divisões e a unificação de 2014
• Superação do Ciprianismo: um ponto central da entrevista é a explicação de como a barreira do "Ciprianismo" foi removida não por debates, mas pelo ato de humildade e arrependimento dos bispos que se uniram ao Sínodo do Arcebispo Kallinikos, retirando suas insígnias e pedindo perdão.
• Consolidação da GOC: ele apresenta a GOC-América como a sucessora legítima da herança espiritual da antiga ROCOR (antes da união com Moscou), oferecendo estabilidade e unidade para aqueles que fogem do ecumenismo.
4. Visão pastoral e ortopraxia
• Piedade de vilarejo vs. intelectualismo: o Metropolita expressa preocupação com a perda da "piedade simples" (veneração de relíquias, velas, prostrações) entre os novos convertidos, reforçando que a Ortopraxia é tão vital quanto a Ortodoxia doutrinária.
• Vinde e vede: a entrevista encerra com um convite à experiência litúrgica. Ele enfatiza que a Divina Liturgia é o espelho da alma e o local onde a unidade da Igreja se manifesta concretamente.
Ao final do documento, existe alguns Termos e Conceitos brevemente explicados para facilitar o entendimento aos leitores leigos.
Entrevista
Entrevistador: Olá a todos. Bem-vindos à Orthodox Traditionalist Publications. Realizarei aqui uma entrevista com o meu bispo, o Metropolita Demétrio, da Verdadeira Igreja Ortodoxa da Grécia aqui na América — a Metrópole Americana. Sua Eminência, peço a sua bênção. É uma alegria estar com o senhor.
Metropolita Demétrio: Deus te abençoe.
Entrevistador: Muitas pessoas têm me pedido por este momento. Faz muito tempo, eu sei, e é difícil conseguir um horário na sua agenda porque o senhor tem estado extremamente ocupado. Por isso, obrigado por estar aqui comigo hoje.
Metropolita Demétrio: (Reação positiva)
Entrevistador: O público quer saber... as pessoas estão interessadas na GOC (Igreja Ortodoxa Genuína) e, como o senhor sabe, sua caixa de entrada está lotada de perguntas. Fico feliz em poder ajudar.
Metropolita Demétrio: Telefonemas também. Chamadas, e-mails, visitas ao mosteiro... Fico feliz que estejamos crescendo.
Entrevistador: O senhor poderia nos contar sobre a sua trajetória? Sua história na Ortodoxia com a ROCOR, o HTM (Holy Transfiguration Monastery - Mosteiro da Sagrada Transfiguração) e a GOC, além da sua vida como Primeiro Hierarca na América?
Metropolita Demétrio: Pois não. Bem, graças a Deus, fui criado na Igreja. Meus pais vieram de um vilarejo no norte da Grécia onde se falava eslavo. Então, ouvir o eslavo eclesiástico era, de certa forma, reconhecível, mas cresci principalmente na paróquia grega de São Nectário, em Toronto. Minha avó teve uma influência muito profunda na minha vida; foi ela quem nos levou para aquela igreja, basicamente.
A paróquia dela tinha cerca de 500 famílias — era bem grande — e o próprio São Nectário aparecia para as pessoas às vezes, dizendo: "Quero que você vá para a minha paróquia". Minha avó tinha dúvidas sobre o calendário antigo, porque os antigos daquela região eram defensores ferrenhos das tradições da Igreja.
Ela presenciou alguns milagres maiores que confirmaram que o calendário não é uma questão menor; que a Igreja precisa manter as tradições e que a desunião começou justamente com a mudança do calendário. Até hoje, as pessoas nessas jurisdições e patriarcados não celebram juntas. Às vezes celebram duas vezes: clérigos e bispos da Grécia vão ao Monte Athos e celebram no calendário antigo, e no dia seguinte celebram no novo.
Minha avó era uma pessoa santa. Muita gente diz: "Ah, minha avó me levava à igreja", mas no caso dela era algo além, era sobre-humano. Era alguém que amava a Deus profundamente. Às vezes lemos nas vidas dos santos e percebemos que só a Graça poderia ajudar aquelas pessoas a serem tão ascéticas. Sem exceção, eram orações o dia e a noite inteira; ela fazia o sinal da cruz continuamente, sempre orando. Um exemplo belíssimo que, sinceramente, não consigo imitar, pois estava acima de mim. Havia sinais reais da Graça nela.
Nos primeiros anos, vivemos em uma área de Toronto chamada Danforth, perto da "Greek Town". Morávamos a poucos quarteirões da minha avó, então, quando criança, eu passava muito tempo lá, inclusive pernoitando por longos períodos. Depois nos mudamos, e meus avós passaram a ficar longas temporadas conosco. O arranjo era o seguinte: meu avô ficava no quarto de hóspedes e minha avó ficava no meu quarto. Ela passava a noite inteira rezando. Literalmente a noite toda, com lágrimas nos olhos. Lembro-me de acordar e vê-la com as mãos levantadas, com as lágrimas correndo. Isso não me incomodava; desde que me entendo por gente, eu gostava de ir à igreja. Minha mãe, Deus a abençoe, nos criou na fé e era piedosa, mas minha avó era santa.
Ela influenciou toda a família a frequentar a paróquia de São Nectário. Como eu disse, eram orações a noite toda e um jejum inacreditável. Cresci ouvindo histórias da "velha terra" (Grécia). Era como se estivéssemos em um pequeno núcleo protegido. Ela me contava sobre as coisas de lá, especificamente sobre as questões do calendário e sobre como a avó dela — que viveu com ela — teve um fim tão abençoado. Essa senhora avisou a todos: "Vou morrer". O que aconteceu foi que ela ouviu seu anjo da guarda dizer: "Vou levar sua alma".
Ela respondeu: "Não, não leve ainda, porque preciso ver o Paulo (meu avô)". Era pouco antes da Páscoa, e ele estava em outros vilarejos vendendo carne, pois tínhamos uma boa condição e muitos animais. Assim que ele chegou em casa, ela tirou o lenço da cabeça — ela tinha 105 anos na época, nos anos 50 — e colocou as mãos sobre a cabeça do meu avô, dizendo: "Tantas bênçãos você tenha quanto os fios de cabelo que eu tenho. Por favor, perdoe-me. Estou partindo. Meu anjo da guarda veio buscar minha alma; fizemos um acordo". E ela repousou ali mesmo. Ela fez questão de dizer a eles que seguissem o calendário da Igreja, mesmo que a igreja local estivesse celebrando pelo calendário novo.
Isso foi uma bênção para mim. É algo que me dá equilíbrio, porque, como eu disse, está acima do que eu jamais poderia ser. Depois, em 1988, fizemos nossa primeira viagem à Grécia em família e visitamos a tia da minha mãe em Keratea. Ela morava bem ao lado do convento, e lá havia uma famosa "Louca por Cristo" (Sale). Eu a vi em várias ocasiões naquela viagem; foi uma experiência profunda, uma verdadeira bênção. Eu sempre quis ser monge. Meu plano era ir ao Monte Athos. Por providência, encontrei alguém que vivia no deserto de Athos; troquei correspondências com ele desde os 14 anos. Finalmente, aos 19, fui visitá-lo. Meu plano era ficar lá e me tornar monge com ele. Mas o bispo em Toronto me convenceu do contrário. O clero também me dissuadiu. Parte de mim ainda se incomoda com isso, mas sei que os planos de Deus e a vontade de Deus são soberanos.
Aquele ancião (Ancião Joaquim) era algo além da imaginação. Lembro que eu tinha o hábito de escrever cartas para diferentes santuários quando criança, pedindo orações, velas e óleo santo. Mas quando recebi a primeira resposta do Ancião Joaquim, entendi que era diferente. Era alguém que certamente tinha muita Graça.
Quando fui para lá, fui considerado digno de ficar com ele por um tempo. Eles me trataram como um noviço; eu não tinha a bênção de falar com visitantes que passavam. Ironicamente, o famoso Padre Efraim de Katounakia, pelo que entendi, dizia aos seguidores do novo calendário que Joaquim era um homem santo. Assim, pessoas do novo calendário passavam por lá enquanto eu estava presente. Aquele era um dos refúgios de São Nectário; ele costumava ir lá porque o avô espiritual do Ancião Joaquim era amigo de São Nectário. O ancião do Ancião Joaquim estava presente na aparição da Cruz em 1925. Seu nome era Ancião Nectário. O Ancião Joaquim era um homem de profunda oração, nunca deixava a montanha, dificilmente ia a qualquer outro lugar. Estava apenas lá, no deserto, fazendo suas orações. Digo a você, era inacreditável. Não sei se ainda existem pessoas assim hoje em dia.
Ele era parte da linhagem dos antigos pais do Monte Athos, um verdadeiro homem de Deus. Temos aqui os paramentos dele e algumas de suas relíquias; ele inclusive operou milagres. Ele faz milagres e sentimos a sua presença. Esses foram os homens que me levaram a Cristo. Não tenho dúvidas de que eram pessoas inspiradas pelo Espírito Santo, que tinham Deus profundamente em si e cuja própria presença era algo especial. Lembro-me da "Louca por Cristo — vê-la foi um choque, pois sua presença era muito forte. E o Ancião Joaquim, quando servia, parecia estar em outro mundo, totalmente envolvido pela Graça de Deus.
Em resumo, essas pessoas deixaram uma marca profunda em mim. Como eu disse, eu queria ser monge lá com o santo Ancião Joaquim, mas eu nem sequer era digno disso. Acabei fazendo o que o bispo de Toronto queria — que Deus tenha misericórdia de sua alma, perdoe-o e lhe conceda o descanso. Ele queria começar uma pequena comunidade monástica e me disse: "Vá para Boston por um período de seis meses a dois anos e depois volte". Na verdade, eu nunca tive interesse em me tornar monge em Boston.
Mas o que aconteceu foi que, quando mencionei isso ao ancião do mosteiro — que na verdade era o abade, Padre Isaac —, ele levou para o lado pessoal. Ele não queria me perder, eu era "sangue novo", suponho. O plano do Metropolita de Toronto acabou fracassando, e eu acabei ficando em Boston por cerca de 18 anos.
Eles me ordenaram bispo após 11 anos; eu tinha 31 anos na época. Desde o início, eu falava sobre nos unirmos à nossa Igreja, pois era algo que o Ancião Joaquim defendia. Creio que foi pelas orações e bênçãos dele e de São João Maximovitch, que era amigo do Bispo Petros de Astoria. Foi logo após minha primeira visita a São João em San Francisco que as coisas realmente começaram a se mover. Todos sabiam que eu não escondia isso; eu repetia que precisávamos nos unir ao Sínodo. Finalmente, chegamos à decisão em 2010 de que o sínodo canônico na Grécia era o sínodo sob o Arcebispo Kallinikos, logo após o repouso do Arcebispo Crisóstomo. Enviamos cartas de condolências, eu fui pessoalmente ao Sínodo... e creio que o Senhor queria que confessássemos nossa fé.
Não foi como eu imaginava — uma oportunidade de "bandeja de prata" para que todos simplesmente se humilhassem e voltassem, como fizeram os antigos Ciprianistas. Devo dizer que o Metropolita Cipriano Jr., o Bispo Clemente e o Bispo Ambrósio pediram orações e perdão, retiraram suas panagias (medalhões episcopais), e isso foi muito edificante.
Toda a ideia é ser humilde e retornar, porque o arrependimento cura. Por esse motivo, acabei seguindo sozinho, pois eles começaram a resistir. Eles não queriam se unir ao Sínodo e passaram a difamá-lo. Eu reconheço esse comportamento em grupos dissidentes; eles precisam criar algum ponto de conflito para justificar sua existência, já que muitos não têm razão para existir.
Entrevistador: Sim.
Metropolita Demétrio: Então eles jogam o que podem. Lembra muito a atitude farisaica de tentar "pegar alguém pela palavra", tentando encontrar algo contra a pessoa. Eles fizeram isso e começaram a dizer que somos "Ciprianistas". Curiosamente, são pessoas que estavam em comunhão com os Ciprianistas quando estes eram de fato Ciprianistas. Agora que eles não são mais, ficam apontando o dedo. Enfim, me estendi um pouco nisso, mas quero enfatizar que foi uma bela adição ao nosso Sínodo; eles entraram de forma humilde e edificante. E foi assim que fui ao Sínodo quando tive que sair sozinho devido às circunstâncias: fui ao Arcebispo, disse que vinha em arrependimento, e é isso que traz a cura. Havia uma certa "zona cinzenta" com o Arcebispo Auxêncio, pois ele fora o arcebispo anteriormente. No Monte Athos, nos anos 80 e 90, até o seu repouso, ainda havia alguma conciliação entre os grupos; clérigos dos dois grupos celebravam juntos no Mosteiro de Esphigmenou.
Mas aprendi com o Ancião Joaquim — que pessoalmente respeitava nossa Igreja, assim como muita gente; você encontra a foto dele em todo lugar — que, para constar, ele queria renunciar e que todos ficassem sob a nossa Igreja. Infelizmente, alguns clérigos em Boston o dissuadiram na época. Isso poderia ter sido resolvido antes, mas enfim, que Deus se lembre de suas boas intenções; ele era humilde sobre o fato de ter cometido muitos erros.
E algumas das pessoas que tentam defendê-lo, como os chamados "Macarianos" — que antes eram conhecidos como os "Líbios" e agora tentam se apresentar como a facção "Oxentiana" — ignoram a verdade: na realidade, foi a HOCNA (Holy Orthodox Church in North America) quem sepultou o Arcebispo Auxêncio, e o Centro Macariano não estava em comunhão com ele. O que acontece então é que eles citam um cânone apostólico antigo que diz que "o sínodo nada pode fazer sem o arcebispo", mas esquecem a segunda parte do cânone, que diz que "o arcebispo nada pode fazer sem o sínodo". Isso foi parte do problema que gerou o caos, algo que as próprias pessoas em Boston diziam até o momento em que se uniram. Mas, como eu disse, ele está no díptico [é comemorado]. Quase todos da jurisdição dele acabaram se unindo à nossa Igreja, incluindo seu último bispo real, o Metropolita Atanásio de Larissa.
Então eu fui para lá, fui ao Sínodo na Grécia, fui aceito e, graças a Deus, não precisamos lidar com as grandes dores de cabeça desses grupos dissidentes.
Em resumo, eu poderia falar horas sobre isso, mas é basicamente onde estou agora e como cheguei aqui.
Entrevistador: Então, depois de ser recebido na GOC, o senhor acabou... isso foi depois que a HOCNA basicamente se desintegrou, por volta de 2014?
Metropolita Demétrio: As coisas começaram a ficar muito ruins alguns anos antes disso. Eles sempre tiveram essa tendência — uma tentação "à direita" — de querer uma nova briga. Era a briga dos "Pedágios das Almas" (Toll Houses), a briga do ícone da Trindade, a briga do "não suportamos o Padre fulano"... simplesmente não havia paz. Isso não é o Evangelho. Depois, virou a briga dos "Acordados e Dorminhocos" sobre o estado da alma após a morte — um assunto enorme sobre o "sono da alma" — e isso não tinha fim. Tomávamos decisões e tudo era revertido. Por último, teve a questão da "Veneração do Nome" (Onomatodoxia). Meu ponto principal era: nem entrem nesse assunto.
Lembro-me de alguém que, quando era noviço, acabou se tornando o maior defensor desses ensinamentos. Ele me perguntou: "O senhor simpatiza com os veneradores do nome?". Naquela época, ninguém nem sabia direito o que era aquilo. Eu respondi: "Não sei muito sobre o assunto, mas deixe-me dizer: se você levar isso para tal líder da HOCNA, será o motivo da próxima briga. Por favor, não mencione isso a ele". Ele mencionou e virou a nova grande briga. Aquilo se tornou o assunto principal e eu apenas dizia: "Por que estamos entrando nisso? Não há razão nem para discutir esse tema". É um indício de algum tipo de enfermidade espiritual. A Igreja já se pronunciou sobre isso, não precisamos mexer. O outro problema era que sempre questionavam os santos. Por que inventar essa "super-ortodoxia" que vai acabar desmoronando de qualquer jeito? Ele profetizou que desmoronaria. E eu simplesmente não quis ter nada a ver com isso.
O nosso Sínodo buscou a Igreja Mãe — que reconhecemos em 2010 para resolver esses problemas. Fui diretamente à Igreja à qual estamos submetidos e da qual sou membro do Sínodo. E, olhe, é como o dia e a noite. Que Deus proteja a Igreja e nos proteja nela. Precisamos rezar por isso. Como eu lhe disse anteriormente, é perigoso lutar contra a Igreja; quem está "nas margens" deveria vir para cá, sinceramente.
Entrevistador: Sim.
Metropolita Demétrio: Como eu disse, eu não acredito em "grupos". Esta é a Igreja, e aqueles que estão em grupos isolados sabem disso.
Entrevistador: Quando o senhor foi para a Grécia e foi recebido, tornou-se automaticamente membro do Sínodo?
Metropolita Demétrio: Sim.
Entrevistador: Mas o senhor não se tornou Metropolita de imediato, certo?
Metropolita Demétrio: Não. O que aconteceu foi que eu já tinha contatos com o Sínodo. Para dar um breve histórico: desde o início eu queria encontrar uma forma de estabelecer contato, e tudo o que eu podia fazer era rezar, porque a liderança de onde eu estava (HOCNA) dizia — e eu estava no meu primeiro ano, não podia simplesmente fazer o que queria — eles diziam: "Não podemos ir até eles. Eles é que têm que vir até nós, porque nós somos a Igreja Canônica da Grécia". Essa era a mentalidade deles.
Entrevistador: Entendo.
Metropolita Demétrio: E, vejam só, eles vieram até nós. Recebi telefonemas da Grécia e da América, e acredito que foi uma resposta às minhas orações. Um deles foi de um velho amigo que conheci no Monte Athos em 1994, que hoje é o Metropolita Crisóstomo. Eu o conheci quando ele era um jovem hieromonge em Esphigmenou, sob o comando do Ancião Eutimio. O Bispo Máximos da Pelagonia também me ligou do nada e deixou uma mensagem. Houve também o Anastasio Hudson, que você conhece da paróquia de Maryland...
Entrevistador: Sim, o Hudson...
Metropolita Demétrio: Ele veio me visitar porque tinham ouvido que havia um bispo na HOCNA que falava sobre a unidade da Igreja. Eles pensaram que eu poderia fazer algo para promover a união na América. Isso abriu as portas, pois eu não podia contatá-los, mas eles me contataram. Isso foi logo no primeiro ou segundo ano. Assim, todos na Grécia já me conheciam há anos. Eu já tinha visitado a Grécia algumas vezes, assistia aos serviços... estava lá para o memorial de 40 dias do Arcebispo Crisóstomo. Eles foram muito respeitosos. Fiz uma metania (reverência profunda) ao Arcebispo e eles permitiram que eu ficasse no santuário.
Eles percebiam para onde as coisas estavam caminhando. Não estávamos mais "jogando tomates" uns nos outros como nas gerações anteriores. Então, quando fui para a Grécia em definitivo, eu não era um estranho. Fui aceito e nomeado bispo. Eu era bispo de Boston — nasci em Toronto, mas não queria ser bispo de lá; o Metropolita Moisés já está lá.
Entrevistador: E em que ano o senhor se tornou Metropolita da Metrópole da América?
Metropolita Demétrio: Em 2010 tomamos a decisão na HOCNA de reconhecer o Arcebispo Kallinikos. Em 2012, juntei-me ao Sínodo como Bispo de Boston. Em 2014, o Metropolita Paulo de Astória, que ainda atuava mas estava em uma cadeira de rodas e não conseguia mais cumprir suas funções plenamente, renunciou. Houve uma votação na Grécia e fui eleito Metropolita da América.
Entrevistador: Parece que, desde então, seu grande objetivo tem sido a unidade da Igreja. É curioso, porque no "Mundo Ortodoxo" (jurisdições oficiais) há divisões em todo lugar, mas sob o seu episcopado o senhor realmente uniu os velhocalendaristas (calendário antigo) na América de forma significativa.
Metropolita Demétrio: Sim. Como eu disse, comecei muito cedo com esse tema de que a unidade da Igreja é um dogma. O que eu sempre ouvia era: "Estamos bem como estamos". Existe essa "eclesiologia protestante" de achar que podemos ser pequenos grupos isolados aqui e ali. Eu não acredito nisso. Entendo que possa haver economia, mas essa não é a norma.
Quando cheguei, não havia muito; apenas algumas paróquias gregas, com exceção do Padre Thomas Marretta em Owego, que era mais o estilo de paróquia americana de convertidos. Então, trouxemos de 80% a 90% das pessoas da HOCNA. Na época eu era apenas um bispo sufragâneo, mas, graças a Deus, a maioria reconheceu o propósito do que eu dizia: estar unido à Igreja e não lutar contra essa unidade.
Inclusive, foi o que o Ancião Joaquim me escreveu. Ele era um verdadeiro monge; e um monge não fala contra outro ancião, mas havia esse... "ajuste". O Padre Isaac (abade em Boston) permitia que eu escrevesse ao Ancião Joaquim enquanto eu estava lá. Eu enviava-lhe minhas confissões e cartas.
E o Ancião Joaquim escreveu: "Diga ao Padre Pantaleão que ele deveria estar trabalhando pela unidade da Igreja e não desunindo a Igreja". Isso é algo muito sério, um ancião falar assim de outro, entende? Mas tratava-se de questões de fé e da unidade da Igreja. Para mim, o Ancião Joaquim é um santo, e a voz dele tem um peso enorme.
E tem sido um sucesso, porque agora somos a estrutura mais centralizada e estável da GOC na América. Não é como as pessoas pensam, que "há facções em todo lugar". Não há.
Basta procurar e você encontrará. Há boa fé e má fé. Há pessoas que buscam a verdade e outras que se colocam na posição de lutar contra a Igreja sem nem perceber. Devemos temer a Deus. Quando me tornei Metropolita, recebemos pessoas de diferentes grupos dissidentes. Temos paróquias de tradição russa, outras de tradição grega, paróquias de convertidos... o principal é preservarmos nossa Santa Fé e estarmos unidos.
Se você olhar o mapa, esses grupos dissidentes quase não têm ninguém. Mesmo que os sites deles mostrem várias igrejas, eu sei que muitas dessas paróquias têm apenas duas ou três pessoas.
Entrevistador: Duas ou três pessoas... Não há comparação. Quem conhece a GOC e olha o mapa vê igrejas se espalhando por toda parte. Estamos crescendo; acabamos de iniciar missões na Carolina do Norte e na Louisiana, e há pessoas se convertendo em diversos lugares.
Metropolita Demétrio: Graças a Deus.
Entrevistador: Essa questão de "lutar contra a Igreja" me traz a outro ponto sobre a "Ortodoxia Mundial". Existe essa heresia ou erro eclesiológico sendo propagado por influenciadores e "Orthobros" no YouTube. Eu chamo de "heresia da resistência interna", onde dizem: "Vocês da GOC são cismáticos, têm zelo sem conhecimento; você deve, por uma questão de fé, permanecer em comunhão com um bispo herético". O senhor pode falar sobre isso? Onde encontramos algo assim na história da Igreja?
Metropolita Demétrio: Eu não conheço essa ideia nova de que "você tem que esperar por um Concílio Ecumênico" quando vemos, em massa, coisas gravíssimas acontecendo. Não é um ou dois bispos, é uma ausência de protesto geral. Como mencionei antes, existe o Juízo Particular e o Juízo Final. Aqueles que já estão na heresia e a pregam já estão condenados. Essas não são palavras minhas, é o que encontramos nos ensinamentos dos Santos Padres. Eles dizem: "Fuja deles". Eles não dizem: "Corra para eles".
Entrevistador: É inacreditável.
Metropolita Demétrio: Santo Isaque, o Sírio, diz: "Não leia sequer os escritos dos heréticos". Quanto mais, então, rezar com eles. Ele diz que isso obscurece a mente.
Santo Inácio diz que, quando a heresia entra, é como misturar veneno ao Cristo — colocar veneno no mais doce dos vinhos. Ele explica que, sem perceber, você acaba ingerindo esse veneno. E sabe o que acontece? Os Santos Padres nos ensinam sobre a "indiferença". Tornamo-nos indiferentes quando nos aprofundamos em algum tipo de pecado. O mesmo ocorre aqui: ao participar desse veneno, você deixa de reconhecê-lo como tal. Às vezes, chega-se a interpretá-lo como se fosse a Graça.
É algo temível. Quero enfatizar que não mudamos nada, não nos "movemos". Estávamos com a ROCOR (Igreja Russa no Exterior) e eles nos reconheciam. A divergência que tivemos com a ROCOR, quando eles se uniram ao Patriarcado de Moscou, é que eles não cumpriram o que prometeram por décadas: que só haveria união se Moscou mudasse.
Entrevistador: Sim.
Metropolita Demétrio: Como disse um dos bispos deles, que agora pertence à ROCOR-MP (Russian Orthodox Church Outside of Russia – Moscow Patriarchate): "O que aconteceu? Eles se tornaram acanônicos da noite para o dia só porque nós nos juntamos a Moscou?". Por incrível que pareça, há bispos no Patriarcado de Moscou que dizem que precisam se unir aos velhocalendaristas. Mas o ponto principal, como mencionei em um sermão recente, é o que São Filareto dizia: "Acredito que o Patriarcado de Moscou não tem a Graça", embora ele não forçasse ninguém a aceitar sua opinião.
Temos um problema grave quando não falamos apenas de agentes da KGB que se tornaram bispos, mas de pessoas que nem sequer foram ordenadas corretamente, ou pior, que nem foram batizadas! Como isso pode ser canônico? Como não ver um problema em um bispo que sequer é batizado ordenando padres? Tudo o que dizemos é: que haja um arrependimento sério por parte do Patriarcado de Moscou para consertar isso. Seria maravilhoso se estivéssemos todos em comunhão. Mas há uma razão para não estarmos; não é como se quiséssemos abrir nossa própria "franquia pessoal" e chamá-la de Igreja.
Entrevistador: Com certeza.
Metropolita Demétrio: Como fazem alguns grupos marginais, infelizmente. Nós estivemos aqui o tempo todo, com as bênçãos de São Crisóstomo [de Florina], com o selo de São João Maximovitch e de tantos outros pais e mães que portavam a Deus e nos transmitiram suas bênçãos. Há outros que eventualmente serão glorificados oficialmente, como São Partênio de Quios — você deveria ler a vida dele, é belíssima. Ele repousou pouco antes de 1900 e profetizou: "Daqui a cem anos serei glorificado na terra". E o nosso Sínodo o glorificou.
Entrevistador: Ninguém mais o fez. E a vida dele foi escrita pelo Padre Joaquim do Patriarcado de Jerusalém, que era de Quios.
Metropolita Demétrio: Exato. Ele foi um dos santos adicionados ao catálogo da nossa Igreja.
Entrevistador: Quando escrevi o livro History of Resistance, percebi que não encontramos em lugar nenhum — nas Escrituras, nos Padres, nos cânones ou concílios — a ideia de "fuja para o herético". É sempre o oposto. Ninguém diz para ficar com os heréticos. Todos dizem para fugir, exceto os "Neo-Atonitas" que conhecemos, que por algum motivo dizem para correr em direção a eles, enquanto São Paulo, São Pedro, São Judas e as cartas aos Tessalonicenses e Gálatas dizem o contrário. Cabe a cada um julgar se devemos obedecer a Deus ou aos homens.
Outro ponto que faz parte desse movimento de "resistir por dentro" — contra o qual tenho lutado desde que o senhor me recebeu na GOC há três anos — é a questão do Antimins. Acho que a maioria dos leigos não entende a importância do Antimins, que é a licença que o senhor dá ao padre para celebrar em seu nome. Pode explicar isso?
Metropolita Demétrio: Ironicamente, as pessoas desse movimento de "resistência interna" não entendem ensinamentos básicos de eclesiologia. Santo Inácio, o Teóforo, e todos os Santos Padres falam sobre o bispo: sua relação com o bispo reflete sua relação com Deus. É algo terrível quando as pessoas têm um relacionamento ruim com seu bispo. Se você não gosta dele, vá para outro lugar. Por que falar mal dele? Isso não faz bem para você. Santo Inácio é muito claro: nada pode ser feito sem o bispo.
O Antimins (Antimension) é especificamente o sinal, literalmente com a assinatura autógrafa do bispo, dando permissão para o padre celebrar a Divina Liturgia. Isso significa que o padre serve em nome do bispo. Essencialmente, você crê no que o seu bispo crê. É o básico.
Entrevistador: Sim, a maioria nem sabe o que é um Antimins.
Metropolita Demétrio: O Antimins é consagrado. É um templo, é o altar. É consagrado pelo bispo; costuramos relíquias de mártires nele, pois a Liturgia sempre ocorreu sobre as relíquias dos mártires. Há todo um serviço de consagração, usamos o Santo Crisma, recitamos orações e o bispo assina, o que é o "ok" episcopal para servir ali. O Antimins pertence ao bispo.
Entrevistador: Ou seja, é um ensinamento básico: o padre serve em nome do bispo.
Metropolita Demétrio: O padre deve estar conectado ao bispo "como as cordas estão para a lira", como diz Santo Inácio. Não é normal um padre e um bispo terem um relacionamento ruim. Já no movimento de "resistência interna", há muitos padres que simplesmente não gostam de seus bispos ou do que eles ensinam. Como eu disse antes de começarmos a gravar: não julgamos as pessoas pessoalmente, só Deus conhece os corações, mas isso que eles fazem não é Ortodoxia. Não é o ensinamento da Igreja.
Entrevistador: O que significa para um padre quando, no momento da Liturgia em que ele desdobra o Antimins e vê a assinatura do bispo, ele serve sabendo que aquele bispo é um herético sem sombra de dúvida, mas decide comemorá-lo assim mesmo? Como isso afeta o padre e a congregação?
Metropolita Demétrio: Se você acredita que seu bispo é de fato um herético, você tem um problema sério. O que acontece é que sua consciência vai enfraquecendo até o ponto em que você acha que "está tudo bem". Felizmente, há pessoas com consciência. É isso que as impulsiona a vir para cá. Lembro-me de um padre do novo calendário que veio me ver e eu brinquei: "O que você está fazendo aqui? Seu bispo não te deixa ser ortodoxo?". E ele respondeu: "Exatamente. Ele não me deixa batizar corretamente, não me deixa..." e citou uma lista de proibições.
Entrevistador: Uau.
Metropolita Demétrio: Isso não é um relacionamento normal.
Entrevistador: Lembro que foi exatamente isso que o senhor me escreveu por e-mail há três anos: "Você só quer ser ortodoxo? Parece que não te deixam ser ortodoxo aí".
Metropolita Demétrio: É uma pergunta comum que eu faço.
Entrevistador: Desde que publiquei o livro e a cronologia do ecumenismo de 2025 — com 167 páginas detalhando as orações conjuntas e serviços ecumênicos desses bispos —, acho que as pessoas estão começando a reconhecer mais o problema. A menos que já estejam envenenadas.
Metropolita Demétrio: Sim. E há quem pense: "Eu tenho um bom padre tradicionalista, então não importa o que o bispo faça". Eu chamo isso de "Presbiterianismo Ortodoxo".
Entrevistador: Exato.
Metropolita Demétrio: Bem, isso não é Ortodoxia. Fico feliz que seu padre seja tradicional, mas não basta. Ele precisa estar conectado ao bispo. A consciência dele precisa se fortalecer. Ele precisa rezar e estudar a metodologia dos Santos Padres: o que eles faziam diante da heresia? Você não encontrará nenhum deles dizendo "fique com a heresia". No mínimo, esperaríamos que o outro lado fosse compreensivo, já que os Santos Padres apoiam o que estamos fazendo, mas não vemos isso. Como eu disse, há um elemento real de veneno; eles acham que estão fazendo algo bom, mas isso é parte da ilusão (prelest).
Entrevistador: Sim, as Escrituras estão repletas disso. Em todas as epístolas vemos que o ensino dos Santos Padres é bem diferente do que pregam hoje. Parece que essas pessoas desconsideram o peso e a autoridade das próprias Escrituras. São Paulo diz que "ainda que um anjo venha do céu" com outro evangelho, devemos nos afastar. Por que o senhor acha que eles são tão desdenhosos com os textos sagrados?
Metropolita Demétrio: Volto ao que os Santos Padres dizem sobre o "veneno". Creio que há uma questão de enfraquecimento da consciência que progride da negação para a ilusão (prelest). A Graça de Deus pode tirar alguém desse estado, mas é necessário um arrependimento muito sério. Acredito que o diabo inspira certas pessoas a lutarem contra a Igreja e contra aqueles que tentam preservá-la. São Nicodemos diz algo sobre isso: é terrível quando alguém não deixa um bispo herético, mas o que torna as coisas piores é quando essa pessoa passa a condenar aqueles que saíram em defesa da fé ortodoxa.
Entrevistador: Isso é muito interessante, especialmente porque temos visto muitos fiéis da ROCOR-MP (Patriarcado de Moscou) vindo para o nosso lado. Eles estão reconhecendo o anátema de 1983 contra o ecumenismo. Há um vídeo circulando de um bispo dizendo: "Se não removermos esse anátema, cairemos sob nossa própria condenação". É possível "remover" um anátema? Um documento de unificação pode transformar uma heresia em algo ortodoxo? É assim que funciona?
Metropolita Demétrio: Como eu disse, isso é o que nos torna os verdadeiros continuadores da ROCOR em muitos aspectos, pois mantemos as decisões que eles tomaram. Aqui na América, temos basicamente duas "Igrejas-Mãe": a ROCOR e a Igreja da Grécia, ambas com histórias belíssimas. As pessoas não percebem que na Grécia há uma história imensa de santos e pessoas piedosas que lutaram o bom combate. Mas, quando se está "envenenado", nem mesmo um milagre estrondoso como a Aparição da Cruz no céu em 1925 — que confirmou aos fiéis o caminho a seguir — parece importar. Eles dizem: "Ah, quem se importa?". Como ignorar isso? Esse evento consta nos livros litúrgicos e foi presenciado por duas mil testemunhas. Acho que é algo demoníaco simplesmente ignorar um sinal desses.
Entrevistador: Sim.
Metropolita Demétrio: Deus não saberia que todas aquelas pessoas se tornariam "Verdadeiros Ortodoxos"? A cada dez anos eles celebram esse evento para não esquecerem o significado de algo tão magnífico. Era uma anamnese, uma lembrança viva daquilo que foram dignos de presenciar.
Entrevistador: Ninguém na época disse: "Ah, talvez fosse uma estrela, ou nuvens, ou eles estavam olhando para o lado errado".
Metropolita Demétrio: Ninguém.
Entrevistador: Esse evento foi registrado até na antiga revista Orthodox Life, de Jordanville. Eles dedicaram uma seção inteira a esse milagre, o que prova que eles o reconheciam antes da união de 2007.
Metropolita Demétrio: Você já ouviu falar de um milagre desses acontecendo para cismáticos? Os "Velhos Crentes" russos tiveram algo assim? Não se ouve falar disso em lugar nenhum. Do que estamos falando, então?
Entrevistador: Pois é. Infelizmente tentam desmerecer tudo. Para quem não conhece a história, tenho o relato completo e o ícone no meu blog. É uma história linda. Outra coisa que o público pergunta muito, já que o senhor tem um canal grande no YouTube e a GOC está crescendo, é sobre os outros sínodos "Verdadeiros Ortodoxos" e jurisdições do calendário antigo pelo mundo. Como a GOC os vê?
Metropolita Demétrio: Nós nos vemos como os continuadores da Verdadeira Igreja Ortodoxa. Nós somos a GOC. Recentemente, um escritor conhecido na Inglaterra admitiu: "Tenho que confessar que a GOC é o que a ROCOR costumava ser", embora ele não esteja em comunhão conosco.
Esses grupos paralelos prestam um desserviço à Igreja. Eles deveriam fazer todo o possível para buscar a união conosco, como eu fiz. Eu não nasci na GOC; eu estava na ROCOR, segui minha paróquia e, mesmo depois que saíram da ROCOR, continuei frequentando porque o padre era nosso vizinho e eu era amigo do filho dele. Servia no altar... Mas esses grupos carecem de uma compreensão real sobre a unidade da Igreja. Eles têm seu próprio tipo de "veneno". Não serei eu o juiz, mas eles precisam ter cuidado, pois alguns se colocam em posição de combate contra a Igreja, e não há temor de Deus nisso. Ficam procurando "pelo em ovo" em questões que não são de fé. Não se divide a Igreja por infrações canônicas menores; só se faz isso por questões de fé.
Entrevistador: Exato.
Metropolita Demétrio: Às vezes tentam argumentar que são questões de fé, mas eu não caio nessa. Por exemplo, os que defendem o Arcebispo Auxêncio: em 1984, ele escreveu um texto elogiando o Patriarca Diodoro de Jerusalém porque este amava os velhocalendaristas.
Entrevistador: Sim.
Metropolita Demétrio: Eles o viam como um tipo diferente de patriarca. Lembro-me bem da "velha guarda" em Jerusalém. É triste, pois todos se foram. Para eles, não havia diferença; acreditavam que éramos todos parte da mesma Igreja, embora estivessem em comunhão com Constantinopla, infelizmente. O Arcebispo Auxêncio era amado como pessoa, mas cometeu erros gravíssimos. Hoje, tentam "dourar a pílula" e ignorar isso. É um comportamento narcisista, para usar um termo moderno.
Mas, no fundo, é uma atitude farisaica. O perigo real é não reconhecer que a unidade da Igreja é um dogma. Você não pode abrir sua própria "franquia pessoal" e chamá-la de Igreja. O Corpo de Cristo não é um brinquedo. O Senhor deseja que sejamos um. Nesses grupos marginais, sinto uma ausência do amor de Cristo; há uma escuridão, uma vontade de trabalhar pela desunião. Como o Ancião Joaquim me escreveu: "Você deve estar unido". Por isso, aproveito para dizer a todos: voltem. Retornem para a unidade. Não há razão para esses grupos isolados acharem que está tudo bem. Isso é mentalidade protestante.
Olhando para essas outras jurisdições, teologicamente parece que estamos na mesma página. Então, qual o motivo de estarem separados? Espero que a misericórdia de Deus alcance a todos. O espírito deles não é o espírito de São Filareto. Lembro-me do Padre Panayiotis, da minha paróquia em Toronto. Ele ainda está vivo, com uns 88 anos — que Deus lhe dê um bom fim cristão.
O que aconteceu com o Padre Panayiotis foi marcante. Ele era quase como um filho adotivo do Arcebispo Iakovos (novo calendário), mas colocou tudo em risco pela verdade. Ele anunciou em sua paróquia do novo calendário: "Estou saindo. Infelizmente, o homem que chamamos de bispo é um herético". Curto e grosso. Sua última liturgia no novo calendário foi no dia de São Nectário. Depois, fundou a igreja de São Nectário no calendário antigo. Começaram com 11 pessoas. Ele achou que seriam sempre um pequeno grupo, mas acabaram chegando a 500 famílias. O próprio São Nectário aparecia para as pessoas e dizia: "Vá para a minha igreja". Muitas dessas pessoas nem sabiam quem era o santo na época!
O que aconteceu foi que o Padre Panayiotis levou um ônibus de fiéis para Jordanville. Ele ainda era um padre do novo calendário, mas o Arcebispo Averky — que era muito firme contra o ecumenismo e outro homem santo — recebeu-o com muito amor, levou-o para o santuário e rezou com ele. O Padre diz que, se Averky não tivesse feito isso, teria sido muito mais difícil para eles se unirem [ao calendário antigo]. Então, há o que está no papel e há a abordagem pastoral. O próprio São Filareto aplicou muita economia e cuidado pastoral em várias circunstâncias, sempre com a intenção de ajudar as pessoas a abraçarem a Ortodoxia como ela deve ser.
Isso é algo a ser considerado: o espírito da lei contra a letra da lei. Deus quer que todos os homens se salvem. Não sabemos como Deus julgará esses grupos marginais ou qualquer outra pessoa; no fim, a decisão é d'Ele. Mas nossa ordem é seguir o ensinamento dos Santos Padres. Para mim, é claríssimo: basta olhar para o mapa da América para ver que o nosso Sínodo é a real continuação da Igreja.
Entrevistador: Falando nisso, um dos obstáculos que sempre mencionam sobre esses outros sínodos é o tal do "Ciprianismo". É um debate sem fim, batendo sempre na mesma tecla: "Ciprianistas, Ciprianistas...". O senhor poderia encerrar esse argumento de uma vez?
Metropolita Demétrio: Bem, acho que é mais uma daquelas coisas de quem não tem discernimento e quer se sentir superior, seja em um grupo cismático ou em qualquer outro. Mesmo que houvesse alguma legitimidade nessas críticas — e eu não posso falar por todas as jurisdições russas, exceto pela nossa, que acreditamos ser a ROCOR canônica...
Entrevistador: Sim.
Metropolita Demétrio: Tenho muitas reservas, especialmente com o que ocorre aqui na América, onde há grupos com apenas um bispo e meia paróquia. O fato é que a união das nossas igrejas foi uma Vitória da Ortodoxia. Eles não são mais "Ciprianistas". A ironia é que alguns desses grupos russos, que estavam em comunhão com os seguidores do Metropolita Cipriano quando eles eram de fato "Ciprianistas", agora apontam o dedo para nós — mesmo depois que eles vieram humildemente para a nossa Igreja.
Lembro-me do Metropolita Cipriano Jr., junto com o Bispo Clemente e o Bispo Ambrósio na Grécia, no momento da união: eles retiraram suas engolpias, pediram orações de perdão e entraram no nosso Sínodo com humildade. O primeiro ato eclesiástico que fizemos juntos foi a minha aceitação como Metropolita da América. Considero isso uma bênção, pois falamos da unidade da Igreja. As pessoas não entendem que a unidade é um dogma. Não existe mais "Ciprianismo". Em um grupo de milhares de pessoas, pode haver opiniões individuais, mas o que importa é o ensino oficial da nossa Igreja, que é o que sempre pregamos.
Entrevistador: Lembro que, na entrevista com o Bispo Auxêncio, ele ressaltou que, mesmo no antigo sínodo deles ("em resistência"), o Ciprianismo não era ensinado como um dogma, mas sim como uma proposta para o diálogo.
Metropolita Demétrio: Exato. Eram ideias de hermenêutica para o diálogo, não necessariamente um dogma que estavam promulgando. Foi o que ouvimos deles quando se uniram a nós.
Entrevistador: É curioso que tentem jogar essa pecha de "Ciprianismo" na GOC, sendo que a GOC, originalmente, não teve nada a ver com isso. Correto?
Metropolita Demétrio: Sim. Estamos falando de um punhado de pessoas que gostam de gritar muito alto. Mas, como eu disse, nós somos a esmagadora maioria. Eles foram uma bela adição ao nosso Sínodo; possuem uma espinha dorsal espiritual, são instruídos e amam a Igreja. Para mim, foi uma vitória.
Entrevistador: Sim, acho que esse assunto já morreu. É apenas o "fariseu" tentando justificar sua posição. E muitos desses críticos consideram a ROCOR [oficial] canônica, sendo que a posição deles em relação ao ecumenismo era muito mais ambígua do que a dos Ciprianistas.
Metropolita Demétrio: Sim, a ROCOR não queria ser definitiva em certas questões.
Entrevistador: O senhor mencionou a paróquia que se uniu a nós recentemente...
Metropolita Demétrio: Ah, a paróquia de São Pedro, o Aleúte. Creio que era a única paróquia real que eles tinham. Mas, crédito seja dado ao padre: ele acreditou no que estou dizendo, que a Igreja precisa estar unida. A consciência dele deve ter pesado quando ouviu seu bispo dizer "nós somos o único resto que sobrou", que é o que todos esses grupos marginais dizem sem ter nada que comprove isso. É aquela mentalidade de "estamos confortáveis como estamos", a tal "franquia pessoal". Eles se sentem ameaçados e lançam essas "bombas farisaicas" que, sinceramente, são uma estupidez. Não é uma mente iluminada que fala essas coisas.
Entrevistador: E como fazemos para alcançá-los? Me perguntaram no Natal: de quem é a responsabilidade? Devemos bater na porta deles? Eu penso que, como somos a GOC, eles é que deveriam vir até nós. Não podemos forçá-los.
Metropolita Demétrio: Eu não tenho problema nenhum em procurar quem eu sinto que tem esperança. Mas quando vejo que não há esperança de arrependimento, vira um problema, pois pode ser tóxico para o que temos de bom aqui. Por exemplo, tivemos um diálogo não oficial com o principal grupo "Mateíta", certo?
Entrevistador: Sim.
Metropolita Demétrio: Eles são bem mais equilibrados do que eu imaginava, embora eu não tenha estudado todos os grupos Mateítas. Em 1988, fiquei impressionado com a ordem deles; tinham o maior convento da Grécia, com 400 monjas e serviços magníficos. Naquela época, os Mateítas pareciam ter mais ordem do que os Florinitas, mas hoje é o oposto. No nosso diálogo, caímos no de sempre: eles não aceitam São João Maximovitch, não aceitam São Filareto e exigem que digamos que São Crisóstomo de Florina errou. Se é assim, como vamos discutir? Não chegamos a lugar nenhum.
Entrevistador: Complicado.
Metropolita Demétrio: Recebo mensagens de vários lugares. Um bispo de um grupo dissidente na Inglaterra me ligou; foi muito amigável, queria estabelecer contato. Fui mais direto do que nunca. Disse: "Estou aqui porque acredito que esta é a verdade, esta é a Igreja GOC". Anos atrás, antes de entrar na GOC, eu tinha mais simpatias por esses grupos, especialmente depois do que vi no Monte Athos, mas agora tudo está abundantemente claro. O próprio bispo que me ligou admitiu: "É, eu acho que o sínodo de vocês é o verdadeiro sínodo principal".
Se você entende esse ponto, tem a responsabilidade de fazer o possível para se unir. Estou aberto a conversar se houver esperança, mas há muito "veneno" e muita tentação de uma "super-ortodoxia" à direita que pode ser muito prejudicial para a paz que conquistamos aqui. Eu acredito piamente no poder do arrependimento.
Entrevistador: Sim, e qualquer um que já tenha assistido às suas homilias sabe disso...
Metropolita Demétrio: Sim, eu falo sobre isso o dia todo.
Entrevistador: Acho que essa é uma das coisas que atrai as pessoas para a GOC em geral, e especialmente para as homilias que você posta no seu canal, o Orthodox Tradition. Sempre nos acusam de sermos "zelotes sem conhecimento" ou "zelotes de extrema-direita", mas esse não é o nosso caso.
Metropolita Demétrio: Eu mesmo falo sobre a "tentação à direita" em muitos dos meus sermões; é um perigo real.
Lembro-me de quando eu pessoalmente estava lidando com isso. Eu estava na biblioteca em Boston e pensei: "Ok, vamos ver o que o 'inimigo' tem a dizer". Eu não sabia muito sobre ele na época, pois tinha apenas 19 anos. O "inimigo" era o Padre Seraphim Rose. Abri o livro dele aleatoriamente e era exatamente o que eu estava pensando, exatamente o que eu estava passando naquele momento. Foi um choque de clareza.
É claro que o tempo passou, as coisas se solidificaram, mas, para ser justo, houve muitas vezes na história da Igreja em que, milagrosamente, tudo voltou ao normal. Porém, acho que está bem claro que não vivemos nos melhores tempos. Estamos nos aproximando do fim, e isso é um fato. O tempo passa e ficamos mais perto do fim; há muitos demônios por aí.
Entrevistador: Isso me leva à pergunta: como sabemos, a pan-heresia do ecumenismo está avançando mais rápido agora do que em qualquer outro momento. É exponencial. Temos bispos como Elpidophoros enviando bispos auxiliares para rezar com hindus; sérvios acendendo menorás e celebrando — em essência, concelebrando — com monofisistas; e a lista continua. O que o senhor diz aos leigos nessas jurisdições da "Ortodoxia Mundial", as jurisdições ecumenistas, que perguntam: "Quando é que o basta será o suficiente?".
Metropolita Demétrio: A maior tentação que estão lançando sobre todos hoje é o argumento: "Ainda não comungamos no mesmo cálice". Mas, novamente, na história da Igreja, você nunca encontrará uma união oficial na forma como vemos hoje, onde eles se chamam abertamente de "Igrejas Irmãs". Constantinopla e Roma chamando uma à outra de "Igrejas Irmãs". Se você não gosta disso, precisa procurar outro lugar. O que significa para o centro da Ortodoxia, Constantinopla, receber o Papa com os sinos tocando, como se recebe normalmente um bispo ortodoxo? Ele foi recebido com incenso, com as velas episcopais (dikirion e trikirion). E ele foi comemorado na liturgia antes mesmo do Patriarca Bartolomeu!
E o que acontece? Alguns conservadores dizem: "Ah, é só a mesma coisa de sempre". Como assim "de sempre"? Isso é gravíssimo! Outros dizem: "Quem se importa com decisões?". Desde quando os ortodoxos ignoram decisões? As decisões são a voz da Igreja! É quando os bispos se reúnem e decidem. É a voz do sínodo. Não dá para simplesmente ignorar isso e dizer "vamos esperar por um Concílio Ecumênico". Tem algo errado. É isso que eu digo sobre o veneno: deveria ser abundantemente claro, mas não é.
Há muita emoção envolvida: família, laços sociais... não é fácil. Conheci um clérigo que quase se uniu a nós, mas a preocupação dele era o dinheiro e a campanha de difamação que o bispo faria contra ele. Mas é isso que acontece com quem tenta seguir a Cristo: seremos caluniados.
Entrevistador: Sobre essa questão do Papa e do Patriarca Bartolomeu, enviei-lhe recentemente o livro sobre a história do Concílio de Florença. O Bispo Auxêncio de Etna traduziu para mim a confissão de São Marcos de Éfeso, onde ele diz: "Não estarei em comunhão com ninguém que pregue a heresia ou que esteja em comunhão com eles". No leito de morte, ele foi enfático: "Não estarei em comunhão com vocês, nem com quem estiver com vocês". Isso levanta a questão: as pessoas se apegam ao "meu padre é tradicional, o bispo não importa", mas a coisa começa no topo. Começa no Sínodo Patriarcal. Quando o Sínodo Patriarcal está em heresia, o que os fiéis devem fazer?
Metropolita Demétrio: Lembro-me de que, no dia da minha entronização como Metropolita da América, mencionei em meu discurso aquela "corrente" que começa com Cristo como o Cabeça da Igreja: depois temos a Igreja, o Sínodo, o Bispo, o Padre e, finalmente, os monges e leigos. Se houver qualquer ruptura nesse elo, você deve garantir que está conectado diretamente à Igreja através do Sínodo, que a representa. No meu sermão sobre o ecumenismo — creio que foi no Domingo da Ortodoxia — eu disse que tenho até medo de pensar no que acontece a portas fechadas. Se o que eles fazem publicamente já é tão escandaloso, imagine o que não vemos! Enfim, devemos ser cautelosos para não lutar contra a Igreja. A eclesiologia ortodoxa dita que você está sob o seu bispo e deve ter um bom relacionamento com ele. Isso não sou eu, "o pequeno e irrelevante" Paulo Demétrio, quem diz; é Santo Inácio, o Teóforo. Ele e tantos outros Padres são claríssimos. Não estamos inventando nada.
Entrevistador: Exato. Quando escrevi o livro History of Resistance, usei as Escrituras, os cânones, os santos e os textos litúrgicos... e quando você mergulha na Patrologia Graeca (da qual 90% nunca foi traduzida), o que mais se lê é: "Fuja, fuja, fuja [da heresia]". É constante.
Metropolita Demétrio: O que digo é: no mínimo, não se coloque na posição de atacar aqueles que estão apenas fazendo o que os Santos Padres mandam. Como diz nas epístolas de São Pedro: se for insultado, não revide. Continue o trabalho. Glória a Deus.
Entrevistador: Glória a Deus. Minha pergunta final é sobre o crescimento da GOC nos Estados Unidos e no exterior. Desde que o senhor se tornou Metropolita, como tem visto esse avanço? Há um grande influxo de pessoas? Qual sua visão para o futuro, ordenação de novos clérigos e o ritmo desse crescimento?
Metropolita Demétrio: Bem, como mencionei, o Senhor deseja que preguemos a todas as nações, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a observar todas as coisas. Amanhã eu posso não estar mais aqui; a Igreja é a Igreja. Isto não é minha "franquia pessoal". Faço questão de repetir isso: se eu quisesse algo meu, teria ficado onde estava antes. Mas se trabalharmos pelo bem da Igreja e seguirmos os preceitos de Cristo, pregaremos às nações. E estamos fazendo isso. O canal Orthodox Tradition está crescendo, as pessoas estão ouvindo. Recebo muitos telefonemas e mensagens, é verdade. Há muitas pessoas com crises de consciência. A voz de Deus clama dentro delas, mas às vezes alguém aparece para tentar frustrar os planos de Deus.
Entrevistador: O inimigo, claro.
Metropolita Demétrio: E ele trabalha através de certas pessoas em momentos diferentes. Mas eu diria que a maioria que nos contata acaba vindo. Quem nos visita tem experiências que mudam suas vidas. É interessante: dizem para não virem aqui, mas quando vêm, a vida deles se transforma. Ao visitar um mosteiro, algo acontece. Mesmo em nossas paróquias, as pessoas notam algo diferente; é a Graça de Deus as atraindo.
Digo às pessoas: rezem com sinceridade para que Deus as leve à Verdade. O Senhor não abandona quem O ama e tenta segui-Lo de todo o coração. Não julgo ninguém pessoalmente, isso é trabalho de Deus. Mas precisamos preservar a pureza da fé para que o vinho doce não seja misturado com veneno. Minha visão para a Igreja é que foquemos em Cristo e nos santos. Enfatizo muito os santos porque cresci com isso; foi algo belo que herdei da minha avó, da minha mãe e dos meus antepassados. Minha avó nunca começava o dia sem dizer: "Que os santos de hoje nos ajudem". Esse era o início de toda conversa, fazendo o sinal da cruz: "Que Santo Fulano, que celebramos hoje, nos ajude". Em grego, é um ditado comum.
Se focarmos em Cristo e no bem da Igreja, sem interesse em cultos à personalidade, a Igreja prosperará. Como eu disse, amanhã eu me vou e outro estará aqui. Queremos apenas preservar a nossa união, pois rezamos por isso na Divina Liturgia. A Liturgia é o serviço da unidade: união com Deus e uns com os outros. Pedimos a Deus que nos conceda louvá-Lo "com uma só boca e um só coração". O padre comemora seu bispo primeiro porque ele é o responsável por guiá-lo a Cristo através das doutrinas ortodoxas.
Temos aquele diálogo litúrgico que começa com as palavras de São Paulo: "A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós". Isso é unidade real. "Elevemos os corações". "Nós os temos para o Senhor". E começamos a dar graças na Sagrada Eucaristia. Nossa vida é centrada nisso. Foi o que mais me marcou no Ancião Joaquim: sua vida era a Divina Liturgia. São João da Escada e muitos Santos Padres dizem que a oração é o espelho da alma. O momento da união máxima com Cristo é a Liturgia. Temos as relíquias, os santos nos ajudando... precisamos continuar rezando a eles.
Temos que ter o alicerce, que é a Fé Ortodoxa, mas também a Ortopraxia (a prática correta): viver a vida ortodoxa. Como bispo, uma das minhas preocupações é com a perda daquela piedade simples de vilarejo, tão profunda, que é a vida ortodoxa vivida na prática. Muitos que se convertem e vêm até nós não têm essa base. Falo de coisas simples: venerar os ícones e as relíquias, acender velas, fazer prostrações, trazer flores para a igreja, fazer doações... essas pequenas ações de devoção.
Entrevistador: Acho que na cultura em que crescemos, você nem sequer se via com o padre sem oferecer algo a ele, um pouco de dinheiro... não para cairmos na tentação da avareza, mas...
Metropolita Demétrio: É uma manifestação de querer oferecer algo, um gesto de amor. Se o padre vem abençoar sua casa ou algo assim, ou se realizamos as liturgias de 40 dias... você contribui. Isso nos ajuda a lutar contra o egoísmo. Trazer azeite ou vinho para a igreja, e toda uma lista de coisas. Tenho cultivado uma regra de oração, e tudo isso é importante. Essencialmente, como tenho dito e espero que Deus me permita dizer até o fim: o caminho é o Arrependimento. É assim que conhecemos a Cristo.
Entrevistador: Sim, definitivamente notei isso na minha experiência ao entrar na GOC. Fico feliz que o senhor tenha tocado nesse ponto. A piedade de vida — com padres como o Padre George e o Padre John — o ciclo de serviços deles é quase monástico. Eles realizam os serviços constantemente. Com o Padre Steven Allen, o Padre Andrew Kenses e o meu confessor aqui, o Padre Andrew Frick... a piedade é profunda. Nunca conheci padres como eles, que não apenas aparentam o papel, mas realmente o vivem. Não quero "encher a bola" deles, mas é um dos destaques de estar na GOC nestes últimos três anos: nossos padres são de "boa linhagem", gente de qualidade.
Metropolita Demétrio: Você não está exatamente "enchendo a bola" deles. Isso deveria ser a norma. Quando não vemos isso, é que há um problema. O problema é que muito secularismo entrou em algumas dessas outras jurisdições. Mas, graças a Deus, devemos todos rezar por nossos sacerdotes. Acho que temos um bom grupo de pessoas. Que Deus proteja a todos eles.
Entrevistador: Sim. Obrigado por isso. Essas eram todas as perguntas que eu tinha e fico feliz por termos conversado. O senhor tem alguma palavra final para os nossos espectadores? Especialmente para quem quer vir para a GOC, mas ainda está em dúvida ou com a consciência inquieta sobre dar esse passo?
Metropolita Demétrio: Bem, vinde e vede. Vinde e vede. Não fechem as portas. Sejam muito cuidadosos. Outro tema de que falo é sobre como "baixamos" as informações: se você vier com o espírito errado, você encontrará algo errado. Sempre se pode encontrar algum defeito em alguém. Mas, se você tem um desejo sincero por Cristo, venha e veja. E então passaremos do "vinde e vede" para o "provai e vede". Pois, quando você prova de Cristo, você percebe que a Graça de Deus se manifesta plenamente em Sua Santa Igreja.
Se desenvolvermos nossos sentidos espirituais — algo sobre o que também falo o tempo todo —, aos poucos seremos capazes de descobrir um mundo que nos espera, ou ao menos arranhar a superfície dele. Esse é o nosso objetivo final. Não somos ortodoxos por qualquer outra razão a não ser para sermos membros da família de Cristo no Reino Celestial. Que Deus conceda isso a todos nós.
Rezo por todas as pessoas de boa vontade que estão por aí e que não estão em comunhão com a GOC. Como eu disse, Deus os julgará segundo Seus próprios critérios. Eu não sei quem são, o que são, não posso ler seus corações. Mas você mencionou bem o ponto de São Cirilo de Kazan: há uma diferença entre saber e não saber. Deus julgará quem não sabe de uma forma, e quem sabe de outra. E creio que Ele julgará de forma ainda diferente aqueles que sabem e que, mesmo assim, lutam contra os que seguem os preceitos dos Santos Padres quando estes dizem: "fugi [da heresia]".
Entrevistador: Sim.
Metropolita Demétrio: Então, aí já entramos em outro nível. E, veja bem, não desejamos o fogo do inferno para ninguém. Queremos a nossa salvação e a salvação deles; queremos a salvação de todos. Portanto, que Deus abençoe, que Deus proteja e que Deus abençoe o trabalho da Igreja, livrando-nos de todas as tentações e ciladas dos demônios. Eles estão sempre tramando algo. E, já que você me dá esta oportunidade, peço a todos que rezem por mim também e pela nossa sagrada Metrópole. Conto com as orações de todos e que Deus nos mantenha unidos no amor ao rebanho.
Essa é uma das coisas pelas quais agradeço a Deus: sinto que temos um bom relacionamento com o rebanho. Isso é uma bênção para mim como Metropolita, da qual não sou digno, mas peço que continuem rezando por mim. Lembrem-se e compreendam o que dizemos na Divina Liturgia, logo após a consagração, quando dizemos: "Entre os primeiros, lembra-Te, Senhor, do nosso Arcebispo Demétrio". Eu, por minha vez, também rezo pelo rebanho e envio meu amor a todos vocês. Que Cristo, nosso Salvador, nos considere dignos de chegar à festa da Teofania, que está logo ali na esquina.
Sabe, diz nos serviços litúrgicos, lá pela festa de São Basílio, na entrega da festa do Natal: "Grande foi a festa que passou, mas maior é a festa que virá". Muitas pessoas não sabem disso.
Entrevistador: Sim.
Metropolita Demétrio: Por isso, todos devem tentar ir à igreja, pois a Grande Bênção das Águas é um evento fundamental e uma graça imensa. Com isso dito, eu te agradeço. Que Deus te proteja e te ajude. Abençoe-nos e obrigado.
Entrevistador: Que Deus o abençoe. Muito obrigado por nos receber.
Metropolita Demétrio: Deus te abençoe.
Fim.
Termos e Conceitos
• Economia: No direito canônico ortodoxo, é a flexibilização da norma em prol da salvação das almas.
• Orthobros: Termo coloquial para jovens convertidos à Ortodoxia que são muito ativos (e às vezes polêmicos) em redes sociais.
• Juízo Particular: O julgamento da alma logo após a morte, antes da ressurreição final.
• Antimins: Pano de linho ou seda com relíquias, essencial para a celebração da Eucaristia. Representa a autoridade do bispo.
• Prelest: Ilusão espiritual ou autoengano.
• Presbiterianismo Ortodoxo: Uma crítica ao comportamento de agir como se o padre (presbítero) fosse independente do bispo.
• Anátema de 1983: Um marco na história da ROCOR que condena o ecumenismo.
• Aparição da Cruz (1925): Um evento central para os velhocalendaristas gregos; uma cruz luminosa apareceu sobre uma igreja durante a vigília da festa da Exaltação da Cruz (calendário antigo).
• Anamnese: Termo teológico que significa "trazer ao presente" uma memória sagrada, não apenas lembrar do passado.
• Florinitas vs. Mateítas: As duas principais linhagens do calendário antigo na Grécia. Os Florinitas (GOC) seguem a linhagem de São Crisóstomo de Florina; os Mateítas são conhecidos por uma postura historicamente mais rigorosa e isolada.
• Engolpia: O medalhão episcopal (ou panagia). Retirá-lo e pedir perdão foi um gesto de reconhecimento de que a autoridade deles vinha agora da união com o Sínodo principal.
• Mateíta: Seguidor do bispo Mateus de Brestena, que realizou ordenações sozinho no passado, gerando uma disputa canônica longa.
• Padre Seraphim Rose: Um monge americano convertido (falecido em 1982) cujos escritos sobre a modernidade e a espiritualidade ortodoxa são imensamente influentes.
• Tentação à direita: Um termo espiritual que se refere ao perigo de se tornar excessivamente rigorista, orgulhoso ou fanático sob o pretexto de ser "mais ortodoxo" que os outros.
• Sister Churches (Igrejas Irmãs): Termo teológico usado no diálogo ecumênico que os velhocalendaristas rejeitam, pois implica que a Igreja Católica Romana seria uma parte legítima da Igreja de Cristo, e não um grupo que se separou da verdade.
• Patrologia Graeca: Uma coleção imensa de escritos dos Padres da Igreja em grego.
• Ortopraxia: A prática correta da fé, em oposição à apenas aceitar a doutrina intelectualmente. É o reto agir.
• Comemoração do Bispo: Na liturgia, o padre menciona o nome do bispo para mostrar que está celebrando em unidade e sob a autoridade dele.
• Piedade de Vilarejo: Refere-se à fé orgânica e simples, transmitida por gerações, que não depende de grandes estudos teológicos, mas de um amor prático por Deus e pelos santos.
• Vinde e vede / Provai e vede: Referências bíblicas (João 1:46 e Salmo 34:8) muito usadas para indicar que a fé ortodoxa é experimental e não apenas teórica.
• Liturgias de 40 dias: Uma prática onde a Divina Liturgia é celebrada por 40 dias consecutivos, geralmente em memória de um falecido ou por uma intenção especial.
• São Cirilo de Kazan: Um mártir e figura central da "Igreja das Catacumbas" na Rússia, conhecido por sua postura firme contra o compromisso com o regime soviético (Sergianismo), mas também por sua moderação pastoral.
• Teofania: Comemorada em 6 de janeiro (ou 19 de janeiro no calendário antigo), celebra o Batismo de Cristo no Jordão.
• Grande Bênção das Águas: Um rito solene realizado na Teofania onde a água é abençoada para ser levada pelos fiéis para suas casas; é considerada uma das maiores fontes de santificação na Igreja.