Esta é a segunda parte da série de artigos "História da Igreja Ortodoxa".
A primeira parte você pode ler aqui.
3. O Triunfo do Cristianismo sobre o Paganismo.
Constantino o Grande.
A perseguição dos Cristãos não foi levada inenterruptamente do começo ao fim. Existiram intervalos pacíficos que capacitaram as vítimas a se reorganizarem e aumentarem seus números; pois certos imperadores, apoderados, como Heliogabalus (218-222), por uma vida de luxúria, ou que manifestavam, como Alexandre Severo (222-235), uma filosofia eclética, ou em simpatia com o Cristianismo, como Philipe, o Árabe (244-249), deixaram os Cristãos não incomodados. Mas a perseguição foi posta a fim por Constantino o Grande, que foi destinado pela Providência a entronar o Cristianismo como religião oficial do estado, e a quem pelos grandes serviços prestados ao Cristianismo nossa Igreja ainda o comemora como um "Isapóstolo", isso é, igual aos Apóstolos.
A Visão da Cruz.
Constantino era o filho de Constâncio Cloro, César sobre a Gália, Britânia e Espanha, a quem ele, Constantino, sucedeu em A.D. 306. Afortunado por ter um pai eclético e uma mãe Cristã devota, Helena, ele seguiu de perto a ineficaz luta do paganismo expirante contra o Cristianismo, e não demorou em constatar que a religião do futuro seria essa nova fé, que parecia a ele ter um caráter sobrenatural. Ele foi ainda mais reforçado nessa fé por um episódio que teve lugar em A.D. 312, enquanto ele estava marchando para Roma numa campanha contra seu colega Maxentius, Augusto do Ocidente. Cerca do meio-dia, ele viu o sinal da cruz misteriosamente traçado no céu com as palavras "com esse sinal vencerás" e quando ele estava dormindo nessa noite, Cristo apareceu e exortou-o a usar esse símbolo como seu estandarte imperial. Ele fez como lhe foi comandado e sua vitória subsequente sobre o pagão Maxentius foi a vitória da verdade Cristã sobre o erro pagão.
Constantino como Campeão do Cristianismo.
Assim Constantino tornou-se o único mandatário do ocidente e em conjunto com seu colega no oriente Licinius, editou um ato de tolerância em Milão, que foi projetado para favorecer a propagação do Evangelho de maneira sem precedente. Em 323 ele rompeu também com Licinius e depois de derrotá-lo e ser proclamado único mandatário, logo procedeu a manifestar seu interesse no Cristianismo por medidas mais vigorosas. Ele restituiu às comunidades Cristãs, propriedades que lhes haviam sido confiscadas pelas autoridades civis e conferiu a elas o direito de receberem doações e legados. Introduziu no exército, pela primeira vez, uma forma de oração monoteísta; supriu as igrejas com cópias das Sagradas Escrituras, apontou os domingos como feriado e proibiu a crucificação como método de execução para criminosos. Ajudou sua piedosa mãe a encontrar a verdadeira cruz no Gólgota e a construir o Santo Sepulcro, e quando, em A.D. 330, ele construiu Constantinopla, no lugar da antiga Bizâncio no mar Bósforo, e a adornou com igrejas e outros monumentos admiráveis, a chamou de "Nova Roma", para marcá-la como ponto de partida dessa nova vida, e para cortar para sempre as abominações da antiga Roma. Mas Constantino era esperto o suficiente para evitar fazer mudanças súbitas que poderiam levantar ressentimentos e embaraçar seu trabalho de reforma; assim, ele instigou a não haver perseguições aos pagãos e reteve o título de "Pontífice Máximo" como um inseparável adjunto a seu status imperial. Sua vida privada, igual àquela de todos os monarcas que viveram em um ambiente suspeito, não esteve livre de feias manchas; antes de ser batizado, Constantino foi responsável pela morte de sua mulher Fausta e de seu filho Crispus. Mas o arrependimento sincero com o qual ele recebeu o batismo no fim de sua vida purificou sua alma de culpa, e muito lhe será perdoado pelo grande amor que dedicou a Igreja de Cristo. Davi também era um pecador; no entanto, ele mantém seu merecido lugar na galeria dos Santos em virtude do seu arrependimento, que lavou seu pecado dobrado e levou para a posteridade seu grande trabalho para o Senhor puro e imaculado.
Os Filhos de Constantino o Grande.
Constantino o Grande morreu em A.D. 337, deixando três filhos, Constantino II, Constâncius e Constans, que, infelizmente, não seguiram a política prudente de seu pai. Ao invés de deixar o paganismo, que estava decaindo dia a dia, expirar por conta própria, como Constantino havia feito, fizeram uso da violência. Fecharam templos pagãos à força e exigiram das pessoas da corte uma profissão de fé no Cristianismo, que só serviu para tornar muitas das pessoas da corte hipócritas. Essa política encontrou seu próprio fim, pois levantou o fanatismo dos pagãos perseguidos e conduziu-os a se reunirem em maquinações secretas até que uma oportunidade adequada se apresentou para o surgimento público da feroz oposição. Essa oportunidade ocorreu na ascensão de Juliano para o trono imperial. Apesar de sobrinho de Constantino o Grande, esse poeta sonhador era um amante dos deuses pagãos, para quem foi levado tanto pela sua natural disposição para a poesia como em razão dos muitos atos de violência e assassinatos cometidos contra sua família pelos filhos de Constantino o Grande.
Juliano o Apóstata.
Juliano imaginava que tivesse sido designado pelo destino a reviver a religião do paganismo, e essa crença era encobertamente cultivada pelos filósofos desses tempos. Primeiro ele pretendeu ser um Cristão, e até mesmo leu as escrituras em igreja. Mas em 361 Constâncius, que em consequência da morte de seus irmãos, estava sendo o único governante desde 353, morreu subitamente; e Juliano, ascendendo ao trono pela aclamação de seus soldados que o adoravam em vista de suas virtudes militares, mostrou-se em suas verdadeiras cores como alguém que odiava violentamente o Cristianismo. Ele proibiu o atendimento de Cristãos nas escolas gregas ironicamente delegando-os aos Galileus, Mateus e Lucas. Intimou Bispos turbulentos a voltar do exílio para fomentar disputas e perturbações nas comunidades Cristãs. Impos taxas ao clero e aboliu o direito da Igreja de receber doações. Enviou construtores para Jerusalém para reconstruírem o templo judeu, que tinha sido destruído no reinado de Titus (A.D.70), para desmentir a profecia do Senhor a respeito de sua destruição. Tentou reviver os oráculos que por muitos anos tinham permanecido em silêncio; presidiu cerimônias públicas pagãs sacrificando ele mesmo frequentemente elaboradas hecatombes. Ele introduziu no paganismo canto-coral, a pregação de sermões e recolhimento de dinheiro e bens para os pobres, todos esses itens emprestados do Cristianismo. Mas todos os seus esforços foram em vão, e após um reinado de vinte meses somente o Apóstata e Transgressor — assim a história estigmatizou — morreu de um ferimento no fígado que recebeu em batalha contra os persas. É dito que ele quando estava deitado morrendo, encheu sua mão com sangue de seu ferimento, e, jogando as gotas de sangue no ar como se Cristo estivesse diante dele, clamou com sua voz moribunda: "Tu conquistaste, Galileu!"
Os Sucessores de Juliano Abolem o Paganismo.
Os Imperadores que sucederam Juliano continuaram a política de Constantino o Grande, mas com o progressivo aumento da severidade contra o paganismo. Foi durante o reinado de Valentiniano I (A.D. 375) que a idolatria foi primeiramente caracterizada como "paganismus", isto é, a religião das aldeias, e desde então foi praticamente erradicada dos grandes centros.Graciano (A.D.383) considerou que havia chegado o tempo de despir a si próprio do título de Grande Alto Sacerdote, que Constantino o Grande havia retido, como tem sido dito, para não ofender as suscetibilidades da maioria de seus súditos; também foi Graciano que ordenou a remoção do altar da Vitória que permanecia desde os velhos tempos no Senado Romano. No reinado de Teodósio I o Grande (A.D.395), a colossal estátua de Serapis em Alexandria foi derrubada e queimada, para o espanto dos seus adoradores que esperavam que a destruição da estátua fosse a precursora do fim do mundo; e ao mesmo tempo foram promulgadas leis que proibiam severamente a idolatria, o que forneceu a desculpa para Cristãos desorientados, para bater com paus e machados em ídolos e idólatras. Sob Theodosius II (A.D. 450), certos Cristãos fanáticos em Alexandria, atacaram a filósofa Neoplatônica Hypatia, que era renomada por sua sabedoria, beleza e virtude, e a mataram, desfigurando assim, com mancha indelével as páginas da história Cristã, pois Hypatia era reverenciada até mesmo pelos Bispos Cristãos. A lista de violências contra o paganismo deve ser também acrescentada à supressão da Escola Filosófica de Atenas, sob Justiniano em A.D. 529. Esse era o último refúgio do paganismo e era frequentado até mesmo por grandes padres da Igreja, que reconheciam seu valor escolástico.
Cristianismo na Armênia e na Ibéria.
Enquanto o cristianismo estava se espalhando dentro do Império Romano, viu ao mesmo tempo novos campos para conquista fora do Império — na Ásia entre os Armênios, Iberos, Persas, Arabes e Hindus; na África entre os Abissínios e na Europa reconstruída entre tribos que tinham justamente aparecido pela primeira vez. Os armênios receberam o Cristianismo principalmente de Gregório, que floresceu no século quatro e foi justamente chamado de o "Iluminador." Gregório, fugindo da ira do Rei Tiridates, que havia trucidado todo o seu lar, refugiou-se em Cesaréia na Capadócia, onde ele foi levado para a fé Cristã. Retornando a sua terra natal, pregou Jesus com tal fervor que até mesmo o selvagem Tiridates se batizou com toda sua corte, e arrastou todos seus súditos atrás de si para o Cristianismo.O trabalho do iluminador foi continuado por Narses, Sahak e especialmente por Mesrop, que inventou o alfabeto armênio em A.D. 400 e traduziu a Sagrada Escritura, dando assim um primeiro impulso para a criação de uma admirável literatura armênia. Os Iberos e ou Georgianos , vizinhos dos armênios, foram evangelizados no século quatro A.D. por uma devota escrava armênia, por nome Nonna, a quem os Iberos ainda homenageiam como um apóstolo. É dito que uma certa criança ficou doente, e de acordo com o costume local, os pais a carregaram de casa em casa, na esperança de encontrar alguém com capacidade de cura que pudesse curá-la. Quando chegaram a casa de Nonna, ela orou a Cristo e curou a criança. Essa história espalhou-se e chegou ao palácio, onde a rainha também estava doente; e Nonna, chamada para lá, curou a rainha também, ganhando assim o povo por seus dirigentes.
Cristianismo na Pérsia, Arábia e Abissínia.
Parece ter havido um considerável número de Cristãos na Pérsia durante o século quatro com o Bispo de Seleucia e Ctesiphon como seus cabeças; pois como poderíamos de outra maneira contar com os vastos números que sofreram martírio pela fé durante as perseguições instigadas pelos dois Reis, Shapoor e Bahram? Infelizmente, porém, o Cristianismo não sobreviveu na Pérsia. A religião nacional da Pérsia era o zoroastrianismo que admite dois deuses e tenta explicar através deles todos os fenômenos, tanto do bem quanto do mal; e eles naturalmente odiavam qualquer outra religião que lhes proporcionasse uma explicação diferente. Eram, além disso, engajados constantemente em guerras com os Bizantinos, o que por um lado dava-lhes outra razão ainda para perseguir a religião dos seus inimigos mortais, e por outro lado fazia-os receberem de braços abertos vários heréticos Cristãos, que fossem adversários da religião oficial do Império Bizantino. Na Arábia também, o Cristianismo fez uma rápida aparição. Durante o período dos filhos de Constantino, o Grande era o Cristianismo pregado lá por monges e eremitas, mas foi finalmente extinto no século sete pelo advento do Mohamedismo, do qual trataremos mais completamente mais adiante. Cerca do ano 535, Cosmas Indicopleustes encontrou Cristãos na Índia que chamavam a si próprios de "Cristãos de Tomé," pleiteando terem primeiro recebido o Evangelho de tal Apóstolo. Na Abissínia, o Evangelho foi pregado pelo nobre Frumentius, que caiu na mão dos abissínios em A.D. 327. Depois, foi para Alexandria, onde foi ordenado bispo por Atanásio o Grande, e retornou para continuar seu trabalho missionário na Abissínia.
Cristianismo e os Novos Povos do Ocidente.
No século quarto o Ocidente foi invadido por povos bárbaros do norte, conhecidos pelo termo comum de "germanos", cujas incursões devastaram a Europa. Os Ostrogoros foram os primeiros dentre eles a abraçar o Cristianismo graças, principalmente, aos esforços de Ulfilas, o Capadócio (A.D. 388), que foi Bispo deles durante quarenta anos, durante os quais inventou o alfabeto gótico e traduziu as Escrituras. Dos ostrogoros o Cristianismo se espalhou para os visigodos, que saquearam Roma em 410; para os vândalos, que em 439 estabeleceram um grande império no norte da África; e para os lombardos que afloraram na Itália no século sexto; e para muitas outras tribos. Mas todas essas tribos receberam o Cristianismo na forma de arianismo. Só os francos que se tornaram Cristãos em 496 sob Clóvis e sua mulher Cristã Clotilda receberam a fé ortodoxa; e pouco a pouco, através da influência dos francos, as outras tribos abjuraram o erro ariano. Os irlandeses, cuja religião era de natureza druídica, foram ganhos para o Cristianismo por São Patrick (A.D. 493), que ao morrer deixou uma grande quantidade de Igrejas e discípulos para continuar sua obra. Dois de seus discípulos, Columba e Columbanus, pregaram o Evangelho para os escoceses e para os suíços, respectivamente. Uma grande progressão para o espalhamento do Cristianismo no Ocidente foi feita pelo Papa Gregório o Grande, que fez do monasticismo um órgão missionário e em 597 mandou o monge Agostinho com seus quarenta companheiros para a Inglaterra, para evangelizar os anglo-saxões. Gregório o Grande é a mais vivida encarnação do Papado — daquele papado que levou ao zenit de sua glória por explorar toda anomalia política, e baseada na corrupção da Idade Média, somente para surgir novamente depois como um sistema mais compacto, despótico e militante do que antes.
4. Os Perigos da Heresia.
A Atitude da Igreja com os Heréticos.
Assim como a vida da Igreja de Cristo foi ameaçada de fora por fogo e espada, também foi ameaçada por dentro pelas heresias. A palavra "heresia" significa "escolha"; assim, os heréticos, não satisfeitos com a plena e impoluta verdade dos Evangelhos e desejando combinar a ideologia Cristã com outras estranhas a ela, escolheram aqui e ali o que lhes agradava e assim compuseram uma miscelânea de ideias conflitantes, com as quais subsistiu a fé pura. A Igreja, como depositária da verdadeira fé Cristã apostólica, tomou nota desses erros; e reunindo seus representantes canônicos para concílios locais ou gerais, examinou escrupulosamente os assuntos em questão com base nas Sagradas Escrituras e na tradição apostólica, e declarou qual era a verdadeira fé e quais eram as heresias distorcidas. Devido ao fato de que muitos heréticos forjaram assim chamados "documentos sagrados" para suporte de seus erros e os incluiram na Sagrada Escritura, enquanto outros se referiram a tradições de sua própria invenção, a Igreja foi logo obrigada a acertar e definir o Canon das Sagradas Escrituras e a verdadeira tradição apostólica, que não eram transientes ou sectários, mas tem sido preservados "sempre, em todo lugar, por todos" que acreditam em Cristo. A igreja colheu outros benefícios, advindos de seus conflitos com as heresias, sendo forçada de um lado a melhorar seu sistema de governo de modo a conter mais efetivamente os heréticos; e do outro lado a aperfeiçoar sua pregação de sermões e sua salmodia, de modo a popularizar suas doutrinas ortodoxas, como os heréticos haviam feito para disseminar seus falsos ensinamentos.
Judeus Heréticos: Ebionitas, Nazarenos, Elkesaitas.
As primeiras heresias contra as quais a Igreja teve que lutar eram judeicas como era natural, pois o Cristianismo primeiro se espalhou em solo judeu, e alguns dos proselitos judeus acharam difícil renunciar a seus velhos modos de pensar. Existiram três seitas principais de judeus heréticos. Primeiramente os Ebonitas que insistiram no rito judeu da circuncisão assim como contra o batismo Cristão, e rejeitaram toda Santa Escritura exceto o Pentateuco do Velho Testamento e o Evangelho de São Mateus no Novo, mas esse mesmo sendo mutilado para ser adaptado ao gosto deles. Eles colocaram Cristo quase no nível de Moisés; e eram chamados Ebionitas — isto é, pobres — porque tinham somente um pobre e baixo conceito de Jesus Cristo. Em segundo lugar, os Nazarenos, cujo credo era um pouco mais elevado que o dos Ebionitas; pois eles aceitavam a Bíblia em sua totalidade, e ensinavam que Cristo havia nascido sobrenaturalmente, e era, portanto, maior do que os profetas, mas instiam na circuncisão à qual atribuíam validade eterna. Eles eram conhecidos como Nazarenos porque eles se consideravam os verdadeiros e originais seguidores do Nazareno; pois no início todos os Cristãos eram chamados de Nazarenos. E em terceiro lugar, os Elkesaitas assim chamados por ser seu líder Elkesai, que de um lado misturou Judaísmo com Cristianismo, honrando os comandos da Lei como se eles fossem dogmas eternos e rejeitando da Bíblia todos os livros que não combinassem com sua doutrina; e de outro lado mergulhados nas artes ocultas, jactavam-se de suas próprias Escrituras Sagradas, que, eles alegavam, tinham sido comunicadas a eles exclusivamente por Deus.
Judeus Heréticos: Cerintios.
Outra seita de judeus heréticos foi a dos Ceríntios, cujo líder foi Ceríntio, um contemporâneo dos Apóstolos. É dito que São João Evangelista encontrou uma vez Ceríntio num banho público, para o qual ele havia ido para se lavar, e imediatamente apressou-se em sair, clamando: "Vamos para fora desse lugar, antes que esse banho se despedace; pois Ceríntio está aí, o inimigo da verdade." Como todos os judeus heréticos, Ceríntio denunciou São Paulo como um inimigo da circuncisão e rejeitou suas Epístolas. Seu ensinamento sobre o Salvador era curioso; pois ele afirmava que originalmente Jesus era um mero homem, o filho de José e Maria, mas quando ele foi batizado no Jordão, Cristo desceu sobre ele na forma de pomba e deu ao homem Jesus o poder de realizar os milagres de seu ministério público. Na Crucificação, Cristo e Jesus foram separados; Cristo ascendeu de novo ao Céu, enquanto Jesus, abandonado à sua fragilidade humana, sofreu a morte na Cruz. Ceríntio é também tido por alguns como sendo o autor da heresia do Chiliasmou Milenarismo, uma falsa doutrina baseada num escrito do Salmista dizendo que mil anos à vista do Senhor não são mais do que um único dia. Daí ele (Ceríntio) deduziu que já que o mundo foi criado em seis dias, seguido pelo Sábado, ele então continuara a existir seis mil anos, após os quais vira um milênio de festa e delícias sensuais, que será a era Messiânica. Um tipo de milênio espiritual foi pregado por certos Padres Cristãos durante as perseguições, inspirados pela crença de que Cristo regressaria logo, trazendo a salvação para eles. Mas a grande ilusão das imaginações fervilhou pelos sonhos materialísticos judeus.
Gnósticos.
Enquanto as heresias judaicas tentaram enxertar Cristianismo no judaísmo, os Gnósticos tentaram com uma estranha falta de julgamento e uma desenfreada imaginação adulterar a Revelação divina com invenções na filosofia humana. As doutrinas desses heréticos também foram muitas e variadas, algumas delas (a dos Alexandrinos) sendo influenciadas pela filosofia platônica, enquanto outras (a dos Sírios) foram baseadas no dualismo persa; mas certas características foram comuns a todos os gnósticos. Acreditavam serem os receptores privilegiados de uma revelação especial repentina, que chamaram de "gnosis," ou conhecimento, e por meio da qual eram capazes de resolver o problema da vida. Desde que o mais difícil problema de todos é a existência do mal, imaginaram ter resolvido esse problema atribuindo-o à matéria, na qual as almas recaídas do mundo da luz são mantidas, cativas. Mas porque Deus, como é descrito nos Evangelhos, é um Deus de bondade, e não é possível que uma matéria maligna proceda de um Deus bom, eles foram levados à suposição da existência de dois Deuses — o Deus do Novo Testamento, que comandou o reino da luz, e o Deus do Velho Testamento, que criou a matéria e seria o "Demiurgo", ou o criador do universo. De acordo com os gnósticos, portanto, matéria e a carne devem ser abominadas como criação do Deus do mal; e muitos deles submetem seus corpos a inauditas privações e tormentos, enquanto outros, ao contrário, degradam seu corpo com toda forma de vício para mostrar seu desprêzo pela carne. Cristo, na opinião da maioria dos gnósticos, foi simplesmente uma emanação divina — um espírito mandado no mundo da luz para libertar as almas que estavam gemendo nas amarras da carne. Mas se Cristo foi um espírito e pertenceu inteiramente ao reino da luz (assim argumentam os gnósticos), sua conexão com a matéria teria sido totalmente impossível e incongruente. Cristo, então, não assumiu formal carnal; Deus e o homem não se uniram na pessoa do Salvador, e a alegada encarnação foi só uma "aparência", uma ilusão, uma ficção da imaginação dos observadores.
Maniqueus
Outra heresia baseada no dualismo persa foi o Maniqueísmo, que foi iniciado no terceiro século pelo persa Mani. Ele também acreditava na existência dos princípios, incriados e eternos, guerreando perpetuamente um ao outro; Deus, Senhor do reino da luz, e Satan, Senhor do reino das trevas. Satan, tentado pelo reino da luz, uma vez tentou entrar nele, e por isso Deus trouxe o homem pela Mãe da Vida e enviou-o a lutar contra os poderes das trevas. Mas os poderes das trevas, em sua luta com o homem, atacaram sua alma, e teriam destruído completamente o homem, se Deus não tivesse se apressado em resgatá-lo revestindo Cristo que habitava no sol, com um corpo imaginário e enviando-o para baixo, para a terra, onde por Seus ensinamentos conseguiu a redenção do homem. Mas, infelizmente, de acordo com os Maniqueus, os Galileus (isto é, os Apóstolos) interpretaram mal o ensinamento de Cristo, que então mandou Mani, maior que os Apóstolos (pois ele era o confortador predito por Cristo), para desembaraçar a verdade do erro. Assim os Maniqueus rejeitaram todos os livros canônicos do Novo Testamento, substituindo-os por evangelhos e epístolas de sua própria invenção. Consideraram Mani e seus sucessores como representantes de Cristo e apontaram dentre eles 12 professores e 72 bispos correspondentes aos 12 Apóstolos e 72 Discípulos do Senhor. Além disso, se dividiram em duas classes — os Ouvintes ou círculo externo e os Iniciados ou círculo interno. Sobre esses últimos era imposta não só estrito celibato, mas também abstenção de comida de origem animal e respeito escrupuloso pela vida de insetos e flores.
Antitrinitários.
Entre os heréticos que apareceram nos primeiros séculos do Cristianismo devem ser considerados os Antitrinitários dos segundo e terceiro séculos, que tentaram elucidar a sobrenatural doutrina da Santíssima Trindade por meio de raciocínio humano. O problema que eles colocaram para si próprios era tentar conciliar a doutrina da Trindade com o Monoteísmo Cristão. Alguns, como Teodotus o Curtidor e Paulo de Samosata, atribuíram divindade somente ao Pai e delegaram o filho para o status de profeta, grandioso em verdade e único, mas um simples mortal que havia recebido inspiração e iluminação do alto. Outros, como Noetus de Esmirna e Sabelius, o Líbio, reconheceram uma única pessoa divina que se manifestava em diferentes formas de acordo com as diferentes necessidades do mundo, adotando durante a Criação a figura do Pai, na Redenção a do Filho, e durante a sua direção da Igreja, a figura do Espírito Santo. Essas opiniões individuais, que não tiveram nada em comum com a fé Cristã, foram condenadas esporadicamente pelos primeiros Padres, até que discussões mais violentas sobre a pessoa do Salvador impeliram a Igreja a interpretar claramente seu ensinamento em sucessivos Concílios Ecumênicos.
No próximo artigo, entraremos em um dos momentos mais importantes da história da Igreja: os primeiros Seis Concílios Ecumênicos, onde foram estabelecidas as bases doutrinárias que permanecem vivas na Tradição Ortodoxa até hoje.
Fonte: https://www.fatheralexander.org/page23.htm