Esta é a terceira parte da série de artigos "História da Igreja Ortodoxa".

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A segunda parte você pode ler aqui.


5. Os Primeiros Seis Concílios Ecumênicos.

Arianismo.

No início do século quarto, um certo presbítero de Alexandria, por nome Arius, um homem de estrita moralidade, mas mais ligado ao aprendizado profano que à verdade dos Evangelhos, pregou que Cristo foi criado por Deus como na ferramenta com a qual Ele poderia criar o universo; que Ele foi a primeira de todas as coisas criadas mas não havia existido eternamente; que houve um tempo em que Ele não era, e Ele então era inferior a Deus o Pai. Essas teorias platônicas chegaram ao conhecimento de seu Bispo, Alexandre, que reuniu um Sínodo local em Alexandria em A.D. 321 e condenou essas teorias como contrárias aos Evangelhos.

Mas Arius, que acreditava que somente se sua teoria fosse adotada seria possível preservar o monoteísmo, não só continuou a manter suas opiniões pessoais, mas, por meio de hinos e outros métodos de popularização, disseminou suas ideias num círculo sempre crescente. Outros homens de igreja se juntaram a ele, e como a unidade da Igreja estava em perigo, para acalmar a mente dos homens e restaurar a paz entre eles, Constantino o Grande convocou em A.D. 325 em Nicéia um grande Sínodo que teve a participação de representantes de todas as partes do mundo, e foi dessa maneira conhecido como Sínodo (ou Concílio) Ecumênico, ou Universal.

O Primeiro Sínodo Ecumênico.

Estiveram presentes nesse Sínodo muitos homens destacados, alguns famosos por seu conhecimento e virtude, alguns por sua vida ascética, e outros pelas marcas dos martírios que as perseguições deoclecianas haviam lhes infringido. Mas sob preparo teológico foram todos superados por Atanásio, o Grande, que era ainda somente um diácono do Bispo de Alexandria. Na base das Escrituras e Tradições Sagradas, ele demonstrou que o Filho de Deus, longe de ter sido criado pelo Pai, havia nascido Dele, de sua própria substância, antes de todos os tempos, e que consequentemente o Filho não difere em Sua natureza do Pai, mas forma com Ele uma única divindade.

Praticamente todos os presentes aprovaram a tese de Atanásio, e a seguinte fórmula foi inserida no Credo: "Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho único de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos; Luz da Luz, Deus Verdadeiro de Deus Verdadeiro; gerado não criado, coessencial ao Pai; por Quem todas as coisas foram feitas." Esse Credo foi assinado por todos os Padres presentes, mais de trezentos em número, e foi determinado como a exata expressão da doutrina da Igreja sobre seu divino Fundador. Arius e dois de seus apoiadores que se recusaram a assinar o Credo foram mandados para o exílio.

O Segundo Sínodo da Igreja.

Infelizmente essa condenação oficial não impediu o Arianismo de continuar a perturbar a paz da Igreja. Depois de curto período, Arius conseguiu com o auxílio de poderosos amigos na corte obter sua chamada de volta do exílio e até mesmo tramou o banimento de Atanásio, o líder do partido Ortodoxo, que tinha sido feito Bispo de Alexandria com a morte de Alexandre. Arius, a causa de toda perturbação, morreu em A.D. 336. Um novo partido foi então formado, cujos membros chamaram a si próprios de "Semi-Arianos" e procuraram reconciliar Arianos e Ortodoxos substituindo no Credo a palavra "homoousios"(isto é, de essência similar) pela palavra "homoiousios" (isto é, mesma essência ou coessencial).

Mas outro partido levantou-se em oposição a esses mediadores, mantendo que Cristo, tendo nascido do Pai, não é nem "homoousios" nem "homoiousios," mas "anomoios," ou "diferente." Assim a Igreja esteve mais e mais partida por dissensões devidas parcialmente à teimosia de certos Bispos que desconsideraram suas assinaturas no Credo de Nicéia, mas particularmente devido à forte interferência da corte imperial em disputas teológicas, pelos tirânicos imperadores Constantius (353-361) e Valens (364-378), que apoiaram os Arianos perseguindo o partido Ortodoxo impiedosamente. No final, no entanto, o Credo como feito em Nicéia durante o Sínodo, emergiu triunfante como e única doutrina que incorporava o espírito do Evangelho, e selado pela aprovação dos mais eminentes Padres da época, inclusos os três famosos Capadócios, Basílio o Grande, Gregório de Nyssa e Gregório de Nazianzo.

Quando, portanto, o imperador Ortodoxo, Teodosius o Grande, ascendeu ao trono, imediatamente convocou um segundo Sínodo Ecumênico que se reuniu em Constantinopla em A.D. 381 e, confirmando as decisões do primeiro Sínodo Ortodoxo, pronunciou-as como sendo a visão Ortodoxa da Igreja Universal. Daí em diante, o Arianismo desapareceu, apesar de ter encontrado um refúgio temporário com os Gôdos, como já vimos, e com as tribos bárbaras. O segundo Sínodo Ecumênico condenou também Macedônio, que ensinava que o Espírito Santo havia sido criado pelo Filho, do mesmo modo que, de acordo com os Arianos, o Filho havia sido criado pelo Pai. Foi, portanto, formalmente estabelecido no Credo que o Espírito Santo "procede do Pai e com o Pai e o Filho recebe a mesma adoração e a mesma glória," partilhando da mesma divina essência e natureza.

O Terceiro Sínodo Ecumênico.

O segundo Sínodo Ecumênico afirmou não só a perfeita divindade de Cristo, mas também Sua perfeita humanidade, condenando a heresia do Apolinarianismo, que começou a se espalhar em A.D. 362. Essa heresia consistia na negação de uma alma "racional" no Logos encarnado, assegurando que o Deus-Homem tomou só a alma irracional e o corpo material, tendo sua divindade em lugar da alma racional. Os Padres protestaram contra isso, mantendo que o Logos encarnado, se não tivesse assumido completa humanidade, com sua alma racional, teria deixado sem cura nossa parte mais nobre; "Pois o que Ele não assumiu, Ele não curou." Esses foram os argumentos que os Padres no segundo Sínodo opuseram ao Apolinarianismo; mas eles não tinham ainda definido e cristalizado a ideia da maneira pela qual a completa divindade e a completa humanidade de Cristo foram unidas em Sua pessoa. Alguns mantinham que a relação fora extremamente próxima; outros que fora extremamente despreendida.

Nestorius, o Arceobispo de Constantinopla, era dessa última opinião, e imaginou uma distinção tão aguda entre as duas naturezas em Cristo, que chegou eventualmente a reconhecer duas pessoas Nele, mantendo que Cristo, o Filho de Maria, era um, e Cristo, o Filho de Deus era outro; assim Maria deveria corretamente (na opinião de Nestorius) ser chamada de "Cristotokos" (isto é, Mãe de Cristo) e não "Teotokos" (isto é, Mãe de Deus). Para combater essa heresia, Theodosius II convocou para Êfeso em A.D. 431 o terceiro Sínodo Ecumênico, que afirmou que a Igreja confessa um Cristo, um Filho, um Senhor, que é ao mesmo tempo tanto Deus quanto Homem, que nasceu do Pai antes de todos os tempos e encarnou na Virgem Maria no tempo determinado. Em seu orgulho Nestorius recusou-se a ceder à decisão unânime da Igreja e preferiu se retirar em exílio, onde morreu em A.D. 440. Sorte similar aconteceu com seus apoiadores; perseguidos pelos ortodoxos, se refugiaram como os persas, que os receberam de braços abertos, com um gesto hostil para com o Império Bizantino.

O Quarto Sínodo Ecumênico.

Nestorius havia considerado as duas naturezas de Cristo tão distintas que ele considerou nelas duas pessoas separadas, unidas somente por uma ligação moral como é a criada, por exemplo, entre o homem e a esposa, pelo casamento. No outro extremo, Eutychius e Dioscorus mantiveram que a união era tão próxima que eles ensinavam que, depois da encarnação do Filho e Logos, não duas, mas somente uma única natureza deveria ser mencionada; isto é, a divina, que teria ou absorvido em si a natureza humana, ou havia misturado e se fundido com ela. Foi para condenar este outro extremo de opinião, conhecido como Monofisismo, que o Quarto Sínodo Ecumênico reuniu-se em Calcedônia em A.D. 451, no reino da Imperatriz Pulcheria.

Esse Sínodo emitiu um decreto que tanto reafirmou os pronunciamentos do Terceiro Sínodo, que o Senhor é um e o mesmo, perfeito em divindade, assim como em humanidade, e que duas naturezas existiram no Deus-Homem, como também estabeleceu que essas duas naturezas estiveram unidas na única pessoa do Logos, não só "sem distinção e sem separação," mas também "sem confusão nem mudança," uma natureza não sofrendo nem aniquilamento nem alteração pela outra.

O Quinto Sínodo Ecumênico.

As decisões do Sínodo de Calcedônia, não foram no entanto, aceitas universalmente. Os armênios, considerando que o Decreto de Calcedônia versava sobre nestorianismo, rejeitaram-no em um sínodo local que se reuniu em Etchmiadzin em 491. Os Coptas do Egito, seus vizinhos os Abissínios, e da mesma forma os Sírio-Jacobitas preferiram romper com a Igreja Católica e fundar comunidades cismáticas Monofisitas a admitir duas naturezas separadas em Cristo, — uma doutrina que eles consideravam que chegaria a cortar em duas a pessoa do Deus-Homem — e retornaram aos ensinamentos de Nestorius. De modo a enfatizar a diferença entre o reconhecimento de duas pessoas em Cristo, que era a opinião herética mantida por Nestorius, e o reconhecimento de duas naturezas em uma pessoa, que era o ensinamento ortodoxo da Igreja Santa Católica Apostólica, o Imperador, Justiniano o Grande, seguindo o costume então estabelecido, convocou o Quinto Sínodo Ecumênico em Constantinopla em 553. Esse Sínodo condenou certos trabalhos de sabor Nestoriano, esperando com isso, conciliar os Monofisitas e persuadi-los a retornar à Igreja Católica.

O Sexto Sínodo Ecumênico.

Outro método foi seguido pelo Imperador Heraclius (611-641), que foi movido principalmente por considerações políticas e estava se empenhando por todos os meios em manter a ameaçada unidade de seu Império. Ele tentou reconciliar Monofisitas e Ortodoxos na base de "duas naturezas em Cristo, mas uma só atividade", ou, como depois segundo uma frase editada, "duas naturezas em Cristo, mas uma só vontade." Essa solução de controvérsia, conhecida sob o nome de Monotelismo, não foi todavia aceita pelos teólogos ortodoxos, que a pronunciaram como sendo contrária ao Evangelho e não parecia razoável. Se Cristo tinha duas naturezas, era inevitável que Ele tivesse também duas atividades — como Deus executando milagres, ressuscitando dos mortos e subindo ao Céu; como homem, executando os atos comuns da vida diária. Similarmente, se Ele tivesse duas naturezas, cada uma deveria ter sua vontade individual.

Em 680, portanto, sob Constantino Pogonatus, o Sexto Sínodo Ecumênico se reuniu em Constantinopla. Seus membros condenaram o Monotelismo como heresia e definiram que como em Jesus Cristo existiram duas naturezas, não confundidas, não modificadas, inseparáveis e indivisíveis, assim também existiram Nele duas atividades naturais e duas vontades, que não disputaram uma com a outra, já que a humana subordinou-se à poderosíssima vontade divina. Desse dia em diante somente uma pequena comunidade ainda adere ao Monotelismo: é a dos Maronitas do Líbano.

Pelagianismo e Agostianismo.

Controvérsias Cristológicas não foram os únicos assuntos tratados pelos Sínodos Ecumênicos citados até agora. Tocaram em outros assuntos, também, a respeito ou da fé ou da conduta e disciplina da Igreja. Digna de nota entre as questões de fé é o Pelagianismo, uma heresia que afetou mais o Ocidente, mas que foi condenada pelo Terceiro Sínodo Ecumênico em Éfeso, como inconsistente com os fatos existentes. Pelagius, um monge da Bretanha, que achou seu caminho para a África, negou o pecado original e manteve que a natureza humana tinha suficiente capacidade para o bem e para praticar virtudes por seus próprios poderes sem serem ajudados, atribuindo assim um papel secundário para a divina graça no trabalho da salvação, e a morte de Nosso Senhor na Cruz tinha tido um mero valor instrutivo como modelo de auto sacrifício para imitação pela humanidade.

A falsa psicologia dessa doutrina foi exposta por Agostinho, Bispo de Hippo na África, o mais eminente professor da Igreja Ocidental, que levantou armas contra Pelágio, mas ele próprio foi longe demais para o outro extremo. Enquanto Pelágio ensinava que a alma humana era completamente livre da condição pecaminosa, Agostinho mantinha que era completamente corrupta, que o homem não contribuía em nada para sua própria salvação, e que a salvação era o trabalho de Deus sózinho, que arbitrariamente predestinava um para a salvação, outro para a perdição. A Igreja rejeitou essa visão extremada, assim como tinha feito com a outra. O homem, espiritualmente, não é nem totalmente são nem totalmente morto, ele é doente; e enquanto sua salvação é principalmente o produto da graça de Deus e da morte redentora do Salvador, sua vontade própria e esforço também operam de modo secundário.

6. Os Padres Mais Eminentes.

Os Padres Apostólicos.

O título de "Padres" é dado para aqueles homens notórios dos primeiros oito séculos da era Cristã que combinaram profundo aprendizado com uma vida santificada e perfeita pureza de fé, e que reforçaram outros na vida Cristã por suas palavras escritas ou faladas. Aqueles que tiveram todo tipo de conhecimento, mas cuja fé foi de certo modo imperfeita, são chamados de "professores," e não são intitulados com igual honra que a dos Padres, apesar deles terem contribuido com tudo que era humanamente possível. Os primeiros Padres foram os Padres Apostólicos, assim chamados porque eram os discípulos e companheiros de trabalho ou contemporâneos dos Apóstolos. Esses são Clemente Bispo de Roma (A.D.100) que trabalhou com o Apóstolo Paulo; Barnabas o Cipriota, que também pregou o Evangelho com Paulo, e que, diz a tradição, que foi apedrejado até a morte pelos Judeus em Salamis, Chipre; Inácio de Antioquia, cuja morte por martírio sob Trajano em 115 já foi mencionada; Policarpo de Esmirna, cujo martírio sob Marco Aurélio em 166 também foi mencionado; e mais dois ou três outros. Memórias escritas por todos esses homens sobreviveram, principalmente na forma de epístolas ocasionais para várias comunidades Cristãs. Elas formam um pequeno, mas precioso volume; pois as obras dos Padres Apostólicos foram escritas imediatamente depois do Novo Testamento e são inspiradas por um supremo amor e devoção ao Salvador.

Apologistas.

Os escritores que sucederam os Padres Apostólicos representam, como de fato foram, a adolescência da Literatura Cristã. Como sua característica comum fazem uma arrojada defesa da fé, daí serem chamados de Apologistas. Já mencionamos dois desses Apologistas: Quadratus, Bispo de Atenas, e o filósofo Ateniense, Aristides, pois ambos apresentaram ao Imperador Adriano apologias ao Cristianismo por conta de sua perseguição injusta aos companheiros Cristãos. A eles devem ser acrescentados o filósofo Justin que endereçou duas apologias a Marco Aurélio, sob quem foi martirizado em 166; o Ateniense, Atenágoras, que floresceu entre os anos 170-180, e endereçou uma "intercessão em nome dos Cristãos" aos Imperadores Marco Aurélio e Comodo; e Teófico de Antióquia (182), que submeteu uma exposição da fé Cristã a seu amigo pagão Autolycus.

Todos os três apresentaram um sincero e detalhado relato das crenças dos Cristãos e do seu modo de vida, dando uma basta às falsas e infundadas acusações dos inimigos dos Cristãos, que eles se reuniam a noite para satisfazer-se em orgias e matar e comer crianças recém-nascidas. Justin especialmente foi um excelente apologista, e defendeu o Cristianismo não só contra os pagãos, mas também, em outro trabalho intitulado "Diálogo com Trifo," contra os Judeus. Sua vida foi uma incansável luta pela verdade; um após o outro, ele passou através de todos os sistemas de filosofia e sentou com todos os homens ilustrados de sua época, sem encontrar satisfação para sua ânsia espiritual, até que finalmente encontrou paz no Cristianismo. Até o final de seus dias continuou a usar o manto de filósofo, convencido de que o Cristianismo era a única filosofia de vida infalível.

Representantes das Escolas da Ásia Menor e África.

Como uma árvore, cujos galhos se multiplicam e estendem seus ramos, o aprendizado Cristão teve muito pouco começo, mas agora começava a se alargar em várias Escolas, ou métodos de estudo e interpretação. Eram Escolas da Ásia Menor, da África, de Alexandria e de Antióquia. A principal característica da Escola da Ásia Menor era a devoção a uma primitiva e incorrupta ortodoxia da fé; a da Escola da África, a austera e prática natureza de seu código moral; a de Alexandria, um espírito especulativo, filosófico e alegórico; e a de Antióquia, a sóbria e literal interpretação da Santa Escritura. Um exemplo da Escola da Ásia Menor é Irineu (A.D. 202), que, nascido na Ásia Menor, onde estudou com São Policarpo, mais tarde foi para a atual França e tornou-se Bispo de Lyon, onde foi martirizado.

Seu trabalho mais importante é contra as heresias, no qual, como um fiel guardião da verdade, defende as doutrinas ortodoxas contra toda corrupção e denuncia aqueles que divergem dela. Como representantes da Escola Africana, Tertuliano (A.D.220), um presbítero de Cartago, e Cipriano (A.D. 258), Bispo de Cartago, devem ser mencionados. O primeiro, que inventou a linguagem do latim eclesiástico e sempre falou com desprêzo do aprendizado secular, foi o mais severo advogado da moralidade austera e foi desviado para o Montanismo por seu excessivo ascetismo. Cipriano, um tipo perfeito de pastor Cristão, foi inflexível em sua hostilidade para com aqueles que tinham traido a fé em tempo de perseguição, e foi decapitado por seus princípios sob Valeriano. Ambos nos deixaram ensaios, dogmáticos, éticos, interpretativos, ou ocasionais, nos quais sua maneira austera de viver é espelhada.

Representantes da Escola Alexandrina

A Escola Alexandrina foi fundada por Pantaenus e continuada por Clemente de Alexandria e Orígenes. De acordo com essa Escola, o Cristianismo é a mais elevada forma de conhecimento, e o perfeito Cristão é o "gnóstico," isto é, aquele que não só crê, mas tem também o conhecimento e compreensão de sua fé. Esse ideal Clemente colocou diante de si mesmo em sua trilogia, Address to the Greeks, The Tutor, e as Miscellanies, na qual ele gradualmente leva seu pupilo do paganismo para as alturas da perfeição Cristã. A vida de Clemente foi similar à de Justin; ele também começou como um filósofo pagão e mais tarde abraçou o Evangelho como a única filosofia satisfatória. Seus trabalhos são um tesouro da sabedoria grega; mas, mesmo grandes como foram, ele foi ultrapassado em gênio, trabalho sistemático e fertilidade por seu sucessor Orígenes, que foi cognominado o Adamantino.

Orígenes.

Orígenes foi o filho de Leonidas o mártir, o qual, como já vimos, não temeu a morte por Cristo quando ainda era uma criança. Tem sido dito que ele escreveu mais livros do que um homem poderia ler durante sua vida inteira. Como um apologista, escreveu seu tratado Contra Celso, no qual refuta as vãs acusações desse formidável inimigo do Cristianismo. Como um escritor sobre dogmas, nos deixou seu trabalho sobre Os Princípios, o primeiro exemplo de dogmática Cristã. Como um comentador, compõe longos comentários sobre quase todas as partes da Sagrada Escritura. Como crítico, trabalhou na Hexapla, na qual colocou em seis colunas paralelas o original e as traduções existentes até seus dias, de modo a determinar o texto original. Infelizmente, esse homem, cujo grande zêlo por Cristo levou-o até a Arábia para pregar o Evangelho, e que converteu Julia Mammaea, a mãe do Imperador Alexandre Severo, desviou-se em certos erros de opinião individual que fizeram com que gerações posteriores fossem hostis à sua memória. Mas apesar disso, a Origenes pertence a glória de ter lançado as bases de quase todos os ramos da Teologia, e de ter sido o mestre daqueles que vieram depois; pois muitos dos grandes Padres da Igreja foram educados por seus escritos. Sua morte foi consistente com sua vida, pois ele sucumbiu em A.D. 254 a ferimentos infligidos a ele durante a perseguição deciana.

Atanásio.

À Escola Alexandrina também pertencem Atanásio e os três Capadócios: Basílio o Grande, Gregório de Nissa e Gregório Nazianzo, que nos trazem para a mais gloriosa época da Literatura da Igreja Grega. Foi a "Idade de Ouro," que produziu trabalhos espirituais de tal perfeição, eloquência, profundidade e originalidade, que não só eles existiram para permanecerem inultrapassáveis, mas existiram para servirem de padrão e modelos para a posteridaade. Atanásio (A.D.373), que era baixo de estatura, mas poderoso em espírito, foi o mais destemido campeão da Ortodoxia, pela qual lutou por quarenta e cinco anos, e foi mandado dez vezes para o exílio. Existiram tempos em que ele pareceu estar abandonado por todos e lutando sozinho contra reis e pessoas; mas estava lutando pela verdade, e no final a verdade triunfou. No curso de sua problemática e espantosa vida, encontrou tempo tratados apropriados para seu tempo; para compor longas epístolas e apologias e para se devotar ao estudo das Sagradas Escrituras. Seus trabalhos são caracterizados por riqueza e profundidade de significados e por um severo método dialético; apesar de nem sempre serem polidos em estilo; pois Atanásio estava constantemente em privações e escreveu mais sobre seu joelho do que na quietude de um ambiente adequado.

Os Três Capadócios.

As batalhas enfrentadas pela Ortodoxia por Atanásio foram continuadas pelos três Capadócios. Basílio (A.D. 379), cuja mãe Emmelia era uma mulher muito devotada, estudou filosofia em Atenas. Lá ele fez um amigo pelo resto da vida do seu colega-estudante. Gregório de Nazianzo, com quem se retirou, quando seus estudos filosóficos terminaram, para uma hermitage em Pontus, para estudar os trabalhos de Orígenes e para se preparar para uma carreira teológica. O aprendizado de Basílio e sua virtude logo o elevaram para o episcopado de Cesaréia, que durante longo período permaneceu sob seus cuidados pastorais. A ele é dado o crédito de ter fundado a primeira casa para pobres do mundo, chamada por seus contemporâneos de "Basilias", onde gastava tudo que recebia. Seu amor pela Ortodoxia levou-o a entrar em conflito com o Imperador Ariano Valeus, perante quem ele permaneceu impávido. Seus tratados interpretativos doutrinais e éticos, assim como suas cartas, brilham na fronteira da literatura mundial e justificam o título concebido a ele "portador de luz do universo."

Em suas homilias do Hexaemeron, ele mistura religião com ciência natural para a compreensão das pessoas; e seu conselho para os jovens sobre como aproveitar os escritos dos antigos escritores gregos é digno de estudo. Sua morte foi lamentada, não só por Cristãos, mas até mesmo por judeus e pagãos. Seu irmão Gregório de Nyssa (A.D. 394) prima em suas obras mais como um filósofo especulativo e erudito do que como um moralista prático. Especulação filosófica também caracteriza o trabalho de Gregório de Nazinzo (A.D. 390), já mencionado como o amigo de Basílio, e a quem o povo nomeou "o Teólogo" por conta dos sermões sobre a divindade do Logos que pregou contra a heresia ariana na Igreja de Santa Anastácia em Constantinopla, para levar a corrente de opinião popular de volta para os canais da fé incorrupta.

Tão popular Gregório se tornou naquele tempo que Teodosius o Grande convidou-o para ser Arcebispo de Constantinopla, uma posição da qual ele logo se retirou quando se deu conta das perpétuas maquinações das quais ele era o centro. Poeta em sua poesia e seus sermões, Gregório era poeta também em sua vida, sendo o oposto ao seu prático e fleugmático amigo, Basílio.

Um Representante da Escola de Antióquia: Crisóstomo.

Se os acima mencionados Padres são exemplo brilhante da Escola Alexandrina de pensamento, a Escola de Antioquia é mui dignamente representada por João (A.D. 407) que por sua grande eloquência foi chamado de "boca-de-ouro", ou "Chrysostom" em grego. Seu pai foi o pagão Secundus; sua mãe, Anthousa, uma Cristã que enviuvou cedo na vida, confiou a educação de João a Libanius, o mais famoso sofista da época. Tão grande era a devoção do menino ao aprendizado que quando perguntado pelos pagãos a quem ele deixaria como seu sucessor, Libanius respondeu: "João, a menos que os Cristãos o roubem de nós." Mas João, que mal conheceu seu pai, seguiu a religião de sua mãe e foi batizado, tornando-se mais tarde um presbítero em Antióquia, onde fez sermões por muitos anos. Seu discurso era dourado, e sua vida, a vida de um Santo.

Sua fama espalhou-se até a corte imperial na capital, para onde o rei Arcádio o atraiu com um ardil e o persuadiu a tornar-se Arcebispo de Constantinopla, para grande alegria do povo. Mas João não era somente o protetor dos pobres e oprimidos; ele era um destemido censor do crime e da corrupção nas altas rodas. Isso levantou a inimizade da Imperatriz Eudoxia, cuja conduta não estava acima de censura, e com a assistência de outros pecadores ela tramou banir o santo homem para os confins da Armênia, onde eventualmente morreu no meio de neve, gelo e privações. "Glória a Deus por tudo," foram suas palavras quando moribundo.

Crisóstomo foi o mais popular e prático dos grandes oradores gregos, e seus sermões, que ocupam dezoito grandes volumes, podem ainda hoje em dia ser lidos com grande proveito e prazer. Ele não era somente um excelente psicólogo, que investigou fundo os males sociais do mundo, mas também um comentador que em sua interpretação da Sagrada Escritura seguiu o sóbrio e literal método que era a marca distintiva da escola de Antióquia.

Outros Padres.

A citação desses poucos nomes famosos não constitui nem um décimo do que deveria ser dito sobre esse assunto. Além dos Padres que mencionamos, existem outros, destacados como historiadores (como Eusébio de Cesaréia e Sócrates), como catequistas (como Cirilo de Jerusalém), como comentadores (como Teodoreto de Cyrus), ou como controversialistas (como Cirilo de Alexandria). Nem devemos esquecer os eminentes Padres Latinos do Ocidente, entre os quais Ambrósio, Jerome e Agostinho brilham como estrelas de primeira grandeza. Mas tentamos meramente dar alguma ideia sobre aqueles homens excepcionais, que pelo esplendor de seus ensinamentos e moralidade adornaram a Igreja tanto nos períodos de suas vidas quanto posteriormente.

7. Vida Cristã e Louvação.

A Reforma Moral Trazida à Luz pelo Evangelho.

O Cristianismo não é somente uma revelação da verdade divina; é também uma inspiração para uma vida mais virtuosa. Eis por que o espalhamento dos princípios Cristãos foi usualmente seguido por uma mudança na moral devido ao triunfo da virtude sobre a natural corrupção do gênero humano. Uma melhoria na posição da mulher, a purificação do lar, a libertação dos escravos, a fundação de instituições filantrópicas, a abolição de lutas públicas entre gladiadores e com feras na arena, um sempre crescente simpático interesse pelos excluídos da sociedade — tudo isso foi fruto do Evangelho. "Vêde como eles se amam uns aos outros, e como cada um está pronto para se sacrificar por seus irmãos!" chamavam os pagãos, maravilhando-se com o amor Cristão. E até mesmo Libanius, tomando como exemplo a mãe de João Crisóstomo, falou de sua espantosa admiração pelas mulheres Cristãs. Era, acima de tudo, a coragem dos mártires, que seguiam para sua morte cantando como indo para uma festa, que espantava os pagãos; mas de uma vez, na verdade, os executores se tornaram Cristãos e seguiram os mártires para sua própria morte. Nem podemos esquecer a influência civilizadora do Cristianismo sobre povos inteiros, tais como os invasores que precipitaram-se sobre a Europa vindos do norte durante o século quarto, cujas selvagens e bárbaras energias foram subitamente domesticadas e amarradas aos trabalhos de paz.

O Joio no Meio do Trigo.

Mas trigo e joio crescem juntos, e hábitos antigos são difíceis de serem deixados de lado. A Igreja Cristã não esteve sem pecadores que ofereceram um chocante contraste com seus santos, e eram uma mancha na reputação Cristã. O mais grave de todos os males era a hipocrisia daqueles que não praticavam a fé que professavam. Tais, nos tempos apostólicos, foram Ananias e Safira; nos tempos das perseguições, aqueles a quem o medo fazia com que negassem sua fé e entregassem aos perseguidores certificados de paganismo; e, durante os anos de paz, aqueles pseudo-Cristãos que posavam como Cristãos para conseguir favores reais.

Quantos outros pecados eram abundantes entre Cristãos, especialmente em grandes centros como Alexandria, Constantinopla e Antióquia, tanto que podem ser vistos por qualquer um que leia os sermões dos Padres que denunciavam do púlpito as malignidades do seu tempo. As grandes damas eram acompanhadas, quando saíam, por multidões de serviçais mulheres para demonstrar sua riqueza; seus adornos eram caros, e elas frequentemente usavam pinturas religiosas bordadas nos seus elaborados mantos. Mágicos, astrólogos e quiromantes dividiam a simpatia de muitos Cristãos que eram incapazes de abandonar suas antigas superstições.

O povo tinha mania a tal ponto pelos espetáculos no hipódromo que até na Sexta-Feira Santa os ofícios da Catedral de Santa Sofia eram perturbados pelos gritos vindos do hipódromo em Constantinopla. Atores desavergonhados desgraçavam o palco com espetáculos vís e licenciosos. Para coroar tudo, muitos bispos desonraram seus chamados por suas paixões, intrigas e conspirações. Foram bispos como esses que perseguiram Atanásio, forçaram Gregório o Teólogo a resignar, e tiveram sua parte no banimento de João Crisóstomo.

O Tratamento da Igreja para com os Pecadores.

A Igreja reconhecendo que o fermento trabalha, mas lentamente, adotou uma atitude de perdão para com os pecadores, aconselhando arrependimento para todos eles, e só em raras ocasiões empregando medidas extremas contra provocadores de escândalo pervertidos e não arrependidos. Mesmo contra eles ela não fechava as portas da misericórdia, mas desenvolveu um sistema especial de disciplina para a assistência à eles. De um pecador que desejasse retornar ao rebanho, a Igreja exigia, primeiro uma pública confissão de seus pecados com todos ouvindo; segundo, que ele deveria se retirar da Igreja e seguir parte do ofício por detrás das grades do nartex; terceiro, que após um tempo determinado, poderia entrar na Igreja e louvar ajoelhando-se com o resto da congregação, mas sem o privilégio de partilhar da Santa Comunhão; e por último, quando ele havia passado por todos esses estágios de arrependimento, a Igreja o recebia de volta num dia determinado, trocando com ele o beijo do amor, admitindo-o à Santa Comunhão, e restaurando-o à sua antiga posição como um membro integral, gozando de todos seus privilégios. Essa foi a atividade da Igreja oficial para com os pecadores, baseada nas palavras de Nosso Senhor "Digo-vos que assim haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento" (Lucas XV, 7).

Mas os montanistas, entre os quais até Tertuliano foi listado nos seus últimos anos, pensavam e agiam de outra forma. Traçando sua origem ao turbulento e fanático falso profeta, Montanus, não admitiam arrependimento, e cortavam da Igreja todos os que após o batismo tinham caído no pecado como se tivessem tido o julgamento final, e além disso, qualquer um que recebesse o pecador era considerado corruptor do Cristianismo e um apóstata.

O Primeiro Eremita.

A decadência moral na qual o Império Romano mergulhou quando o Cristianismo apareceu, as impiedosas perseguições dirigidas pelos pagãos contra os Cristãos, e um desejo de louvar a Deus livremente e sem impecilhos impeliram alguns dos mais ardentes seguidores do Evangelho a se retirarem de tal cruel e corrupta comunidade. Retirando-se para lugares desertos, pregavam a vida toda em celibato e faziam de oração solitária e comunhão com o Senhor o objetivo e propósito de sua vida. Esses homens eram chamados de eremitas, monges, anacoretas e ascetas.

O primeiro eremita mencionado na história é Antônio (A.D. 356), que em 270, quando tinha dezoito anos de idade, aconteceu ter ouvido na Igreja, em sua cidade natal de Alexandria, o texto do Evangelho; "se queres ser perfeito, vai, vende tudo que tens e dá-lo aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me" (Mateus 19:21). Ele imediatamente distribuiu o total de sua grande fortuna entre os pobres; e retirou-se para o deserto, onde passou sua vida toda, só aparecendo uma ou duas vezes em Alexandria, para pregar contra o Arianismo, e para converter multidões de idólatras ao Cristianismo. Sua vida foi relatada por seu amigo e admirador Atanásio o Grande. Um contemporâneo de Antônio foi Paulo (A.D. 340), que veio de Tebaida e a quem Antônio descobriu no deserto, onde esteve escondido por setenta anos.

O Espalhamento da Vida Monástica.

A princípio esses eremitas viveram sozinhos em suas celas ou cavernas, inteiramente cortados de seus companheiros. Logo, no entanto, Pachonius (A.D.348), um pupilo e seguidor de Antônio o Grande, fundou o sistema mais comunitário que é chamado de "coenobite" (cenobita em português). Reunindo os eremitas espalhados na Ilha de Tabena no Rio Nilo, impôs a eles uma regra comum de oração e jejum; e introduzindo formas adequadas de trabalho entre eles, tornou a vida deles mais prática e interessante. O sistema de Paconius foi logo transplantado para a colina de Nitria no Egito por Ammon, para o deserto de Citia por Macário, para o deserto de Gaza por Hilário e para outros lugares por outros homens. O

s grandes Padres eram admiradores da vida monástica que eles próprios tinham seguido por algum tempo, como a melhor preparação para seu ministério; e Basílio o Grande escreveu uma coleção de regras para a vida monástica que ainda são seguidas pelos monges da Igreja Oriental. No Ocidente, também, o monasticismo foi introduzido muito cedo, graças aos esforços de Ambrose, Jerome e Martim de Tours, mais foi reorganizado em 529 em bases inteiramente novas por Benedito, que fez dos monges não só cultivadores científicos do solo, mas os invisíveis copistas e guardiãos dos tesouros literários da antiguidade. Os Beneditinos são a glória da Igreja do Ocidente, que mais tarde produziu e ainda preserva outras ordens devotadas a trabalhos de utilidade pública.

De tipo muito diferente foram certos extraordinários tipos de vida nos quais o monasticismo oriental regenerou, e dos quais o mais curioso foi o dos "Stilitas", que passavam sua vida toda em uma barraca construída no topo de um pilar bem alto. No entanto, mesmo esses tinham seu uso, pois do alto de suas torres atraiam a atenção de centenas de pessoas semi-bárbaras, e as atraiam para a fé Cristã. Um dos mais conspícuos dos Stilitas foi Simeão (A.D. 422), que pregou o Evangelho dessa forma na Arábia.

Lugares de Louvação Pública.

Louvação que leva o fiel à relação e comunhão com Deus forma um componente que é parte da vida moral. Nos primeiros tempos, os Cristãos se reuniam para louvar em casas particulares, onde recebiam os Santos Sacramentos e comiam juntos os assim chamados "agapes," ou festas de amor; durante as perseguições eles se refugiavam em esconderijos cavernas ou catacumbas. Mas quando as perseguições tiveram fim, começaram a se reunir para louvas em magníficas igrejas, que eram frequentemente construídas e adornadas por imperadores, como Constantino o Grande, que embelezou sua recém-construída capital com as igrejas dedicadas à Sabedoria de Deus (Santa Sofia), Paz de Deus e Poder de Deus, e cujo exemplo foi seguido por muitos dos seus sucessores. Na forma, os primeiros prédios para louvação pública eram quadrilaterais e oblongos, com o altar no lado leste e o pórtico no oeste, e eram conhecidos como "basílicas."

Com o correr do tempo, foram acrescentadas asas em cada lado da basílica, e então o anterior prédio quadrangular tomou a aparência de uma cruz. Quando pela primeira vez Justiniano colocou um domo redondo sobre essa construção cruciforme, o verdadeiro estilo bizantino de arquitetura desabrochou, tal como vemos na bela igreja de Santa Sofia, construída por Anthemius em 537. Ícones não eram desconhecidos desde os primeiros tempos, mas eles eram a princípio de caráter simbólico, como fica evidente nas catacumbas.

Assim, por exemplo, uma pomba representava o Espírito Santo; uma âncora a esperança; um fênix a ressurreição; um barco a Igreja; uma cesta com pães a Sagrada Comunhão; um peixe era pintado para representar criptograficamente porque cada letra da sua grafia (ictios) em grego era tomada como a inicial de um de seus atributos; assim:

Ι Ιησους — Jesus

Χ Χριστος — Cristo

Θ Θεου — de Deus

Υ Υιος — Filho

Σ Σωτηρ — Salvador

Depois, cenas das Escrituras começaram a aparecer na decoração da igreja e os ícones de Cristo, da Virgem Maria e dos Santos. Alguns desses ícones foram feitos em mosaicos, e assim duraram indefinidamente; mas nenhuma estátua foi permitida nas igrejas.

Os Dias de Festas Mais Importantes.

O dia mais importante de louvação na semana era o Domingo, que desde os tempos apostólicos foi consagrado à memória da Ressurreição de Nosso Senhor. A festa mais importante do ano era a Páscoa, mais tarde rivalizada pelo dia de Natal, cuja celebração foi introduzida na igreja do Oriente pelo Ocidente durante o quarto século. A grande festa da Páscoa era precedida pelos quarenta dias da grande quaresma, mantidos em memória dos quarenta dias no deserto em jejum do Senhor, e durante esse período cada Cristão jejuava de acordo com suas forças, alguns até um maior e outros em um menor grau. A Ascensão e o dia de Pentecostes eram celebrados respectivamente quarenta e cinquenta dias depois da Páscoa.

Mas durante os primeiros três séculos de Cristianismo, a Igreja não tinha definido o dia exato em que a Páscoa deveria ser celebrada. Como Nosso Senhor foi crucificado no dia 14 do mês Judeu de Nisan, numa sexta-feira, e ressuscitou no dia 16, um domingo, algumas das Igrejas Cristãs insistiam em celebrar a Ressurreição no dia 16 de Nisan, independentemente de ser um domingo ou não; enquanto outras igrejas esperavam pelo primeiro domingo depois do dia 16 de Nisan, a menos que o 16 caísse num domingo.

Para acertar essa diferença, o Padre apostólico Policarpo empreendeu a longa viagem para Roma em A.D. 155; mas o Papa, Aniceto, recusou-se a ceder, apesar de ter recebido Policarpo como um irmão e ter permitido que ele celebrasse a Liturgia junto consigo. A questão da Páscoa, com outras questões relativas à ordem da igreja, foi alertada no primeiro Sínodo Ecumênico em Nicéia, que estabeleceu que todas as Igrejas deveriam celebrar a Páscoa no mesmo dia; ou seja, no primeiro Domingo depois da lua cheia depois do equinócio de primavera. (hemisfério norte: nota do tradutor.)


Fonte: https://www.fatheralexander.org/page23.htm