Esta é a quinta parte da série de publicações “História da Igreja Ortodoxa”.

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10. O Começo do Grande Cisma.

Governo da Igreja.

Apesar de todas as diferenças locais de língua, nacionalidade e forma de louvação, a Igreja Cristã teve sucesso através de oito séculos em manter absoluta unidade. No século nove, entretanto, Oriente e Ocidente começaram a ter rumos separados, até que no século onze a separação entre eles tornou-se um fato estabelecido e permanente. As causas desse infeliz cisma, que dividiu o corpo da Igreja em dois, foram várias e numerosas, e aparecerão no tempo oportuno; mas principal entre elas esteve o espírito de dominação que gradualmente inflamou Roma e causou que ela aspirasse à suprema soberania sobre todas as Igrejas em todas as partes do mundo. Para que, no entanto, essa matéria seja melhor entendida, devemos primeiro dizer algo sobre a forma original de governo da Igreja pela Igreja e como os Papas tentaram usurpar os reinos do governo.

Governamento da Igreja Durante os Três Primeiros Séculos.

Durante os três primeiros séculos, a mais alta autoridade eclesiástica foi vestida pelos bispos locais, que continuaram o trabalho dos Apóstolos como seus imediatos sucessores. Não só eles ensinavam seu rebanho leigo e comandavam seus subordinados clericais; eles também mantinham controle atento sobre o ensinamento de doutrina Cristã corrompida e a pureza moral daqueles sob seus cuidados. Muito cedo, no entanto, uma certa distinção começou a acontecer entre os bispos. Alguns deles tinham assento em capitais das províncias romanas; outros em cidades que tinham recebido o Evangelho diretamente dos Apóstolos, e por disseminarem imediatamente o Evangelho entre as cidades vizinhas e vilarejos, tinham se tornado "metropolis" ou igreja-mãe no sentido Cristão.

Assim começaram a surgir Metropolitas, que tinham assento nos grandes centros do Império Romano e gozavam de privilégios maiores que os dos bispos que os circundavam. Eles eram os governadores das sés eclesiásticas, as quais coincidiam totalmente com as províncias políticas. Como Metropolitas, sagravam os bispos das cidades-filhas; quando surgia a ocasião, convocavam Sínodos, nos quais bispos e clérigos de alto nível tomavam parte; e, presidindo as reuniões, eram responsáveis por emitir as decisões necessárias.

Entre os Metropolitas naqueles tempos, três vieram a ser particularmente distinguidos por terem seus assentos nas três maiores cidades do Império: — os Metropolitas de Roma, Alexandria e Antióquia que eram naqueles dias proeminentes e entre esses três, o Metropolita de Roma gozava de um certo tipo de precedência honorária, não porque tivesse jurisdição sobre os outros Metropolitas, que eram todos governantes independentes em suas próprias sés e responsáveis somente pelos Sínodos locais, mas sim porque Roma era naquele tempo, a capital política do mundo.

Governante da Igreja depois de Constantino o Grande.

Esse era o estado dos assuntos da Igreja, antes de Constantino o Grande; mas nos anos que se seguiram a seu reinado a pressão de problemas mais sérios forçou a Igreja a reorganizar seu sistema de governo para linhas mais abrangentes. Como Constantino havia dividido seu reino em várias dioceses políticas, a Igreja, obrigada a adaptar as esferas eclesiásticas às esferas políticas, foi dividida em dioceses eclesiásticas correspondentes às dioceses políticas; cada diocese eclesiástica sendo a partir de então governada por um Arcebispo. Assim, nesse período, o Arcebispo de Alexandria exercia a supervisão suprema sobre os assuntos eclesiásticos da diocese do Egito; o Arcebispo de Antióquia sobre a diocese do Oriente; o Arcebispo de Éfeso sobre a diocese da Ásia; o Arcebispo de Cesaréa sobre a diocese de Pontus; o Arcebispo de Heraclea sobre a diocese da Trácia; Arcebispo de Salônica sobre a diocese do Ilíricun Oriental, e o Arcebispo de Roma continuou a controlar os assuntos de Italia central e do sul. O título de "Patriarca" não era ainda conhecido, pois ele somente entrou em uso em 451.

Os Cincos Patriarcas.

Antes de Constantino o Grande, Bizâncio era um insignificante episcopado sob o comando do Metropolita de Heraclea. Mas a partir do momento em que a assim renomeada Constantinopla suplantou a velha Roma como capital do Império, era completamente natural que ela viesse a ser, também, o mais importante arcebispado do império; e o Quarto Concílio Ecumênico declarou coerentemente que o Arcebispo de Constantinopla foi intitulado com igual reverência à do Arcebispo de Roma, "porque Constantinopla é a cidade do rei." Pela mesma razão — porque, por assim dizer, a outrora insignificante cidade de Bizâncio foi elevada à condição de capital do mundo ao mesmo tempo que a antiga cidade de Roma estava decrescendo em direção à insignificância — não foi contraditório ao então existente estado dos assuntos o fato de em 587 o Imperador Justiniano conceder ao Arcebispo de Constantinopla, João o Jesuador, o título honorífico de "Ecumênico," que seus sucessores tem mantido desde então.

Com o correr do tempo, a autoridade administrativa dos Arcebispos de Éfeso e Cesarea tornaram-se subordinadas ao Arcebispo de Constantinopla, e Salonica ficou sobre o comando de Roma; e em 431 o episcopado de Jerusalém, foi promovido ao nível de centro eclesiástico independente, como uma marca de reverência para com a Cidade Santa que havia sido o berço do Cristianismo no seu nascimento. Assim, em meados do século quinto, existiram no mundo Cristão cinco governantes eclesiásticos supremos, que então começaram a receber o título de "Patriarcas": — nominalmente, os Arcebispos de Roma, Constantinopla, Alexandria, Antióquia e Jerusalém.

Mas no século sétimo as ferozes incursões do Mohamedanismo ao Egito, à Síria e à Palestina diminuíram a importância dos três últimos Patriarcados citados e os restringiram de todos os modos. Daí em diante, por conseguinte, duas cabeças eclesiásticas permaneceram supremas no Cristianismo; no Ocidente o Primado da Velha Roma, cuja autoridade era firmemente crescente; e no Oriente o Primado da Nova Roma, ou Constantinopla, que estava lutando para manter sua independência eclesiástica.

A Ambição dos Papas de Roma.

Apesar de sua posição exaltada e seu impressionante título de "Patriarca Ecumênico," o Patriarca de Constantinopla exercia uma autoridade que era restrita de muitas maneiras e nunca foi capaz de ambicionar a suprema autoridade sobre o mundo todo. A glória política de seu trono foi obscurecida pela origem apostólica ou pela renovada santidade de outras cidades do oriente, e sua liberdade era cortada e não pouco pelo Imperador Bizantino, que convocava os concílios, e às vezes, até mesmo ele próprio emitia Decretos de Fé, indicava o Patriarca, e constantemente interferia nos assuntos eclesiásticos. A posição do Papa, no entanto, era completamente diferente. Roma era a única Igreja Apostólica do Ocidente, e era, por isso, olhada reverentemente pelos Cristãos da Itália, Gália, Espanha, África e até além.

O Imperador, cujo trono estava então no Oriente, estava muito longe para ingerir-se nos assuntos da Igreja de Roma, e cabeças da Igreja Oriental, perseguidos por Imperadores heréticos, como foi o caso, por exemplo, de Atanásio, procuravam refúgio com os Papas. Até o passado histórico de Roma, uma vez mandatária no mundo todo, alimentava no coração dos Papas ambições despóticas e imperialistas. Assim, desde os primeiros tempos, vemos atitudes arrogantes dos Papas para com seus companheiros-bispos, como quando o Papa Vítor (193-202), tentou impor o costume romano de celebrar a Páscoa a Polycrates, Bispo de Éfeso, e foi repreendido por Irineu de Lyons; ou quando Estevão (257-259), convocou o Bispo Cipriano de Cartago para concordar com a prática romana em relação ao Batismo de heréticos, quando então foi publicamente censurado por Firmiciano da Capadócia.

Apesar de todos os protestos, no entanto, os Papas nunca falharam em tirar vantagem de qualquer circunstância que pudesse colaborar com o objetivo de sujeição de outros bispos, até que, tendo reunido todas as Igrejas Ocidentais sob sua autoridade, eles julgaram o momento oportuno para invadir as Igrejas do Oriente. Encontraram um pretexto para sua intenção nas disputas e lutas domésticas em Constantinopla durante o século nono.

A Pretensão do Papa Nicolau de Se Tornar o Árbitro do Oriente.

Tendo algumas razões de insatisfação com o Patriarca Inácio, o Imperador Bizantino Miguel III (842-867) e seu tio e colega Bardas depuseram-no e apontaram em seu lugar um homem cuja virtude, sabedoria e competência eram reconhecidas universalmente — o chefe da Secretaria de Estado, Photius. Os que apoiavam Inácio, ao invés de aceitar a situação para a manutenção da paz na Igreja, apelaram a Roma, reclamando da injustiça feita a eles. Nicolau I, que era o Papa na ocasião, foi o mais ambicioso de todos os Papas; e para manter o não-evangélico princípio da supremacia papal, não mostrou nenhum escrúpulo em usar certos documentos falsos, quais sejam, as decretais forjadas que apareceram mais ou menos naquele tempo.

Vendo uma oportunidade favorável para intervir nos assuntos do Oriente, Nicolau indicou a si próprio como juiz da pendência entre as duas partes conflitantes usando sua própria autoridade. Declarou que o trono de Constantinopla legalmente pertencia a Inácio e rejeitou a eleição de Fotius de um lado porque tinha sido realizada sem seu apoio, e de outro lado porque ela tinha elevado em uma única semana um mero leigo à condição de Arcebispo.

Aceitando essas reclamações, o Papa passou por cima do fato de que seu pretenso direito de supervisão geral nunca fora reconhecido em lugar nenhum, de que Photius tinha o apoio não só da corte, mas também da maioria do clero e da população; e que Ambrósio, Farasio, Nicéforo e outros líderes da Igreja, no passado, tinham todos eles sido eleitos bispos diretamente a partir da condição de leigos.

Photius como Defensor da Independência de Seu Trono.

Quando então os delegados do Papa chegaram em Constantinopla e tomaram parte no Sínodo em 861 por consenso comum de partidários de Inácio e de Photius, foram forçados pela lógica dos fatos a dar seus julgamentos a favor de Photius e a admitir que o existente estado de assuntos era tanto correto como legal. Nicolau, furioso com o fato do pessoal do oriente não ter se submetido como escravos às suas decisões arbitrárias, convocou um Sínodo de seus partidários em Roma em 863 e excomungou o Patriarca de Constantinopla.

Vendo, no entanto, que os bizantinos não tomaram conhecimento de seu comportamento não razoável, ele virou sua atenção para a jovem Igreja da Bulgária, que tinha sido fundada há muito pouco tempo através das atividades do próprio Photius, e tentou separá-la de sua Igreja-Mãe. Foi então que Photius, lutando valentemente pela liberdade do Cristianismo Oriental, enviou para os Patriarcas do Oriente, em 867, sua famosa carta encíclica, denunciando o Papa por corromper a fé ao inserir no Credo a palavra "filioque," que era então desconhecida até mesmo na antiga Roma; por readministrar o Crisma aos Cristãos Búlgaros, sob o pretexto de que eles tinham previamente sido batizados por padres casados de Constantinopla; por tiranização das Igrejas Orientais; e pela escandalosa interferência em disputas fora de sua própria jurisdição.

O Assim Chamado Oitavo Concílio Ecumênico e Suas Denúncias.

Infelizmente para Constantinopla, o assunto não parou aí. Basílio, o Macedônio, um jovem cavalariço que tinha sido criado para ser colega e filho adotado do Imperador Miguel, matou esse último em 867 e proclamou a si próprio Imperador no lugar dele. Para se vingar de Photius, que tinha se recusado a administrar-lhe os sacramentos depois de seu feito homicida, Basílio então depossuiu Photius de seu trono e trouxe de volta Inácio, entrando em relações com o Papa na tentativa de assegurar para si a posição ilegal adquirida. O Papa Adriano II, que em orgulho e ambição era muito pouco inferior a seu predecessor, agarrou o momento psicológico para extrair de Basílio, como preço da benevolência romana, a condenação oficial de Photius, seu arqui-inimigo, por um grande Sínodo. Basílio consentiu, e em 869 o grande Sínodo foi reunido, com coerção e persuasão exercidas sobre os bispos. Os representantes do Papa no Sínodo triunfaram na votação.

O Papa foi reconhecido como "supremo e absoluto cabeça de todas as Igrejas, superior até mesmo aos Concílios ecumênicos"; Photius foi anatematizado e degredado como "patricida e um novo Judas"; e a Igreja Oriental pagou um alto preço pelos pecados da corte e pela obstinação dos partidários de Inácio. Mas não demorou muito para que ambos os partidos retomassem seu bom senso, constatando os perigos aos quais estavam expostos diante do despotismo romano; e partidários de Inácio e de Photius rapidamente deram-se as mãos novamente.

E num grande Sínodo reunido em Constantinopla em 879, unanimamente denunciaram o servil e forçado Sínodo de 869, o qual ainda é chamado de "Oitavo Concílio Ecumênico" pela Igreja Ocidental e que reconheceu como plenamente justificado o varonil arrazoado feito contra o Papado pelo grande Patriarca e Confessor, Photius, graças a quem a Igreja Oriental conseguiu preservar intacta tanto a fé quanto a liberdade.

11. O Completamento do Grande Cisma.

Miguel Cerulário e Leão IX.

Com o anátema pronunciado contra Photius pelos delegados papais no falso Sínodo de 869 e com o categórico repúdio desse falso Sínodo pelo Oriente em 879, um resfriamento ocorreu nas relações entre as Igrejas Ortodoxa e Ocidental, mas não existiu ainda um cisma formal. E não ocorreu esse cisma até 1054, quando Miguel Cerulário era Patriarca de Constantinopla e Leão IX era Papa de Roma, e então ocorreu um fato que tornou o cisma algo estabelecido e as duas Igrejas tornaram-se irremediavelmente separadas. Cerulário havia escrito uma carta ao Bispo João de Trania na Itália, enumerando as inovações introduzidas pela Igreja Romana e rogando a ele que desse a essa carta uma grande divulgação para que a verdade pudesse prevalecer. A carta recebeu de fato uma grande publicidade e chegou particularmente ao conhecimento do Papa Leão IX, que mandou a seu autor uma resposta muito aguda, severamente recriminando-o por pretender censurar uma igreja que nunca antes havia sido censurada por ninguém.

O Imperador de Constantinopla, Constantino Monomachus, que tinha necessidade do Papa para proteger seus interesses políticos na Itália, que estavam ameaçados, mandou ao Papa uma resposta extremamente conciliatória, pedindo que o mesmo enviasse seus delegados para estudar a situação, tendo, porém, em vista a restauração de relações fraternas. O Papa, na verdade, mandou o Cardeal Humberto, mas aparentemente numa missão longe de ser pacífica. Pois quando o Cardeal chegou em Constantinopla, não só se comportou com grande insolência para com o Patriarca, como também se dirigiu para a Igreja de Santa Sofia onde depositou sobre o altar uma bula de excomunhão contra a Igreja Oriental, estigmatizando-a como repositária de todas as heresias do passado, e então precipitadamente desapareceu. Quando o Patriarca ouviu o que tinha acontecido, ele também emitiu uma sentença de excomunhão contra a Igreja Ocidental, que os outros Patriarcas assinaram conjuntamente. Assim, a separação entre as duas Igrejas tornou-se completa.

As Cruzadas.

Desde então, várias circunstâncias infelizes contribuíram para tornar essa separação permanente. A mais terrível de todas foi as cruzadas, que, apesar de parecerem, quando olhadas do ocidente, heróicos empreendimentos inspirados pelo sagrado zêlo em libertar a Terra Santa, foram para o oriente nada menos do que um flagelo e uma calamidade. Os Cruzados, que representaram um estágio inferior de civilização e foram inflamados contra os Ortodoxos por intolerância e fanatismo, saquearam, picharam, profanaram e destruíram tudo por toda parte e deixaram vívidas marcas de sua horrorosa passagem. Nas Ilhas Iônicas e no Mar Egeu, eles depuseram os bispos Ortodoxos, e forçaram o clero grego a se submeter a bispos latinos. Em Chipre, como veremos mais adiante, amarraram os monges Ortodoxos a rabos de cavalo e fizeram com que esses galopassem até a morte dos monges. Em Salônica eles fizeram orgias. Particularmente em Constantinopla foram cometidos ultrajes pelas forças da Quarta Cruzada liderada por Baldvino.

Eles desonraram velhos e meninas; jogaram o Santo Sacramento no meio das ruas, e conduziram burros para dentro da Igreja de Santa Sofia para carregar os tesouros sagrados da igreja; ralharam o altar cravejado de diamantes e puseram uma prostituta a dançar e cantar sobre o trono do Patriarca para ultrajar os mais santos sentimentos da Igreja Oriental. Os Patriarcas de Antióquia e Jerusalém, aterrorizados com essas ferozes invasões, foram obrigados a abandonar suas dioceses na Síria e Palestina e procurar refúgio no Império Bizantino.

O Cristianismo Oriental não poderá nunca esquecer o comportamento desses europeus bárbaros, que por seus saques e pilhagens e por seus sessenta anos de tirânico desgoverno em Constantinopla (1204-1261) prepararam o caminho para a destruição do Império Bizantino e apressaram sua queda.

Imperadores Levados pela Necessidade de Favorecer a Reunião.

Apesar de tudo isso, os Imperadores Bizantinos continuaram até o fim a implorar a amizade de Roma, de quem eles ainda esperavam receber apoio militar em suas guerras contra os infiéis, apesar dessa política ser sempre radicalmente contrariada pelo profundo sentimento antipapal de seu povo. Entre os muitos de tais imperadores que não mencionamos está Miguel Paleólogo, que tornou-se mestre de Constantinopla em 1261 após tomar o trono e arrancar os olhos do sucessor legítimo — feitos pelos quais foi excomungado pelo Patriarca e odiado por seu povo. Temendo uma nova invasão de seu império pelo ocidente, e desejando fazer com o que o Papa se tornasse partidário de sua causa, Miguel não só entrou em correspondência com Urbano II, adulando-o, dirigindo-se a ele como "cabeça da Igreja," mas até mesmo enviou delegados ao Concílio Geral Latino em Lyons em 1274, onde assinaram um acordo de reunião na base da supremacia papaz.

Apesar de mais tarde Miguel ter mudado de atitude, por não ter recebido de Roma a esperada assistência militar pela qual ele tinha sacrificado suas convicções religiosas, tinha incorrido na hostilidade de seu povo como um traidor da fé, e quando ele morreu, nenhuma só alma esteve presente no seu funeral. Um Imperador similar foi Andronicus III, que em 1339 mandou o arquimandrita Calabres Barlaam ao Papa Benedito XII em Auignon, então a sede dos Papas, quando Osman estava marchando para Constantinopla. Mas a embaixada falhou, e no seu retorno Barlaam encontrou tal impopularidade em Constantinopla que foi obrigado a deixar a cidade e retirar-se para a Itália, onde se juntou à Igreja Romana.

Outro Imperador desse tipo foi João V Paleólogo, que, em 1369, fez uma visita pessoal a Roma e prometeu a ele a completa submissão da Igreja Oriental. Ele até beijou os pés do Papa segundo cronistas latinos; isso porque nessa época Murad tinha feito a si senhor da maior parte da Península Balkânica e havia lançado seu campo em Adrianópolis, às portas da capital bizantina. Todos esses avanços humilhantes provaram, no entanto, ser inúteis porque eles de maneira nenhuma expressaram a verdadeira opinião do povo.

João VII Paleólogo em Ferrara.

A última e mais trágica tentativa de reunir as duas Igrejas, que falhou tão tristemente quanto as anteriores, foi feita por João VII Paleólogo, penúltimo Imperador do então sucumbente Império Bizantino. Acompanhado pelo idoso Patriarca José, por Marcos de Éfeso, Bessarion de Nicéia, George Escolário, George Gemistus e outras proeminentes figuras da Igreja e do Estado, João viajou com despesas pagas pelo Papa para o Sínodo reunido em Ferrara em 1438, ostensivamente para chegar a algum entendimento sobre a reunião das Igrejas com o Papa Eugenio IV, mas na verdade para encontrar os dirigentes ocidentais e apelar a eles como companheiros-Cristãos por ajuda militar para salvar o que restava de seu Império. Mas apesar das muitas promessas do Papa, não recebeu ajuda militar. Tudo que ele e seus seguidores receberam foi uma abundância de insultos e humilhações, sob cuja pressão, foram persuadidos a assinar o que significava a perda de liberdade da Igreja Oriental.

A Falsa União de Florença.

Para dificultar a retirada dos gregos, o Papa transferiu o Sínodo para Florença, e para forçá-los a se submeterem, ele até mesmo reteve o dinheiro que havia prometido para as despesas deles, de tal forma que foram obrigados a vender suas vestimentas para obter comida. O infeliz Patriarca José (que estava destinado a morrer naquela terra inamistosa), no seu primeiro encontro, foi solicitado a inclinar-se como um escravo diante do arrogante Papa e beijar seu pé.

Somente o indomitável Marcos de Éfeso permaneceu inabalável e silenciou os latinos pela força de sua eloquência e seu másculo comportamento. Finalmente, em 6 de julho de 1439, a assim chamada "união" foi proclamada e sob a pressão do Imperador, para quem o único ponto importante era a perseguição do Estado, os representantes da Igreja Oriental, com a única exceção de Marcos, assinaram um documento formal reconhecendo o Papa como chefe supremo do Cristianismo, aceitando a doutrina da dupla precessão do Espírito Santo, o purgatório, o uso de pão não fermentado na comunhão, e todas as outras inovações não evangélicas da Igreja Romana.

As Consequências da Falsa União.

No entanto, quando esses homens que tinham sido forçados a assinar tal documento retornaram num pesaroso apuro a Constantinopla, encontraram esperando-os um povo hostil, horrorizado por ter sabido o que tinha acontecido, e que os rejeitou como traidores. O Imperador, necessariamente perseguindo sua política de amizade com o Papa, indicou para o Patriarcado um clérigo que compartilhava suas opiniões, Metrophanes; mas o povo insultuosamente apelidou-o de "Metrophonus" (matricida) para demonstrar sua aversão pela escolha real. Bessarion de Nicéia, que era a favor da união e simpatizante da política do Imperador, foi obrigado a deixar o trono e procurar refúgio na Itália, onde o Papa o recompensou com o cardinalato. O valente Marcos foi recebido pelos bizantinos com grandes honras e aclamado como campeão da ortodoxia. Para acalmar a excitação do povo, Metrophanes foi deposto, e um novo Patriarca foi escolhido, Atanásio, um homem de reconhecidos princípios ortodoxos. E em 1451 um Sínodo, que foi reunido em Constantinopla e com a presença de todos os Patriarcas da Igreja Oriental, denunciou e formalmente rejeitou o falso Sínodo de Florença como o produto de trapaça, violência e opressão.

Tão grande era a repugnância do povo por qualquer medida de avanço em direção à tirânica Igreja de Roma, que, quando alguns dias antes da queda de Constantinopla, o último Imperador Bizantino, Constantino XII Paleólogo, permitiu que padres romanos celebrassem missa na Catedral de Santa Sofia, a população levantou-se em fúria e exigiu a reconsagração da Igreja para lavar essa mancha sacrílega. A Ortodoxia havia sofrido muito com o Papa e seus órgãos; e o dizer de Notaras que "o turbante turco é preferível à mitra latina" expressa vividamente a convicção de que os perigos da latinização eram para ser mais temidos que os perigos do Mohamedanismo (Islamismo). A Ortodoxia foi bastante ferida, mas não esmagada sob o jugo turco. Mas não se passaram muitos anos antes que os Cristãos Ortodoxos, no sul da Itália e em outros locais, que tinham reconhecido a supremacia do Papa, fossem absorvidos pela Igreja Romana.

12. A Escravização da Igreja do Oriente pelo Islamismo.

O Fundador do Mohamedanismo.

O mohamedanismo fez sua primeira aparição durante o sétimo século e deveria por isso ter sido comentado antes. Pareceu, no entanto, mais apropriado discutir o assunto na seção que trata dos tempos medievais, já que foi então que suas desastrosas consequências tornaram-se totalmente aparentes e culminaram com a sujeição das antigas Igrejas do Oriente a mandatários de outra fé. O Mohamedanismo deve sua origem a Mohamed, um pobre pastor dotado de um profundo sentido religioso e com o poder de ter visões. A condição miserável da Arábia, pobre esparsamente povoada por tribos que estiveram sempre lutando uma com as outras e cuja religião havia degenerado na mais baixa forma de politeísmo, a adoração de plantas e pedras, inspirou Mohamed (Maomé) com a elevada ambição de unir seus compatriotas nas amarras de uma religião mais nobre e fazê-los seguirem para a conquista do mundo.

Graças às atividades de uns poucos monges e missionários de Bizâncio, o Cristianismo não era de todo desconhecido na Arábia; o judaísmo também havia deixado lá algumas marcas na esteira das idas e vindas de mercadores judeus. Mohamed tomou o que havia ouvido desses dois credos e, fazendo disso a base de seu ensinamento, construiu daí um sistema religioso, o qual primeiro começou a pregar no estreito círculo de sua própria família.

A Hégira.

No entanto, quando Mohamed emergiu em 622 na privacidade de sua família, para se apresentar a um público maior como um mensageiro de Deus e para pregar sua nova religião abertamente em Meca, o povo de Meca levantou-se ameaçadoramente contra ele e procurou matá-lo. Ele foi obrigado a montar num dromedário e procurar refúgio em Medina, que foi a primeira cidade a abraçar de todo o coração sua doutrina e a cerrar fileira a seu lado. Os mohamedanistas por essa razão consideram o ano da fuga de Mohamed ou "Hégira" como o primeiro ano de seu calendário religioso, como nós consideramos nossa era a partir do ano de nascimento do Nosso Salvador. De Medina, Mohamed lançou-se com seus seguidores para subjugar Meca e gradualmente tornou-se vitorioso em toda a Arábia, que ele inspirou com fervor religioso e daí conduziu a conquistas políticas. Ele acreditava estar cumprindo uma missão divina, e até imaginava, às vezes, que recebia comando do Céu, trazido a ele por anjos; ele tinha, além disso, uma crença inabalável no destino do Islã, sua nova religião, como um poder mundial. Vejamos quais eram os princípios dessa nova religião.

Os Sistemas Dogmático e Ético do Islamismo.

O islamismo tem sua fé baseada na crença de que não há outro Deus senão Alá. Nos primeiros tempos ele mandou vários mensageiros para a terra, tais como Enoch, Abrahão, Moisés e Jesus. Mas o maior de todos os seus profetas foi Mohamed, o Consolador previsto nos Evangelhos, que veio por último para realizar tudo que os anteriores não tinham realizado. Segundo o Islã, os Judeus distorceram o ensinamento de Moisés por darem pouca importância a ele; os Cristãos distorceram os ensinamentos de Jesus por desvalorizarem-no; e seria então a obrigação de todo bom Islamita forçar tanto os Judeus quanto os Cristãos a renunciar a seus erros e seguir a única e verdadeira fé revelada por Alá a Mohamed, o maior de todos os profetas.

A Santíssima Trindade não existe, nem Deus tornou-se homem, pois não existiu necessidade de expiação entre Deus e o Homem. O mundo seria governado por um implacável destino, contra o qual o homem seria impotente. Alá seria misericordioso com os Islamitas depois da morte, e os estabeleceria numa terra onde jorraria leite, mel e manteiga, e onde seriam esperados por belas mulheres; mas pecadores e infiéis estariam destinados a um terrível inferno. Seria consequência, portanto, que o maior dos possíveis pecados seria permanecer fora do Islã, enquanto a grande virtude seria converter todos quantos fossem possíveis para a fé; daí quem caísse em guerras contra os infiéis teria o melhor lugar no Paraíso.

As outras obrigações do bom muçulmano eram cerimoniais, consistindo no lavar as mãos, jejuar e na santa peregrinação para a Kaaka em Meca, o mais antigo templo dos árabes. O Mohamedanismo não experimentou algo mais profundo do que isso, deixando os males da escravidão e da poligamia não condenados. Tais foram as doutrinas de Mohamed que foram escritas em peles por seus seguidores após sua morte e compuseram o livro sagrado do Mohamedanismo, o Corão.

O Islã como Poder Conquistador.

Mohamed morreu em 632, e seu trabalho, segundo seu próprio comando, foi continuado por seus sucessores, os califas. Abu Bekr (632-634) conquistou Damasco; Omar (634-643) invadiu a Pérsia, completou a conquista da Síria e colocou sob sua sujeição a Palestina e o Egito; e Otman (643-665) finalmente dominou a Pérsia e conquistou quase todo o Norte da África. Depois deles, Muaviah sitiou Constantinopla por terra e mar por sete anos (672-678), e só foi impedido de capturá-la nessa época pelo valente Imperador de Bizâncio, Constantino Pogonatus, que queimou a frota islâmica por meio do "fogo líquido" inventado pelo engenheiro grego Callinicus.

Mas mesmo depois desse desastre os árabes rapidamente recuperaram seu zêlo vitorioso; e, em 711, estabelecidos nas praias do norte da África, se lançaram pelo estreito de Gibraltar para a Espanha e avançaram direto para a França, onde o bravo general Franco, Charles Martel, finalmente os derrotou na famosa batalha de Poitiers, em 732, exatamente cem anos depois da morte de Mohamed. Por justiça, no entanto, precisamos lembrar que não foi Charles Martel sozinho que salvou a Europa da maré invasora do islamismo por derrotar uma única parte das forças árabes. Deve-se em grande parte isso aos Imperadores Bizantinos, Heráclio, Constans e Constantino Pogonatus, por terem por cem anos batalhado contra o terrível inimigo cegando a afiada lâmina do seu ataque.

A Sujeição dos Patriarcados de Jerusalém, Antioquia e Alexandria.

O Islamismo com todos os seus eventos reduziu severamente os contornos do Cristianismo Oriental e privou-o de belas províncias; os de há muito famosos Patriarcados de Jerusalém, Antióquia e Alexandria, que cairam sob os árabes tão cedo quanto o sétimo século, perderam sua antiga glória e vitalidade. Durante o cerco de Jerusalém por Omar, Sofrônio, o prudente Patriarca, encabeçou uma delegação ao encontro do califa e entregou a cidade a ele em termos favoráveis, evitando assim a sua destruição.

Omar recebeu-o generosamente e permitiu aos Cristãos manter os seus Sagrados Santuários sem serem molestados sob a única condição de pagarem o "haratsi" ou "imposto de capital." Mas na Síria e em outros lugares o "haratsi" não foi considerado suficiente, e aqueles que não mudaram a sua fé foram forçados a se submeter a todo tipo de humilhação. Não lhes era permitido montar um cavalo; a construção de Igrejas, procissões públicas, toque de sinos e colocação de cruz nos sepulcros, tudo isso era proibido; e eram impedidos de manter posições oficiais.

Infelizmente a conquista islâmica da Síria e do Egito foi facilitada pelas grandes disputas religiosas no sétimo século, que estavam grassando nessas províncias nessa época. Nestorianos, Coptas e Jacobitas eram consumidos por tal ódio pelos Cristãos Ortodoxos da região, a quem eles chamavam de " Melquitas" ou "Realistas" (do Rei), que eles saudaram o advento do governo islâmico como uma libertação.

O Cêrco de Constantinopla por Mohamed II.

Por sete séculos Constantinopla permaneceu firme como a rocha da Europa Cristã, na qual a maré irresistível do islamismo batia em vão. Mas até ela estava destinada a cair afinal, exausta, na fatal terça-feira, 29 de maio de 1453. O fundador do islamismo tinha previsto que um dia "a grande cidade, cercada em dois lados pelo mar e em um pela terra," cairia nas mãos de seus seguidores. Essa profecia foi cumprida não pelos árabes, mas pelos turcos, que apareceram das profundezas da Ásia cerca de 1050, e após receberem o Islã dos árabes, absorveram-os politicamente, e eles próprios tomaram a missão de espalhar o Islã além fronteiras. O Império Bizantino estava na época da queda em trágica posição, após ter batalhado por mil anos com inimigos bárbaros de todos os lados. Os sessenta anos de governo latino em Constantinopla tinham minado seriamente suas bases; e as contínuas invasões turcas tinham reduzido o Império por todos os lados, reduzindo-o a um reino de humildes dimensões. Mohamed II, que era apelidado de "o conquistador," cercou a capital com um excército fanático de 250.000 homens, enquanto os soldados Cristãos reunidos em torno do último Imperador, Constantino Paleólogo, escassamente chegava a 7000. Mesmo assim, Constantino foi ousado o suficiente para dar uma digna resposta ao seu poderoso inimigo que pedia uma rendição pacífica da cidade. "Dar a cidade para ti não está em meu poder, nem no poder de nenhum homem que habita aqui; pois temos um acordo e todos nós preferimos morrer, e não pouparemos nossas vidas."

As Últimas Horas de Constantinopla.

Quando Constantino constatou que a destruição era finalmente inevitável, colocou si e a sua cidade nas mãos de Deus e preparou-se para morrer uma morte Cristã. Ele primeiro ordenou que uma litania deveria ser cantada através da cidade toda; e bispos, padres, monges, homens, mulheres e crianças, todos se juntaram à procissão chorando e clamando: "Senhor, tem piedade e salva a Tua herança!" Então, Constantino dirigiu aos homens que estavam ao redor dele, nobres e comovedoras palavras, incentivando-os a enfrentar a morte com a coragem dos mártires; ao que todos clamavam com uma só voz: "Sim, morramos pela fé em Cristo e pela terra de nossos pais." O Imperador foi para Santa Sofia para tomar sua última comunhão; então, subindo ao portão de Romanus, começou a dirigir a desesperada defesa. Num momento de entusiasmo ele gritou: "Vitória, vitória! Deus está lutando de nosso lado!" Mas foi subitamente cercado pelo inimigo e caiu morto, desaparecendo por debaixo da pilha de corpos. Logo depois, a cidade estava sendo saqueada. Os homens eram degolados, e as jovens eram levadas em cativeiro; os Vasos Sagrados eram usados como copos comuns para as selvagens orgias dos turcos vitoriosos; e o conquistador cavalgou arrogantemente para dentro da famosa por toda a parte Catedral de Santa Sofia, para ajoelhar-se no altar e transformá-la numa mesquita muçulmana.

O Significado da Queda de Constantinopla.

A queda de Constantinopla marcou o colapso do último balvarte do Cristianismo Oriental e sua civilização. Outras províncias rapidamente compartilharam seu destino; a Sérvia caiu em 1459, o Peloponeso em 1459, Trebizond em 1461, Bósnia em 1463, Albânia em 1467 e Herzegovina em 1483. Esse evento histórico teve grandes consequências e ensinou importantes lições. Do ponto de vista patriótico, a queda de Constantinopla foi uma façanha heroica, revivendo as antigas glórias de Termópilas; pois mais uma vez um pequeno bando de gregos enfrentou um litígio fatal com inimigo inumerável, com a certeza de que estavam enfrentando a morte.

Do ponto de vista internacional, a queda de Constantinopla abriu um poço de vida intelectual para a Europa; pois eruditos fugitivos de Constantinopla assentaram-se no Ocidente e semearam as sementes da Renascença e da Reforma. E do ponto de vista religioso, no qual nós certamente estamos principalmente interessados, a queda de Constantinopla causou mais manifestação de fervor religioso mais forte possível, que nunca deixou de confortar nossos ancestrais nem quando o inimigo estava irrompendo na cidade, nem quando eles (ancestrais) estavam curvados debaixo do jugo do conquistador. Grande foi a queda deles, mas também grande sua esperança consoladora. No momento em que os turcos entraram na Catedral de Santa Sofia (assim diz uma tradição popular largamente espalhada), a Divina Liturgia estava sendo celebrada, e os padres chocados em horror foram congelados como mármore em seus lugares. Mas um dia chegará quando a bela cidade será destituída ao Cristianismo; e então os padres de mármore terão vida novamente e terminarão sua Liturgia interrompida.

13. Cartas Medievais.

Características da Teologia Medieval.

O nascimento e desenvolvimento da Literatura Cristã, teve lugar nos tempos antigos, e particularmente no quarto e quinto séculos, a idade dourada da Teologia. Tomando emprestado do declinante Helenismo sua linguagem, filosofia, regras de retórica e métrica poética, o Cristianismo juntou, como corpo e alma, o ensinamento do Evangelho com a expressão grega, produzindo daí aquelas obras-primas dos grandes Padres, cujo profundo ensinamento só era rivalizado pelo brilhantismo e originalidade de seu estilo. Mas durante a Idade Média a posição mudou.

O Progresso deu lugar à estagnação; e imitação substitui sua arrojada e não amarrada originalidade. Nos tempos antigos, os escritores da Igreja seguiam o método platônico de investigar ideias; agora, adotaram o meio aristoteliano, juntando o conhecimento passado acumulado e classificando-o com cuidado. A interpretação das Escrituras consiste agora (na Idade Média) em citações dos trabalhos dos padres, arranjadas sinoticamente.

A dogmática foi construída na base da autoridade patrística. A eloquência no púlpito modelou-se nos chocantes sermões dos padres, sem contudo recapturar seu fogo. Os grandes historiadores da Igreja, Eusébios, Sócrates e Teodoreto, foram sucedidos por meros cronistas, que costuram juntos em suas histórias eventos eclesiásticos e políticos; ou por compiladores de lendas, que usavam a edificação do povo muito mais que a preservação da verdade histórica.

Só a Teologia Polêmica teve progresso na Idade Média graças às lutas da Igreja contra as heresias, e particularmente contra Roma. O misticismo amarrou-se na mente eclesiástica e era visto por trás da mais simples manifestação de símbolos de louvação divinos de significado muito maior. Falando genericamente, o período medieval não foi criativo; ele agiu, no entanto, como guardião de uma antiga soma de pensamentos, que ele transmitiu para a posteridade. Aqui estão, em ordem cronológica, seus principais representantes.

Teologia Durante as Disputas Iconoclásticas.

O período das disputas iconoclásticas (700-850) ocorreu no mais destrutivo período de aprendizado sagrado, que era demandado principalmente pelos monges. Mesmo assim, certos escritores destacaram-se durante esse período, e entre eles principalmente João de Damasco e Teodoro de Studium. João Damasceno (+ 760) era um homem notável por seu profundo aprendizado e conhecimento da língua grega. Vivendo na junção dos tempos antigo e medieval, ele incorporou o primeiro por sua abrangente erudição e introduziu o segundo por seu dom de método; ele é frequentemente considerado como o último dos grandes Padres Gregos. João Damasceno viveu sob os Imperadores Iconoclastas, Léo o Isauriano e Constantino Copronymus, e morreu no mosteiro de São Sabas na Palestina.

O trabalho pelo qual ele é principalmente lembrado é em Defesa das Imagens, no qual ele defende seu uso com argumentos lógicos e persuasivos; mas não foi somente um controversialista. Ele se distinguiu como um dogmatista com sua Exposição da Fé Ortodoxa; como um apologista por sua defesa do Cristianismo contra o Islamismo; como pregador dos que dão testemunho da sua eloquência os sermões que sobreviveram; e como poeta e himnógrafo pelos trabalhos que ainda são cantados em nossa Igreja hoje em dia e pelos quais foi cognominado "Chrysorroas." Teodoro de Studium (+ 826), que floresceu sob os Imperadores Iconoclásticos Léo o Armênio e Miguel o Gago, por quem ele foi açoitado, acorrentado e mandado para o exílio, era o aristocrático abade do famoso Mosteiro de Studium em Constantinopla e manejou com igual sucesso tanto o báculo de bispo quanto a pena do erudito. Seus catecismos, epístolas, sermões e poemas, que foram preservados para nós, ilustram sua erudição.

Teologia Sob os Imperadores Macedônios: Photius.

A era Iconoclástica foi seguida pela era da dinastia Macedônica (850-1054) — um período de renascimento literário no Império Bizantino, durante o qual mesmo os Imperadores tais como Léo o Sábio (+ 911) e Constantino Porfirogênito (+ 959) se devotaram às letras e compuseram entre outras coisas hinos eclesiásticos e sermões. À frente desses personagens se coloca a mais famosa figura, Photius (+ 891), que dominou todos os seus contemporâneos como um tesouro de saber e uma enciclopédia de conhecimento; cujo julgamento era igual à sua erudição, e cuja piedade só era rivalizada por seu amor pela independência, de forma que até mesmo seus inimigos eram relutantemente forçados a admirá-lo.

Seu conhecimento multifacetado mostra-se claramente em seu Myrionbiblon, no qual ele faz críticas perfeitas sobre cerca de trezentas obras — históricas, geográficas, filosóficas, literárias, matemáticas, retóricas, médicas e especialmente teológicas — que ele leu em vários períodos, e das quais muitas estariam inteiramente perdidas para nós se ele não tivesse mantido esse registro delas.

Seu preparo teológico é exemplificado por sua Anfiloquia, dirigida ao Bispo de Cyzicus Amphilocus, que contém a solução de mais de oitocentas dificuldades que o Bispo havia submetido a ele; por suas Epístolas, que são de grande importância teológica, assim como histórica; e por seu tratado sobre a Mistagogia do Espírito Santo. E sua experiência em assuntos legais por sua edição de um lado da Syntagma da Lei Canônica e de outro lado pelo Nomocanon, que contém as leis imperiais em sua relação com a Lei Sagrada ou Canônica. Também hinos eclesiásticos foram escritos por esse grande prelado, cujo nome brilha como um pilar de fogo nos anais da Igreja Medieval.

Teologia Sob os Imperadores Macedônios Depois de Photius.

Depois de Photius, alguns outros escritores da Igreja são dignos de menção. Simeão Metafrastes, que viveu durante o século décimo, foi encarregado pelo Imperador Constantino Porphyrogênito de preparar, com o material que tinha sido acumulado durante séculos, uma edição revisada e mais crítica das vidas de Santos, para o uso e edificação do povo. Ecumenius de Tricca, também no século décimo, anotou os Atos, as Epístolas e o Livro da Revelação (Apocalipse) com base nos comentários dos primeiros Padres.

Simeão, o décimo primeiro abade do Mosteiro de São Mamas em Constantinopla, agradou tanto a seus contemporâneos com seus capítulos de misticismo prático e sua extensa atividade literária que eles o cognominaram de "Novo Teólogo." Nicetas Stethatus, um pupilo desse mesmo Simeão, que mais tarde tornou-se abade do famoso Mosteiro de Studium, empregou sua pena principalmente na denúncia das inovações latinas, e seus trabalhos foram enviados para a Itália com a carta com censuras do Patriarca Miguel Cerulário, que serviu como pretexto para completar o cisma entre as duas Igrejas em 1054.

Teologia Sob a Dinastia Comnena.

A era dos Comnenos (1054-1250) durante a qual não só homens, mas também mulheres, devotaram-se à literatura, seguindo o exemplo de Eudokia, filha de Isaac Comnenus, e Anna, filha de Alexis I, foi outro período de atividade teológica, e viu o surgimento de muitos homens destacados: — Miguel Psellus (+ 1100), que ensinou filosofia na Academia de Constantinopla durante o reinado de Constantino Monomachus, era um homem de grande e variada cultura, a quem seus comtemporâneos, com seu característico exagêro na concessão de títulos pomposos, congnominaram de "o maior de todos os filósofos." Nicetas de Serres, que floresceu cerca de 1077, com comentários baseados nas interpretações dos primeiros Padres, sobre o Livro de Jó, Evangelho de São Mateus e Primeira Epístola aos Coríntios.

Theophilact, Arcebispo de Ochrida na Bulgária desde 1076, foi outro brilhante comentador das Escrituras e anotou quase todo o Novo Testamento além de algumas partes do Velho. Ele também nos deixou cento e trinta cartas, nas quais ele lamenta as ainda não civilizadas condições de sua diocese no estrangeiro. Euthymius Zigabenus que escreveu no começo do século doze sob Alexis Comnenus, foi outro brilhante comentador, e nos deixou excelentes interpretações dos Salmos dos Evangelhos e das Epístolas. Sob instrução de Alexis, ele também compilou, da riqueza de material já disponível, sua Panoplia Dogmática, um trabalho destinado a ser uma arma para a Ortodoxia contra qualquer tipo de heresia. Nicholas de Methone (+ 1155) é o autor de um trabalho tanto inteligente quanto atrativo sobre o desenvolvimento e elementos teológicos no ensinamento de Proclus I, o Platonista, onde ele compara princípios platônicos e Cristãos e demonstra a incomparável superioridade desses últimos. Eustathius, Arcebispo de Salônica desde 1175, estava presente quando Salônica caiu em mãos dos Normandos em 1185 e deixou sua vívida descrição do saque da cidade. Ele era tanto teólogo quanto erudito e autor de preciosos comentários sobre Homero e Píndaro; pastor e patriota e um entusiasmado reformador do monasticismo degenerado. Dois destacados canonistas também floresceram durante esse período: João Zonaras e Theodoro Balsamon. Esses dois homens publicaram durante o século doze coleções de Leis Canônicas com comentários importantes.

Teologia Sob a Dinastia Paleóloga.

Durante o último período da história bizantina, o dos Paleólogos (1250-1453), apareceu um certo número de escritores que merecem alguma menção. Nicephorus Vlemmides (século treze) castigou severamente os erros da Igreja Romana tanto em palavra quanto por escrito. Constantino Armenopulos, no século quatorze, produziu uma sinopse do Nomocanon compilado por Photius. Gregório Palamas (+ 1360), o destacado Metropolita de Salônica, devotou sua pena principalmente para defender os Hesicastas do Monte Athos contra os ataques de Barlaam, mas é também o autor de outros trabalhos, entre os quais o diálogo entre a alma e o corpo que é bem digno de ser lido. Nicolas Cabasilas, que sucedeu Gregório como Metropolita de Salônica, foi um grande amante e expoente da Teologia Mística, como é demonstrado pelo seu comentário sobre a Liturgia e particularmente pelo seu belo livro a respeito da vida de Cristo.

Macárius de Philadelfia (+ 1350) anotou o Livro da Genesis, e os Evangelhos de São Mateus e São Lucas. Simeão de Salônica (+ 1429) é uma autoridade em assuntos litúrgicos, apesar de, como todos os outros escritores de seu tempo, seguir o método místico e alegórico de interpretação. Marcos Eugenicus de Éfeso (+ 1449) distinguiu-se em Florença acima de todos os seus companheiros por seu caráter indômito e por sua recusa em assinar o que seria o Ato de União, o que despontou tanto o Papa que, sabendo disso, gritou: "Então não terminamos nada!" Os escritos de Marcos são principalmente dirigidos contra o Papa. Finalmente, mencionemos Silvestre Syropulos, que também estava presente em Florença e que nos deixou um relato honesto e de cortar o coração de tudo que ele testemunhou lá, editado posteriormente sob o título: A verdadeira história de uma falsa união.

14. Vida Cristã e Louvação.

As Condições Morais.

A moralidade da vida medieval foi desfigurada por muitas cicatrizes. Muitos Cristãos limitaram sua virttude às formas exteriores, e consideraram que o atendimento de festas e dias santos, peregrinação a famosos santuários, a veneração de ícones milagrosos, e cerimonias similares eram o suficiente para justificá-los no seu chamamento Cristão. Os Imperadores foram muitas vezes os piores pecadores nesse aspecto. Miguel III, apelidado de o bêbado, que tratava tudo que fosse santo e sagrado com escarnio, estava, no entanto, constantemente apresentando maravilhosas ofertas votivas em Santa Sofia. E Basílio, o Macedônio, que assassinou Miguel III para pegar o trono para si próprio, construiu Igrejas, para tornar propício o Arcanjo Miguel, que na sua morte carregaria sua alma e a levaria para o julgamento. Cegar e mutilar pessoas eram ocorrências comuns nos palácios naqueles dias. E ainda assim esses reis consideravam-se ungidos por Deus para serem os líderes e governantes absolutos de seu povo — uma convicção que foi responsável por sua perpétua interferência nos assuntos da Igreja. Eram eles que negociavam com Roma, contra a vontade de todo seu povo; eles é que convocavam Sínodos e condenavam heréticos; e eles é que arbitrariamente elegiam e depunham os Patriarcas. "Eu te fiz, assim eu também te quebrarei," foram as palavras de um certo Imperador para um Patriarca que tinha perdido o favor real.

O Reverso da Medalha.

Não se deve, no entanto, supor do que acabou de ser dito que a Idade Média foi um período de trevas sem trégua, no qual a virtude era algo desconhecido. A fé viva no coração do povo, apesar de frequentemente dormente, ficava evidente nas fervorosas orações e súplicas durante seus revezes políticos e nas gerais e passionais litanias oradas em tempos de terremotos, pestilência e outras calamidades. Que essa fé, além disso, não estava morta e estéril fica provado pela existência de instituições de todo tipo de socorro e apoio aos pobres e orfãos, sob os cuidados diretos da Igreja. E se, de um lado, a interferência do estado em assuntos eclesiásticos marcou um abuso de poder, revela de outro lado o grande interesse tido pela religião naquele tempo, quando a ideia de uma estado sem religião era inconcebível, e além disso até mesmo Imperadores Bizantinos eram, às vezes, hábeis teólogos. Nem deve ser esquecido que, apesar de algumas cabeças da Igreja terem se submetido por fraqueza às vontades imperiais, não deixaram de existir destemidos prelados que valentemente defenderam a independência de sua igreja e, como outros Natans, reprenderam os governantes por seus erros. Patriarcas tais como Germanus, Photius, Nicolas o Místico e Arsênio são as joias mais brilhantes da Igreja Ortodoxa.

O Progresso do Monasticismo.

Os monges continuaram como antes a levar uma vida austera. Eles praticavam a oração e o jejum, devotavam-se à literatura sagrada, particularmente sob os Imperadores Iconoclásticos e Macedônios, e eram frequentemente chamados a preencher as mais altas funções da Igreja. João Damasceno, Teodoro de Studium, Methodius, Cirilo, Nicetas Stethatus, Nicephorus Vlemmides, eram todos membros de ordens monásticas, das quais o zelo e devotado ensinamento deles são dignos ornamentos. Muitos novos centros de vida monástica surgiram nesse período. O Mosteiro dos Insones, de Studium, de Peribleptus, e outros, foram todos fundados em Constantinopla; a ilha de Patmos viu o estabelecimento do Mosteiro do Teólogo, e a Grécia o do Mega Spelaion.

Esse período também viu o surgimento do Athos, cujo primeiro abade, João Colobus, recebeu em 867 como presente toda a península de Athos do Imperador Basílio, o Macedônio. Em 960, sob Nicephorus Phokas, o venerável Atanásio construiu o Mosteiro de "Megale lavra" no Monte Athos e criou uma regra monástica que dividiu a vida dos monges entre trabalho e oração. Com o correr do tempo, os Mosteiros fundados no Monte Athos ou "Santa Montanha," como era chamado, vieram a ser divididos em "cenobíticos" e "idiorritinos."

No primeiro, todos os monges viviam sob uma regra comum não só de oração, mas também de dieta; enquanto no outro, os monges eram livres para preparar sua comida em suas próprias celas. À parte desses monges que levavam uma vida comunitária sujeita a uma regra definida, ainda existiram muitos eremitas que levavam uma vida de completo isolamento cortado de todos os seus companheiros.

A Degeneração da Vida Monástica.

O Monaticismo, no entanto, que tinha aumentado tão grandemente a sua espera, logo começou a dar justificativas para seus críticos. Ele tinha inchado desordenadamente seus quadris. Adequados ou não para a vida monástica, centenas de homens estavam constantemente se juntando a eles, muitos dos quais tinham o único objetivo de evitar suas responsabilidades sociais e obrigações nacionais. Tendo renunciado ao mundo, era seu dever daí para frente permanecer no Mosteiro. Mas muitos circulavam nas cidades, envolvidos com assuntos mundanos, usavam longos cabelos frizados para ficarem ondulados como era a moda mundana e rivalizavam com os mais frívolos mundanistas em paradas ostentatórias.

Outros eram completamente ignorantes, e inimigos fanáticos do aprendizado; e então chegou o tempo em que monges preparados intelectual e espiritualmente eram mais a exceção do que a regra. Falando genericamente, o relato sobre o monasticismo que nos foi deixado por seu entusiástico admirador, Eustathius de Salônica, revela não pouca corrupção entre os monges; e é essa corrupção que explica certas variedades curiosas de vida monástica, às quais Eustathius também se refere. Alguns desses novidadeiros monges adotaram a peculiar característica de viverem nus; alguns nunca lavavam seus pés; e outros estavam permanentemente imundos.

Alguns mantinham um silêncio inquebrantável; ou viviam toda sua vida no topo de árvores ou pilares; e outros finalmente enterravam-se vivos na terra. Outros ainda, segundo Choniates, chamavam a si próprios de "suplicantes"; e, seguindo o exemplo de Moisés e Miriam depois de cruzarem o Mar Vermelho, passavam a hora de divina louvação dançando com as monjas para a louvação e glória do Senhor.

Igrejas e Ícones.

A Idade Média viu um aumento enorme na construção de locais de louvação, que providenciaram uma saída adequada para o sentimento religioso do povo, sem, no entanto, melhorar do ponto de vista arquitetônico a magnífica conquista de Justiniano na Igreja de Santa Sofia. A única diferença e inovação foi com respeito ao telhado e ao exterior da igreja. Enquanto no tempo de Justiniano um único domo semicircular tinha sido considerado suficiente para ser o telhado de todo o prédio da igreja, os arquitetos na Idade Média preferiram construir ao redor do domo central alguns domos menores, sustentando cada um deles numa base poligonal como para dar a aparência de uma multifacetada lanterna. A atenção para com a ornamentação, também, que anteriormente tinha se concentrado no interior da igreja, começou então a se estender também à parte exterior, onde a beleza foi definida com a colocação criteriosa de tijolos coloridos. Os brilhantes, mas caros trabalhos em mosaico dentro da igreja foram substituídos por uma decoração mais barata de "frescos" pintados com cores líquidas.

A representação simbólica desapareceu inteiramente ou foi confinada a símbolos em baixo-relevo na madeira abaixo das pinturas sagradas da iconostase. A Iconografia Bizantina cresceu austera, descomprometida e, como era, estranha às vaidades desse mundo, expirando uma lição de santidade sobrehumana. Os iconoclastas caíram sobre ela barbaramente, e muito poucas obras sobreviveram, exceto algumas nos mosteiros do Monte Athos particularmente. No entanto, tomando essas tantas em conjunto com as miniaturas encontradas em manuscritos, o conjunto é suficiente para provar que o criticismo levantado contra a Hagiografia Bizantina não é justificado de maneira alguma.

O Monte Athos e Salônica foram os principais centros artísticos do Cristianismo medieval no oriente; e daí, é dito, veio o grande artista do século treze, Manuel Panselenus, cujas regras para pintar são ainda observadas hoje em dia pelos artistas sacros de nossa Igreja. Estátuas nunca foram permitidas nas Igrejas Ortodoxas; mas outras artes plásticas foram brilhantemente cultivadas como baixo-relevo em madeira, ourivesaria, trabalho com enamel e bordado.

Cerimônias e Sacramentos.

Os teólogos ainda não haviam concordado com o número de Sacramentos. João Damasceno, em seu trabalho sobre a fé ortodoxa, menciona dois, que são na verdade os mais essenciais — Batismo e Santa Eucaristia; Nicolas Babasilas refere-se a três — Batismo, Crisma e Eucaristia; e Teodoro de Studium a seis — Batismo, Crisma, Eucaristia, Ordenação, Iniciação em uma ordem monástica e os ritos de sepultamento. Foi só no século quinze que o grande liturgista Simeão de Salônica primeiro ensinou que existem sete Sacramentos, quais sejam, — Batismo, Crisma, Eucaristia, Arrependimento, Ordenação, Matrimônio e Unção; e desde então essa conta de Sacramentos tem sido aceita pela Igreja até hoje. O rito de Batismo sempre foi realizado com tripla imersão e emerção em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

O Crisma é realizado com unção com o Santo Óleo. A Santa Eucaristia sempre foi celebrada com pão fermentado, pois o uso de pão não fermentado, habitual para os Armênios, Jacobitas e Católicos Romanos, foi e continua sendo estritamente proibido para os Ortodoxos; e apesar dos fiéis Ortodoxos continuarem a receber na comunhão as duas formas, parece que foi do século doze em diante que aconteceu a prática de usar uma colher para a congregação leiga, enquanto o direito de comunhão diretamente do cálice foi reservado para o clero. A confissão dos pecados para um pai espiritual foi considerada uma preliminar essencial para o arrependimento, que foi por isso chamado de "confissão," e sempre foi uma preparação necessária para a Santa Comunhão; as penitências que eram impostas para aqueles cujos pecados eram particularmente graves, não eram para punição, mas para ajudar na recuperação espiritual.

O matrimônio era opcional para o clero, mas os mais altos cargos da Igreja só podiam ser ocupados por clero não casado. A dissolução do casamento normalmente só ocorria pela morte de um dos cônjuges, após o que o sobrevivente poderia casar uma segunda e terceira vez, mas nunca uma quarta vez. E a cerimônia de Unção desenvolveu-se de uma simples unção com óleo, após orações adequadas que tivessem sido oferecidas para a restauração da saúde, em uma rica e imponente cerimônia, consistindo em sete partes e realizada por sete padres.

Hinologia Sagrada.

O alongamento do calendário da Igreja pela criação de novas festas e dias santos do Senhor, da Virgem Maria e dos Santos foi seguido por um enriquecimento do Hinário da Igreja, no qual as pessoas e eventos comemorados eram exaltados. É agradável lembrar que a idade de ouro da Poesia Sagrada foi no começo da Idade Média e quase coincide com o período iconoclástico. Os primeiros séculos do Cristianismo foram gastos na tentativa de libertar a Hinologia Cristã das amarras do modelo clássico; pois, com poucas exceções, todos os poetas Cristãos, nessa época, compunham seus poemas de acordo com a métrica e linguagem de Homero, Píndaro ou Anacreon.

Muitos anos se passaram antes que as antigas formas de prosódia dessem lugar a métricas baseadas na acentuação de palavras, e a ininteligível linguagem de Homero e Píndaro foi substituída por uma nova língua que era tanto popular quanto harmoniosa. Essa reforma encontrou seu mais perfeito expoente em Romano o Melodo, que algumas vezes é dito ter vivido no século oitavo e algumas vezes ter vivido ainda mais cedo.

A tradição diz sim que, dormindo num dia de Natal, a Virgem lhe apareceu num sonho e, oferecendo a ele um pergaminho de papel, incitou-o a come-lo. Quando ele fez isso, saboreou um gosto mais doce do que mel; e, levantando cheio de entusiasmo, dirigiu-se para o púlpito e começou a cantar diante de toda a congregação: "Hoje a Virgem dá à luz o eterno e a terra é uma gruta para o inacessível."

Devotando-se daí em diante a escrever hinos, ele tornou-se o Orfeu da Igreja; pois inspiração poética, fertilidade de imaginação, flexibilidade de estilo e simplicidade de linguagem em tal feliz combinação não são encontradas em nenhum outro poeta eclesiástico. Em torno do nome de Romano, com quem a poesia bizantina encontrou o seu mais perfeito florescimento, revoam outros tais como os de Andreas de Creta (+ 732), Germano de Constantinopla (+ 734), Cosmas o Cantor (+ 760), Theofanes Graptus (+ 818), Theodoro de Studium (+ 826), Metodius de Constantinopla (+ 846), e outros; e existiram até Imperadores tais como Justiniano, Léo o Sábio, Constantino Porphyrogenitus e Teodoro Lascaris, que aspiraram compor hinos para a Igreja; mais nenhum desses nomes citados excedeu ou igualou Romano.

A princípio os próprios poetas punham música em seus poemas ensinando a melodia para seus pupilos. Mas mais tarde, João Damasceno (+ 780), que se distinguiu tanto em hinografia quanto em teologia, inventou o sistema de anotação musical e transmitiu para seus sucessores um registro escrito dos oito modos musicais (ou tons musicais) com os quais os hinos variados da Igreja eram cantados. Ele foi então compor o seu Oktoechus, que contém poemas divididos de acordo com o tom em que eles devem ser cantados. Deve ser notado aqui que a hinologia da Igreja Oriental nunca fez uso do órgão, apesar do órgão ser uma invenção grega, muito usado no hipódromo e nos palácios de Bizâncio e introduzido daí no Ocidente durante o reinado de Constantino Coprônimo.

Fonte: https://www.fatheralexander.org/page23.htm