Esta é a sétima e última parte da série de publicações “História da Igreja Ortodoxa”.
A primeira você pode ler aqui.
A terceira você pode ler aqui.
19. As Relações da Ortodoxia com o Catolicismo Romano e Protestanismo.
Ataques Papistas à Igreja do Oriente.
A Igreja Romana nunca deixou de sonhar com a sujeição da Igreja do Oriente e nunca falhou em aproveitar qualquer desordem, independentemente de onde ocorresse, para sua vantagem. Saudando a queda de Constantinopla como uma punição divina infligida aos obstinados gregos, ela rapidamente mandou contra os Cristãos do Oriente seus formidáveis jesuítas, que, de 1583 em diante, começaram a aparecer sucessivamente em Constantinopla, Chios, Damasco, Naxos, Nauplion, Patras, Atenas e outros locais. Como se isso não fosse suficiente, e em 1581, o Papa Gregório XIII fundou o Colégio de Santo Atanásio em Roma, onde jovens gregos inteligentes escolhidos em distritos gregos foram levados para Roma para serem educados de acordo com os princípios católico-romanos, e depois enviados de volta, como um outro tipo de Janisários, contra a fé que os havia nutrido na infância. E mais, em 1622, o Papa Gregório XV instituiu sua "propaganda para os descrentes," cujo objetivo como descrito na Bula Papal era "a conversão das nações do Império Turco, uma vez gloriosas e dotadas com admiráveis dons divinos, que agora permanecem mergulhadas em uma situação embrutecida e, tendo caido para o nível de feras selvagens, só continuam a existir para aumentar as multidões do inferno, para maior glória de satan e seus anjos." Diplomacia e suborno, calúnia e coerção, persuasão e dissenção — essas foram as várias armas empregadas pela despótica Igreja Romana em seus esforços para dominar seus irmãos necessitados.
Papismo em Constantinopla: Cirilo Lucar.
O famoso Cirilo Lucar (1572-1638), o mais progressista e iluminado dos Patriarcas sob o governo turco, foi a mais eminente vítima do ódio não-fraterno de Roma. Lucar, que nasceu em Creta e foi educado em Veneza e Pádua, foi enviado para a Polônia em 1595 como legado do Patriarca de Alexandria. Lá ele testemunhou a luta que estava ocorrendo entre católicos e ortodoxos e logo constatou tanto a magnitude do perigo ameaçador de Roma quanto o único meio de evitá-lo — qual seja, colaboração com os protestantes. Quando, portanto, depois de dezoito anos como Patriarca de Alexandria, ele foi chamado para o Trono Patriarcal de Constantinopla em 1621, e não só manteve correspondência com muitos destacados Protestantes, mas até mesmo, em períodos críticos, recorreu ao auxílio diplomático dos Embaixadores da Inglaterra e Holanda. Mas, enquanto ele estava sendo assistido pelos representantes dos poderes protestantes, os jesuítas continuaram a combatê-lo com a proteção da França e da Áustria católicas. Em 1627, Lucar fundou a primeira imprensa grega em Constantinopla; mas os jesuítas imediatamente relataram esse fato ao Grande Vizir, acrescentando a informação de que a imprensa iria combater o Islamismo, e cento e cinquenta Janizários imediatamente invadiram-na e destruíram-na. Se não fosse pela intervenção do Embaixador Inglês, o próprio Cirilo teria sido destruído; mas se ele foi poupado essa vez, foi somente para cair vítima, a seguir, da calúnia dos jesuítas que o acusaram falsamente de conspirar secretamente com os cossacos para conseguir a revolta dos gregos contra os turcos. Pela quinta e última vez, ele foi deposto de seu trono e, após embarcar para ostensivamente ser levado para o exílio, foi afogado por seus guardas nas águas do Bósforo. O assassinato de Lucar, pelo qual, de acordo com Ricaut, Roma pagou a soma de 30.000 coroas, permanecerá sempre como um estigma indelével no Papado.
Papismo na Palestina e na Síria.
A conduta dos católicos-romanos em outros centros da ortodoxia não se diferenciou muito do seu comportamento em Constantinopla. Na Palestina, onde eles não possuíram direitos até o século dezesseis, quando o Patriarca Doroteus (1493-1534) concedeu-lhes um mosteiro como favor, eles não perderam tempo em iniciar suas maquinações. Assim, sob o Patriarca Sofronius (1579-1608), nós os vemos oferecendo aos turcos seis mil florins, por intermédio do Embaixador Francês, para expulsar os Ortodoxos do calvário e da gruta; vai daí, Sofronius, para preservar seus direitos sobre os Sagrados Santuários, foi obrigado a oferecer aos turcos o dobro da citada quantia. Em 1633, no reinado do Sultão Murad, outro atentado similar ocorreu, acompanhado de um touro-forjado em ouro, e outros pródigos presentes para o Sultão e Vizir; e esse atentado tambem não teve sucesso pois a trama foi descoberta; mas os papistas nunca cessaram de fazer outras demandas, até que em 1847 conseguiram a restauração do Patriarcado Romano que por um curto período havia sido estabelecido durante as cruzadas. A mesma política foi seguida pelos Papistas na Síria, onde na primeira metade do século dezoito eles manobraram para derrotar dois Patriarcas nativos de Antioquia, Cirilo e Serafim, e fundaram o Patriarcado dos "greco-melquitas." Até hoje colégios jesuítas, prodigamente sustentados por subscrições da França, continuam a alimentar a propagação do Catolicismo Romano.
Papismo na Rússia e em Países Menos Distantes.
Graças às atividades dos jesuítas, a ortodoxia também foi perseguida no sul da Rússia, quando uma falsa união com Roma foi declarada em Brest em 1594, quando dois apóstatas russos, Potzeus e Terleski, viajaram para Roma e beijaram o pé do Papa, pleiteando que faziam isso em nome de todo o corpo da Igreja Russa. Não só ali, mas na Rússia Vermelha, Volhinia, Lituania e Galícia, também, os ortodoxos foram impiedosamente perseguidos pelos católicos. E se a ira romana foi tão longe, pode-se facilmente imaginar como Roma se comportou com os Cristãos Ortodoxos em países mais próximos dela. Nas Ilhas Iônicas, ela não permitiu Bispos Ortodoxos, mas somente padres, que eram obrigados a estarem presentes nos entronamentos e funerais de Bispos Católico-Romanos. A colônia ortodoxa em Veneza, que tinha fugido para ali na queda de Constantinopla, foi proibida de ter sua própria igreja até 1553, quando a República de Veneza, por razões comerciais, deu a ela a permissão necessária. Os habitantes Ortodoxos da Hungria, Eslavônia e Croácia, que tinham migrado para ali da Trácia, Tessália e Grécia em 1687, foram autorizados pelos jesuítas a usar sua própria língua e seus ofícios, mas forçados a reconhecer a supremacia papal; enquanto os greco-italianos da Calábria, Sicília, Toscana e Genebra foram gradualmente absorvidos pela Igreja Romana por meio da jesuítica "accommodatio."
A Unia Papal na Grécia de hoje.
Até os dias de hoje, os Papistas perseveraram no uso dos mesmos métodos, apesar de sua comprovada futilidade; e a "Unia" é na verdade sua mais querida arma de ataque. Padres católicos de diferentes nacionalidades, que adotaram nomes gregos e se vestem como o clero grego, aparecem no meio de Atenas e tentam se passar como padres Ortodoxos. Suas igrejas são impecavelmente bizantinas em estilo; seu ritual é também bizantino, e a língua litúrgica é o grego dos Evangelhos. Somente em um ponto (ao menos até o presente), eles diferem dos costumes gregos: eles comemoram o nome do Papa em suas orações, como Supremo Sumo Sacerdote e Pontífice. Esses falsos padres gregos são prodigamente pagos por Roma e gastam também prodigamente, especialmente entre os refugiados indigentes, a quem particularmente se apresentam como Ministros da Igreja Ortodoxa Grega e a quem tentam atrair oferecendo-lhes auxílio pecuniário. Mas o Deus dos justos seguramente nunca fará prosperar com suas bênçãos tais esquemas tortuosos. A Igreja Ortodoxa oficial do país, fazendo uso de livros, sermões e vários outros meios, nunca cessou de denunciar a seu rebanho esses lobos em pele de cordeiro; e as recentes circulares publicadas por Anthimus VI, Patriarca de Constantinopla, Basílio, Metropolita de Smirna, e Crisóstomo Papadopoulos, Arcebispo de Atenas, são particularmente impressionantes. Para proteger seus filhos dos Papistas convertidos, que intencionalmente divulgam que não há diferenças entre o catolicismo-romano e a Ortodoxia, a Igreja Ortodoxa dos últimos séculos foi compelida em autodefesa a insistir no rebatismo de todos aqueles que voltam a ela do erro Papal. Infelizmente, Roma não tem intenção de mudar sua atitude para com as Igrejas do Oriente; pois os elementos Cristãos de igualdade e amor são inteiramente estranhos ao seu sistema imperialista. Pernot nos assegura que, durante a recente guerra, o Vaticano orou pela vitória dos turcos (no original francês: c'est pour les Turcs qu'il faisait les voeux), porque "do ponto de vista do Vaticano, é preferível que apareça sobre o domo de Santa Sofia o Crescente Turco do que a Cruz Grega."
A Primeira Carta Protestante.
Assim como o século onze viu a divisão da Igreja Una de Cristo na Igreja do Oriente e do Ocidente, o século dezesseis testemunhou a ruptura da Igreja do Ocidente em Igrejas Romana e Protestante. A corrupção da fé e da moral que invadiu o romanismo, a decadência intelectual do clero romano e o absolutismo do Papa, que usava uma tripla tiara para demonstrar seu domínio sobre os assuntos terrestres, celestes e infernais — essas foram as causas que inspiraram os três grandes reformadores, Lutero, Calvino e Zwingli, a protestar contra a Igreja de Roma e a levantar contra ela metade da cristandade ocidental. Completamente engajados em manter sua longa batalha com espada e pena, esses homens não tiveram tempo para pensar na escravizada Igreja do Oriente, que, muito antes deles, tinha levantado sua voz em protesto contra a arrogância de Roma. Um deles, no entanto, lembrou-se da Ortodoxia; esse foi Melanchthon, um dos primeiros companheiros de Lutero, que ao encontrar Demetrius Mysos, que estava de partida para Constantinopla, em Wittenberg em 1559, confiou-lhe uma carta para o então Patriarca, Joasaph II. Em sua carta ele agradece a Deus que no meio de tão grande multidão de inimigos ímpios e abomináveis, ele tivesse preservado para sí um rebanho que corretamente louva e clama por Seu Filho Jesus Cristo; e assegura ao Patriarca que os seguidores da Reforma também "devotamente observam as Sagradas Escrituras, os Canons dos Santos Concílios e os ensinamentos dos padres gregos, enquanto eles abominam a tagarelice, superstição e doutrinas desenvolvidas pelos latinos incultos.
Os Teólogos de Tubingen, os Protestantes da Polônia e a Confissão de Cirilo Lucar.
Melanchthon não recebeu resposta a sua carta. Quando, no entanto, em 1574, os professores de Tubingen, Martin Crusius e Jacob Andrew, escreveram ao Patriarca de Constantinopla, Jeremias II, enviando para ele a Confissão de Augsburg, que foi a primeira exposição formal do Protestantismo, Jeremias respondeu com dignidade e sinceridade, iniciando assim uma importante troca de correspondência, no curso da qual o Protestantismo foi, não obstante, criticado em muitos pontos por não manter o passo com a verdade. Em 1600, o locum-tenens do Trono Ecumênico, Meletius Pegas, respondeu de modo similar aos Protestantes da Polônia, que estavam sofrendo uma comum perseguição com os Ortodoxos nas mãos dos jesuítas, e que, depois do Sínodo de Vilna, propuseram uma união eclesiástica entre eles. "A união de opostos entre si" — (assim segue a resposta feita por Meletius) — "É de ser desejada com devoção, mas o Protestanismo e a Ortodoxia diferem entre si em pontos essenciais. No entanto, amemo-nos uns aos outros, e não percamos a esperança." Mas um curso inteiramente diferente, parece que foi procurado pelo anteriormente citado Grande Patriarca, Cirilo Lucar, que estava favoravelmente disposto para com as ideias dos reformadores. Ele colaborou com os Protestantes contra os Papistas; manteve uma amistosa correspondência com vários protestantes, incluindo George Abbot, o Arcebispo de Canterbury, lamentando com ele os sofrimentos gregos; despachou o precioso "Codex Alexandrinus" para Charles I da Inglaterra em 1628, como um agradecimento por seu resgate dos janizários; e enviou Metrophanes Critopoulos a Oxford com grandes despesas. Além de tudo isso, é dito que produziu e publicou uma Confissão, na qual ele aceita as crenças calvinistas; mas nesse ponto a evidência é confusa. Em dois de seus Sínodos, o primeiro em Constantinopla em 1638 e o segundo em Jassy em 1642, a Igreja Ortodoxa denunciou essa Confissão como tendente ao calvinismo, sem, no entanto, associá-la com a pessoa de Cirilo Lucar; e quem sabe se também nesse ponto, Lucar teria sido vítima de tramoia?
Missionários Protestantes.
Não foi muito antes do protestantismo começar a se rachar numa multidão de heresias, devido parcialmente à sua falta de unidade no dogma e no comando, e parcialmente devido à interpretação das Escrituras de acordo com as luzes de cada homem, que representantes dessas seitas heréticas, particularmente da América, começaram a visitar a Grécia por volta de 1810; e outros chegaram logo depois da Revolução, com o objetivo de ajudar os gregos no seu despertar nacional e espiritual. Alguns deles abriram escolas, que eram a gritante necessidade daquele tempo, e outros distribuíram livros ou deram cópias das Sagradas Escrituras ou no texto original ou em traduções para o grego moderno. Os gregos, no início, receberam isso sem suspeita como um presente dos seus benfeitores; e certos Patriarcas de Constantinopla, como Cirilo VI em 1814 e Gregório V em 1819, aplaudiram a propagação das Escrituras e louvaram as traduções para o grego popular como sendo de grande benefício para o povo. Mas quando os missionários protestantes começaram a revelar suas secretas intenções de tentar conseguir conversões e distribuir pequenos volumes ofensivos aos sentimentos ortodoxos, geraram a inimizade da nação e imediatamente tornaram-se impopulares, sendo suas Escrituras usadas como material para fogueiras populares. Os gregos que haviam sofrido tanto pela preservação de sua fé estavam agudamente sensíveis a qualquer ataque a ela. Eis aí o porquê de, depois de mais de um século de atividade na Grécia, o Protestantismo não poder apontar hoje como conquista mais do que um punhado de "Evangélicos" em Atenas e outras localidades.
Anglicanos e Ortodoxos.
As relações entre as Igrejas Ortodoxas e Anglicanas são completamente diferentes, pois os anglicanos, somente eles entre os vários ramos do protestantismo, tanto reconhecem as três ordens do Sacerdócio como mais ou menos louvam a Sagrada Tradição. Como já notamos, relações foram estabelecidas entre Ortodoxos e Anglicanos primeiramente no tempo de Lucar. Foram renovadas no século dezoito, quando os non-jurors (a seção da Igreja Anglicana que se recusou a fazer o juramento de lealdade a George I da Inglaterra) submeteu um plano de união com as Igrejas do Oriente aos Patriarcas do Oriente. Mas foi particularmente de 1869 em diante, que anglicanos e ortodoxos começaram a se aproximar, quando o Patriarca de Constantinopla, Gregório VI, depois de receber com grande satisfação cartas de Campbell, Arcebispo de Canterbury, em favor da união, mandou uma carta encílica a seu clero, orientando-os a sepultar membros da Igreja Anglicana, na ausência de Ministros Anglicanos, e despachou o erudito Arcebispo de Syra, Alexandre Lycurgos, para a Inglaterra, para fortalecer os elos entre as duas igrejas. Desde então, bispos anglicanos têm visitado mais de uma vez as Igrejas do Oriente, como João de Salisbury em 1898, o presente Bispo de Londres no começo da Guerra Mundial, e o atual Arcebispo de Canterbury, Cosmo Lang, que foi bem-vindo em Atenas no último ano. Bispos da Grécia, Rússia, Sérvia e outros países, não esquecendo o Patriarca Photius de Alexandria e Damianos de Jerusalém, visitaram a Inglaterra em troca e juntaram-se aos anglicanos em solenes orações na Catedral de São Paulo e na Abadia de Westminster. Um grande passo adiante na relação entre as duas igrejas foi dado no verão de 1930, quando praticamente todas as Igrejas Ortodoxas mandaram seus representantes para a Conferência de Lambeth, sob a liderança do atual empreendedor e progressista Patriarca de Alexandria, Meletius Metaxakis, para discutir e levantar termos de união. Essa amizade entre anglicanismo e ortodoxia é devida em primeiro lugar ao reconhecimento pela Igreja Ortodoxa da validade das ordens anglicanas, que sempre foram questionadas pela Igreja de Roma; em segundo lugar, à abstenção na Igreja Anglicana de esforços para converter Ortodoxos; e em terceiro, à troca de cartas de paz em ocasiões cerimoniais. As Igrejas Ortodoxa e Anglicana diferem entre si em pontos de dogma, e uma união sacramental entre elas é no momento uma possibilidade ainda remota. A diferença de crença, que caracteriza uma igreja, é incompatível com a uniformidade da fé, professada pela outra. Mas por mútuo interesse que elas têm e pela natureza fraterna de suas relações externas, Anglicanismo e Ortodoxia estão seguindo o caminho que todas as igrejas separadas deveriam seguir para o eventual atingimento de completa e católica unidade.
20. Literatura Teológica.
Literatura Teológica Após a Queda de Constantinopla.
A literatura teológica na Igreja Oriental e Apostólica Ortodoxa de língua grega, naturalmente, não revela o mesmo progresso que marcou os primeiros períodos. O saber floresceu mais em territórios livres; e os tempos em que um monge aqui e outro acolá mal e mal conseguia juntar poucos jovens à noite no pórtico da igreja, para ensinar-lhes os Oito Tons da Igreja e o Saltério, dificilmente seriam propícios para pesquisa erudita. Ainda assim, o amor pelo saber não abandonou inteiramente o clero grego. De um lado, alguns poucos centros de estudo, tais como a "Escola Patriarcal da Nação" em Constantinopla, que sucedeu a "Escola Filosófica do Patriarcado" antes da queda, continuaram a funcionar, apesar da dificuldade em florescer; e de outro lado, alguns poucos homens escolhidos foram afortunados o suficiente para prosseguir seus estudos na Europa, especialmente nas cidades de Veneza, Pádua, Pisa e Florença, então famosas como centros eruditos, e foram então capacitados a no seu retorno para casa, a transportar a tocha do saber. Do século dezessete em diante, escolas públicas começaram a ser fundadas entre os gregos, com as de Athos, Patmos, Salônica, Castoria, Cozani, Janina, Moschopolis, Cydonia, Smyrna, Trebizond, Bucarest e Jassy, onde notáveis eruditos, em sua maioria clérigos, prepararam o caminho da independência do século dezenove, e através dela, a simultânea renascença científica e teológica do oriente Ortodoxo. Literatura Eclesiástica subsequente à queda de Constantinopla, portanto, existe e é testemunhada por suas produções que eram circuladas em impresso ou permaneciam em manuscrito em várias livrarias. Enumeraremos a seguir algumas peças representantes dessa literatura, tratando de cada século em sucessão.
Eruditos dos Décimo Quinto e Décimo Sexto Séculos.
Gennadius Scholarius (+ 1460) foi o primeiro Patriarca após a queda de Constantinopla, cujo saber iluminado foi como um cometa na escura noite da escravidão que sucedeu à queda. Seus trabalhos que agora estão sendo publicados na íntegra pela primeira vez preenchem dez grossos volumes; notáveis entre eles são aqueles dirigidos contra os latinos, sua refutação dos erros do judaísmo e seu diálogo com Mohamed II. Matthew Camariotes, que foi um contemporâneo de Scholarius, foi apontado por ele como chefe da Escola Nacional do Patriarcado. Ele compos uma Exposição do Credo, e uma patética "Monodia," lamentando a queda de Constantinopla. Manuel o Peloponeso (+ 1551), que era um encarregado de registros (como cartório de hoje em dia) e orador do Patriarcado Ecumênico, é o autor de uma refutação dos argumentos de Friar Francisco, de um trabalho sobre Marcos de Éfeso e tratados contra Gemistus e Bessarion e contra o Purgatório. Maximus, o Hagiorita, o Grego (+ 1556), foi convidado para ir à Rússia pelo Príncipe Basílio em 1518, para revisar os livros eclesiásticos russos, como vimos anteriormente. Ele escreveu contra a Reforma, os judeus, os pagãos e os islâmicos. Jeremias II, Patriarca de Constantinopla (+ 1595), fez-se famoso por sua correspondência com os teólogos Luteranos de Tubingen, que manteve com a colaboração do chefe da Escola Patriarcal, João Zigomara. Meletius Pegas (+ 1603), Patriarca de Alexandria, foi um estudante de latim, hebreu, siríaco e árabe. Entre outras coisas, ele compôs uma Doutrina Ortodoxa. Maximus Margunius (+1602), Bispo de Cerigo, era tanto poeta quanto escritor de prosa, helenista e latinista. Uma de suas obras foi o Diálogo entre um Grego e um Latino.
Eruditos do Décimo Sétimo Século.
Durante o século dezessete, particularmente, os seguintes homens se distinguiram: Gabriel Severus (+ 1616) foi, de 1577 em diante, o primeiro bispo dos gregos em Veneza, sob o título de Bispo de Filadélfia. Ele escreveu um tratado sobre os Sacramentos, uma exposição contra aqueles que dizem que as crianças do Oriente são cismáticas e várias outras obras. George Koressios (+ 1633) foi um teólogo e doutor, que escreveu sobre Sacramentos sobre Transubstanciação, sobre Predestinação, sobre graça e livre arbítrio, sobre a Precessão do Espírito Santo, etc. Maximus Callipolites (+ 1637) foi o primeiro a traduzir o Novo Testamento para o grego moderno. Cirilo Lucar (+ 1638), o ilustre Patriarca e mártir, é o autor de vários curtos trabalhos polêmicos contra os católicos-romanos, um compêndio contra os judeus e (como é geralmente acreditado) uma confissão da fé Cristã, que gerou grande oposição por suas tendências calvinistas. Metrophanes Critopoulos (+ 1641), que estudou em Oxford e na Alemanha e mais tarde se tornou Patriarca de Alexandria, compôs a confissão da Igreja Oriental conhecida em seu nome. Peter Mogila (+1647), Metropolita de Kiev na Rússia, é um Vlach por descendência, compôs uma confissão para proteger seu rebanho contra os erros de crença romana e protestante. Ela foi expandida mais tarde e aperfeiçoada pelo erudito cretense Meletius Syrigos (+ 1662), sendo então contra-assinada para dar maior validade, pelos Patriarcas do Oriente, e assim tornou-se a Exposição oficial da Fé Ortodoxa. Nicolas Kerameus (+ 1672), um doutor e erudito, é o autor de um trabalho intitulado "o pecado daqueles que caluniam a una e única Igreja Católica." Nectarius de Jerusalém (+ 1676) escreveu Refutação da Supremacia Papal, cheia de pesados argumentos e largo saber, do qual muitos escritores posteriores tomaram partes emprestadas livremente. Dositeos de Jerusalem (+ 1707), que foi Patriarca por trinta e oito anos, compôs, entre outros trabalhos, a História dos Patriarcas de Jerusalem.
Eruditos do Século Dezoito.
Aqui estão os nomes dos que mais se distinguiram entre os eruditos do século dezoito: Elias Meniates (+ 1714), Bispo de Kalavryta, Grande Cisma. Meletius de Atenas (+1714) compôs trabalhos sobre astronomia, geografia e retórica, mas ele é famoso principalmente por sua História da Igreja. Seus irmãos Joanico e Sofrônio Leihoudae (+ 1717 e 1730) foram ambos padres que, após frutíferos ministérios em vários centros do helenismo, foram para a Rússia a convite do Tsar Teodoro e fundaram a Academia de Moscou, onde eles próprios ensinaram literatura, filosofia e teologia. Os irmãos Leihoudae revisaram as Escrituras Eslavônicas e também escreveram vários trabalhos em defesa da fé Ortodoxa. Chrysanthos de Jerusalém (+ 1731) deixou-nos uma história e descrição da Terra Santa e um pequeno, mas valioso trabalho sobre ofícios eclesiásticos. Eustratius Argentes (+ 1760), um culto doutor, escreveu trabalhos teológicos, entre os quais um tratado sobre pães não fermentados que é notável por seu grande saber e justo julgamento. Eugenius Bulgaris (+ 1800), que foi o chefe das Escolas de Janina e Athos e mais tarde foi promovido por Catarina II ao Arcebispado de Eslavônia e Kherson, foi o maior e mais erudito dos clérigos gregos modernos. Ele falava e escrevia dez línguas e traduziu os versos de Virgílio em versos homéricos e introduziu a moderna filosofia na Grécia. Ele também editou os trabalhos completos de Theodoreto, traduziu a obra de Zoernikau sobre a Precessão do Espírito Santo e é o autor de uma Confissão Ortodoxa, Recado para a Tolerância, Teologia Dogmática, Primeiro Século desde a Encarnação de Cristo, Conversas Pias, etc. Nicephorus Theotokis (+ 1800), que sucedeu Eugenius como Arcebispo de Eslavônia, antes de ser transferido para Astrachan, rivalizou com seu predecessor em seu conhecimento de teologia, filosofia e física. Entre outras obras, publicou uma cadeia de notas comentando o Pentateuco; e seus cursos de Domingo, nos quais interpreta num belo grego moderno as passagens de Epístolas e Evangelhos indicados para cada Domingo, ainda são extremamente populares. Anthimus de Jerusalém (+ 1808) compôs uma Syntagma de teologia e um comentário sobre os Salmos. Nicodemos o Hagiorita (+ 1809) foi um monge estudioso, cuja pena foi responsável por muitas obras em hagiografia, ascetismo, misticismo, liturgias, lei canônica e exegese prática. Ele escreveu comentários sobre as Epístolas Católicas e sobre os Salmos, a Nova Martirologia, A Batalha Invisível, Exercícios Espirituais, A Excelência de um Cristão, O Livro de Confissão, etc.; mas seu trabalho mais importante é o Rudder, da Igreja Ortodoxa, que contém todos os cânons sagrados junto com um comentário sobre cada um deles.
O Século Dezenove.
O século dezenove marca um último e notável passo adiante. Até então, o saber sagrado havia vagado pelo Oriente errante e sem lar; mas o retorno da liberdade forneceu habitações permanentes de novo. Tão cedo quanto 1810, o nobre inglês Wildford, um amigo da Grécia e da Ortodoxia, fundou, para benefício dos gregos, a Academia Iônica de Corfú, que foi na verdade um inestimável serviço para os gregos. Em 1837, a cidade da moderna Atenas adquiriu sua Universidade, na qual sérios eruditos ensinaram teologia. Em 1844, o Patriarcado de Constantinopla fundou a Escola Teológica em Halki para o treinamento científico de futuros bispos; e seu exemplo foi seguido em 1853 pelo Patriarcado de Jerusalém, que fundou a Escola Teológica da Cruz. Em torno desses principais centros, outros menores surgiram. O Estado Grego e a Igreja providenciaram boa escolaridade para capacitar alunos bem-sucedidos a ir para a Alemanha, onde se especializaram em certos ramos de estudo, e retornaram para a Grécia para transmitir os últimos resultados da ciência teológica como palestrantes ou professores. Essa prática foi seguida não só pelos ortodoxos de língua grega, mas também pelos ortodoxos romenos, sérvios, búlgaros; pois eles, também, adquirindo independência nacional, providenciaram universidades e escolas teológicas; e mandaram seus graduados para o exterior, especialmente para a Rússia, para completar seus estudos. Pois antes do cataclísmico advento do bolchevismo, a Rússia exerceu uma grande atração sobre os povos Ortodoxos dos Bálcans, especialmente sérvios e búlgaros, não só porque compartilhava a mesma fé, mas também porque do ponto de vista do ensinamento religioso, tinha atingido um invejável estado de desenvolvimento, mantendo quatro excelentes academias teológicas e possuindo um amplo quadro de professores capazes e trabalhadores treinados. Hoje, no entanto, as academias fecharam, enquanto seus professores, alguns, estão ensinando no exterior como o eminente teólogo Nicolas Glubakovski, que agora é um professor na Universidade de Sofia, enquanto outros se congregaram em Paris e ali fundaram, como medida temporária, o Instituto de Estudos Russos. O século dezenove, com todos os seus eventos, deu um novo impulso para a Teologia Ortodoxa tanto em amplitude quanto em profundidade; — em amplitude, porque os escritores teológicos não mais se confinaram, como anteriormente, a obras puramente polêmicas, mas abraçaram todos os ramos da Teologia; — e em profundidade, porque a pesquisa histórica e crítica foi daí para a frente reconhecida como o único método confiável. Eis aqui, de novo, alguns dos nomes mais proeminentes.
Eruditos do Século Dezenove e Vinte.
Constantino Oeconomos (+ 1857) distinguiu-se como um eloquente pregador e um excelente helenista. É o autor de muitas obras, mas é mais famoso por seu bem conhecido livro sobre o Septuaginto, no qual ele apoia o texto grego, sem, no entanto, deixar de pôr uma certa medida de exagero. Theocletus Pharmakides (+ 1860), professor da Escola Iônica em Corfú e mais tarde na Universidade de Atenas, foi um oponente liberal do conservador Oeconomos. Antes que os missionários tivessem revelado seus reais desígnios, ele deu apoio às traduções das Escrituras em grego moderno, e também exerceu considerável influência no desenvolvimento do governo eclesiástico na Grécia. Entre outras obras literárias, publicou uma edição do Novo Testamento, anotada copiosamente. Dionysius Cleopas (+1861), que foi professor primeiro na Escola da Cruz em Jerusalém, e depois na Universidade de Atenas, discutiu as críticas conclusões de Oeconomos. Seu melhor trabalho é uma edição do Catecismo de Cirilo de Jerusalém, com muitas anotações eruditas. Andronicus Demetracopoulos (+ 1872), padre da comunidade grega em Leipzig, devotou-se a descoberta e publicação de códigos gregos não publicados que jaziam escondidos nas livrarias da Europa. Constantino Contogones (+ 1878), um erudito e devoto professor na Universidade de Atenas, publicou uma Arqueologia Hebraica, Introdução às Escrituras, uma História Eclesiástica Patrística. Ele também foi o editor-chefe do Gospel Herald, a primeira realmente séria revista a ser publicada na Grécia. Nicolas Damalas (+ 1892), professor da Universidade de Atenas, trabalhou principalmente como comentador e deixou uma Introdução ao Novo Testamento e uma edição anotada dos três Evangelhos Sinópticos. Nicephorus Calogeras (+ 1896) escreveu entre outras coisas Teologia Pastoral e editou o que estava em manuscrito, o Comentário de Zigabenus sobre as Epístolas de São Paulo. John Scaltsunes (+ 1904), foi um estudante de leis, mas também um excelente apologista Cristão, como pode ser visto pelos seus trabalhos sobre As Harmonias entre Cristianismo e Ciência, Estudos Psicológicos e outros. Philoteos Bryennios (+1918) foi professor na Escola Teológica de Halki e mais tarde Metropolita de Nicomedia. Descobriu e editou as Epístolas de Clemente de Roma e o Ensinamento dos Apóstolos. Anastasius Kiriacos (+1923), professor da Universidade de Atenas, deixou como sua obra principal uma História Eclesiástica em três volumes. Apóstolos Christodoulos (+ 1914), professor e diretor da Escola Teológica de Halki, deixou-nos livros sobre Patrística e Lei Canônica. Entre escritores vivos, devemos mencionar Manuel Gedeon como uma grande autoridade em assuntos bizantinos, Basil Antoniades como um culto comentador e moralista, Gregório Papamichael como um amplamente lido apologista e Chrisóstomo Papadopoulos, uma vez diretor da Escola da Cruz e agora Arcebispo de Atenas, como um historiador sem rival e um autor assustadoramente prolífico.
21. Vida Cristã e Louvação.
Os Pecados dos Cristãos Escravizados.
Existe um lado escuro e feio na vida moral do Ortodoxo sob o conquistador turco. "Os judeus cativos (escreveu Ypsilantes, o autor de Eventos após a Queda) constataram que sua servitude fora o resultado de sua revolta contra o Senhor, e então eles se sentaram junto ao rio da Babilônia e choraram arrependidos de seus pecados. Mas os gregos, mesmo após todos os males de sua servitude, ainda estão impetinentes." E um por um ele descreve no seu livro os defeitos de seus companheiros-compatriotas. Inveja e ódio de uns pelos outros não eram infrequentes. Alguns elementos do clero não hesitavam em intrigar seus companheiros com os turcos, para apossar-se de seus sapatos; outros compravam o cargo de bispo com simonia; muitos imitavam seus governantes não só na sua arrogância interior, mas na sua demonstração exterior de luxúria no vestir. Os púlpitos estavam quase sempre vazios, devido à prevalecente ignorância do clero e à supertição reinante entre o povo. Porque os turcos olhavam para os Cristãos meramente como propriedade da qual deveria ser extorquida a maior soma de dinheiro possível, os próprios Cristãos passaram a ter ideia fixa pelo dinheiro acima de tudo. Uma faceta característica dessa adoração pelo dinheiro era o caçar-dote, o que causou que muitas jovens que perderam fortuna permanecessem sem casar; e a voz da igreja estava o tempo todo denunciando esse escândalo, ameaçando os caçadores-de-dote de excomunhão. Pois nesses dias era só por meio da bárbara e medieval arma da excomunhão que essas almas errantes poderiam ser induzidas a retornar a seus sentidos.
As Virtudes dos Cristãos Escravizados.
Porém, se nós nos virarmos para o lado brilhante da pintura, que santidade andou lado a lado com essas grandes aberrações! As casas de oração estavam lotadas; e jejuns e outras injunções eclesiásticas eram observados estritamente. Caridade era uma obrigação natural. Os Cristãos frequentemente coletavam dinheiro entre si para libertar prisioneiros ou aqueles que estavam mantidos injustamente nas prisões; e por séculos seus centavos mantiveram hospitais, orfanatos e escolas, ao passo que o Estado Islâmico, longe de ajudá-los, só os atacava como inimigos. A esse profundo espírito de caridade muitas instiutições deveram sua fundação, — os hospitais de Smyrna em 1745, de Adrianópolis em 1752, de Constantinopla em 1753, de Brousa em 1808, o Leprosário de Creta em 1818, o hospital de lepra de Chios em 1830, o orfanato de Constantinopla em 1853, e muitos mais, que foram seguidos mais tarde por outros mais perfeitos e numerosos estabelecimentos de caridade dada a generosidade de grandes benfeitores nacionais. E se nós considerarmos o assentamento de 1.500.000 refugiados, que após a recente catástrofe na Ásia Menor, chegaram sem um tostão no país atacado de pobreza, a Grécia, e que foram imediatamente recebidos e protegidos como irmãos, devemos prontamente reconhecer que o espírito de Cristo ainda está vivo e ativo na Igreja do Oriente.
Missionários e Mártires Ortodoxos nos Tempos Modernos.
A mesma coisa deve ser dita sobre o zelo missionário da Igreja Ortodoxa, que historiadores europeus consideram como não existente. E não estou me referindo às missões Ortodoxas russas dos séculos dezoito e dezenove na Sibéria, China e Japão, que refletem um grande crédito à Igreja Ortodoxa. Nem irei tão longe a ponto de dizer que a alvorescente civilização dos turcos deve não pouco ao longo contato com os ortodoxos e à influência silenciosa desses, neles. Mas eu me refiro especialmente a aqueles bispos e cléricos gregos de todos os níveis que nos mais escuros dias visitavam as províncias Cristãs, e, com suas vidas em risco, construíram igrejas, fundaram escolas, salvando assim a fé que estava ameaçada de extinção. Um desses, Cosmas de Aetolian, conseguiu fundar duzentas e dez escolas em Épiro, Macedônia e Grécia, antes que sua cabeça fosse cortada finalmente, pela espada do executor turco. Enquanto seus lábios murmuravam as palavras do Salmista: "Passamos pelo fogo, pela água, mas trouxeste-nos a um lugar de abundância" (66:12). Admiramos os missionários que pregaram Cristo entre povos selvagens e sofreram martírio pela fé Cristã. Mas os turcos daqueles dias eram menos selvagens que os hottentots e Kaffirs, quando não poucos Ortodoxos sofreram martírio no império turco por Jesus Cristo e Seu Evangelho? Os mártires modernos do Oriente são uma legião, e sua longa procissão estende-se desde a queda de Constantinopla, quando Mohamed o Conquistador assassinou as crianças de Notaras uma por uma diante dos seus pais moribundos, que clamavam a cada cabeça que caia: "Justo és, ó Senhor, eretos são os Teus juízos!" (Salmo 119,137), até o último Metropolita de Smyrna, Chrisóstomo, a quem em 1922, Nuredin Pasha, após inundar Smyrna com sangue Cristão, entregou à multidão turca enfurecida para ser estraçalhado em pedaços.
A Montanha Santa.
A vida monástica continuou a florescer durante os últimos séculos e proveu a igreja perseguida de clérigos zelosos e destemidos. Seu principal centro permanece até hoje na Montanha Santa ("Hagion Oros"), como habitualmente é chamado de Monte Athos, que é o lar de cerca de 5.000 monges, na maioria gregos, mas com um certo número de russos, romenos, sérvios, búlgaros e georgianos. Estão distribuídos em vinte mosteiros, doze sketes, duzentas e quatro celas, e várias outras hermitages isoladas, e são governados como uma confederação por uma "Comunidade" de vinte membros, cada um dos quais representando um dos vinte mosteiros. A comunidade também reconhece o Patriarca de Constantinopla como seu chefe supremo e aceita suas decisões. Tão cedo quanto 1749, a "Escola Atonita" foi fundada para a educação dos monges hagioritas e foi composta por excelentes professores tais como Neophytos Kausokalybetes e Eugenius Bulgaris. Hoje, no entanto, está quase inativa; pois com algumas exceções passadas e presentes, os monges infelizmente não têm amor pelo aprendizado e limitam suas atividades à oração, agricultura e trabalhos manuais leves.
Outros Centros Monásticos.
Outro centro de vida monástica menor que o Monte Athos é o que fica do Monte Sinai. Esse mosteiro data do século seis, quando foi fundado por Justiniano o Grande. Essa irmandade é governada por um abade, que é também um Arcebispo autônomo, e que só deve sua sagração ao Patriarca de Jerusalém. O Patriarcado de Jerusalém deve ele próprio ser considerado um centro de vida monástica; pois a fraternidade do Santo Sepulcro, que o controla, é nada menos que um corpo de monges, vivendo em vida comunal e reconhecendo o Patriarca como seu abade. Outros mosteiros, notáveis por sua perseverança na fé, ricas bibliotecas, e por suas lutas pela independência nacional, foram, durante os séculos passados e em alguns casos continuam a ser os de Meteora na Tessália, de Eikosiphoenissa na Macedônia, o de Sumela em Pontus, o do Theologos em Patmos, o da Santa Trindade em Halki, onde a Academia Teológica do Patriarcado Ecumênico está funcionando; e o da Santa Virgem, tambem em Halki, no qual a Escola de mercadores gregos costumava estar estabelecida, e muitos outros e assim como nas localidades de língua grega, tambem na Romenia e regiões eslavônicas muitos conventos e mosteiros similarmente floresceram, ou ainda estão florescendo, extendendo hospitalidade a todos, e oferecendo um porto seguro para muitos naufrágios da vida.
Mas os poderes seculares não olham favoravelmente para esse modo de vida e têm, gradualmente, mas firmemente, seguido o curso de fechar mosteiros e confiscar suas propriedades. Essa prática foi iniciada pelo governo grego ainda em 1833 e encurtou severamente a lista de 250 mosteiros que até então existiam na Grécia. O Governo Romeno fez a mesma coisa, quando em 1862, através de Couza, ele confiscou as propriedades que a Terra Santa e outras instituições sagradas tinham na Romênia; e uma política similar foi adotada pela Rússia Tsarista, que em 1876 pôs as mãos em propriedades, que mosteiros gregos tinham no Cáucaso e em outros locais da Rússia. Deve ser admitido, no entanto, que apesar de todos os serviços que prestou no passado, o monasticismo da Igreja Oriental está agora como um fenômeno fora de moda e pede por reforma para linhas mais práticas e sociais.
Arte Eclesiástica.
Se algum progresso foi conseguido na arte eclesiástica durante os séculos recentes, é no poderoso Império Russo do Tsar que devemos procurar. Foi principalmente na Rússia que magníficas igrejas continuaram a ser construídas, ainda na base dos estilos transplantados de Bizâncio, mas influenciados por elementos das artes italiana, polonesa, georgiana e persa. Campanários encimados por uma coroa e peculiares torres abobadadas decoram essas igrejas, que internamente são adornadas por ícones, muitos deles parcialmente encubertos por metais preciosos, mas muitos revelando sua arte nua e cheia de expressão de uma paixão mística. Dentro delas, também o canto dos corais soa em ricas, complexas e comoventes harmonias, combinando acordes da velha música com a música moderna, polifônica da Europa.
Mas no oriente escravizado, o oposto era o caso. Lá, o conquistador não permitia a construção de igrejas importantes; e por um longo período até mesmo proibiu o reparo das antigas. Ele se recusava a deixar a Cruz aparecer no topo das igrejas e não permitia o toque de sinos e canto-coral público. Os Cristãos do Oriente de modo algum diferiram daqueles que nos primeiros séculos do Cristianismo costumavam louvar seu Salvador em cavernas e catacumbas. Só no começo do século dezenove algum leve impulso começou a mexer com as artes eclesiásticas nos Balkans. Catedrais estão sendo construídas por arquitetos nativos; iconografia está sendo cultivada pela Fraternidade Josaphaei no Monte Athos e em outros locais; e a música mais polifônica de Chaviaras e Spathes está começando a ser introduzida pelas comunidades gregas na Europa. Tudo isso, no entanto, não é mais do que esforços tentativos e ainda não produziu resultados perfeitos.
A Palavra de Deus.
Devemos dar boas vindas como sinal de bons homens, às fraternidades religiosas, as escolas catequéticas e as associações Cristãs de moços e de moças, todas tendo como objetivo o renascimento do espírito religioso através do estudo e aplicação prática da Palavra de Deus na vida diária. A Igreja oficial encoraja firmemente esses movimentos, apesar deles serem ainda não mais do que pequenos e espasmódicos. E como o estudo da Escritura é o objetivo de tais movimentos, a igreja mais de uma vez contribuiu para a publicação dela nos últimos anos. Assim, em 1843, com a assistência da Sociedade Bíblica da Inglaterra, ela publicou o Velho Testamento segundo o texto Septuaginta; depois deu sua benção para uma edição puramente grega, preparada por Martinus; em 1904, com despesas pagas pelo Patriarca Ecumênico de então, Constantino Valiades, e sob a supervisão do professor Basílio Antoniades, a primeira edição crítica do Novo Testamento apareceu pela imprensa do Patriarcado; e em 1928 e 1929, a esplêndida sociedade em Atenas, conhecia como Z? H ("vida"), que forma um tipo de corpo missionário para trabalho em casa, pos em circulação uma nova, bem cuidada, portável na mão e barata edição do Velho e Novo Testamentos.
Mas edições gregas das Escrituras sempre mantiveram o texto oficial na língua alexandrina, que difere só levemente do grego como é escrito hoje. Traduções das Escrituras não são proibidas nem por razões dogmáticas nem científicas, e são por isso aceitas pelos russos e por outros. Elas, no entanto, são consideradas com relutância pelos gregos, — primeiro, porque eles estão com a lembrança dos esforços subreptícios para conversão feitos pelos missionários protestantes; segundo, porque os gregos tem orgulho por possuir as Escrituras ou no texto original, como é o caso do Novo Testamento, ou em primeira tradução, feita de um texto séculos mais antigo que o Massorético-Hebreu de hoje, como é o caso do Velho Testamento; e terceiro, porque uma tradução válida para o grego moderno feita por homens com as condições literária e teológica necessárias para a tarefa, ainda não foi feita. A última tradução para o grego moderno foi o trabalho de um comerciante que vive na Inglaterra, que escolheu esse meio para divulgar suas teorias sobre a vulgarização da língua grega escrita.
Problemas Prementes a Serem Resolvidos num Futuro Próximo.
A recente reforma do calendário, que a maioria das Igrejas Ortodoxas aceitou, e graças à qual Oriente e Ocidente novamente celebram nos mesmos dias as mais importantes de suas festas fixas, levantou-se a questão da celebração da Páscoa, da qual depende a totalidade das festas variáveis, e só um Concílio Ecumênico da Ortodoxia tem competência para resolver tal questão. Mas não é só a questão da Páscoa que exige a convocação de um Concílio Ecumênico; existem muitos outros problemas urgentes que têm se acumulado por anos e que agora chamam por solução. Entre eles estão a reforma da educação do clero sobre o duplo aspecto da escolaridade e do serviço social; a luta contra o ateísmo e ensinamento comunista; o uso geral de sermões; simplificações no ritual superelaborado; reforma da vida monástica numa direção mais prática; o casamento do clero; a redução dos dias de jejum; a revisão dos graus de parentesco que impedem casamento; estabelecimento e operação de missões tanto na pátria quanto no exterior; relações da Igreja Ortodoxa com outras Igrejas Cristãs; especialmente com a Igreja Anglicana; e muitos outros assuntos.
Mas dominando todas as outras questões que exigiram a atenção do futuro concílio geral, apresenta-se a questão essencial de como as igrejas locais que compõe a Igreja Ortodoxa Oriental, no presente mantidas unidas tão frouxamente, poderão conseguir real e efetiva unidade em um único corpo; e como, renunciando de uma vez por todas à suas alianças com diferentes ideologias políticas, e pondo de lado suas diferenças nacionais, elas irão se colocar sob a exclusiva liderança de Jesus Cristo, e lutarem juntas com uma única vontade de extender o domínio do Reino de Deus.
Fonte: https://www.fatheralexander.org/page23.htm